Somos Spartacus


 

Por Kirk Douglas*

Quando se chegar aos 95 anos, depois de superar a própria surpresa pela quantidade de anos vividos, começamos a olhar para trás. Estive pensando muito sobre meus pais, imigrantes russos que vieram para este país em 1912 – exatamente cem anos atrás.

Para eles, os Estados Unidos era um sonho além de qualquer descrição. Eles não sabiam ler ou escrever, mas deslumbraram uma vida melhor para seus filhos neste país distância do seu minúsculo shtetl na Rússia.

Contra todas as probabilidades eles cruzaram o Atlântico. E como milhões de pessoas antes e depois eles passaram próximo da Estátua da Liberdade quando entraram no porto de New York. Talvez alguém que entendesse inglês poderia ter traduzido as belas palavras de Emma Lazarus gravado em placa de bronze no pedestal daquela famosa estátua: “Dê-me seus cansados, seus pobres, suas massas encurraladas e ansiosas por respirar liberdade. O miserável refugo de suas costas cheias. Enviem-me esses dasabrigados sacudidos pelas temprestades da vida. Eu levanto a tocha da liberdade ao lado do portal dourado.”

O que os meus pais pensariam sobre a América se chegassem aqui hoje? Será que eles ainda queriam vir? Eu me pergunto.

Um século atrás a América era um farol de esperança para o mundo. Vida, liberdade e a busca da felicidade eram ideais e não meros clichês. Qualquer menino ainda poderia crescer e se tornar presidente. Hoje, poucos meninos ou meninas sequer sonham com essa questão. O sonho americano de fama rápida e fortuna fácil baseado no trabalho duro na iniciativa privada não existe mais. Eu sei algumas coisas sobre isso.

Fui ator a maior parte da minha vida. Quando comecei só pensava no que era bom para mim. Como muitas estrelas de cinema mergulhei em meu trabalho, dedicando-me aos personagens que estava interpretando.

Minha grande mudança veio de repente, quando ouvi as palavras do presidente Kennedy em seu discurso de posse em 1961, quando ele afirmou: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país.” Esse foi um momento de clareza e um divisor de águas para mim – como se alguém tivesse virado um interruptor e acendido as luzes.

Apesar da fama e do sucesso não serem resultados somente da sorte, mas também de talento e esforços contínuos, eu tive sorte. Essa minha sorte não veio sem um monte de trabalho duro, mas somente naquele momento pude perceber que a sorte também carregava uma responsabilidade junto com ela. JFK, fazendo uma chamada de consciência popular, me fez entender isso.

Suas palavras também me lembraram de algo que minha mãe me ensinou. Durante anos vivemos na pequena cidade de Amsterdam, Nova York. Tínhamos uma casa perto das fábricas de tapetes e dos trilhos de trem. Éramos muito pobres e muitas vezes não tinhamos nem o que comer. Embora não tivessemos quase nada, muitas vezes alguns mendigos dos trens batiam em nossa porta à noite pedindo comida. Sujos e com aqueles olhares desgranhados eles sempre me assustavam, mas minha mãe nunca se assustou. De alguma forma ela sempre encontrava um pouco de comida extra para dar-lhes. Numa ocasião ela me disse algo que eu jamais esqueci: “Issur”, – que era meu nome na época – “até mesmo um mendigo deve dar para outro mendigo em dificuldades maiores.”

Eu era uma estrela de cinema americano, cujas fotos e imagens eram vistas em todo o mundo. Isso me deu a oportunidade de fazer algo pelo meu país que a maioria dos americanos na época não podia fazer: me tornei um Embaixador da Boa Vontade do Departamento de Estado e viajei para mais de 40 países falando sobre a América. Naquelas viagens eu não era visto como democrata ou republicano, mas simplesmente como um americano falando sobre os valores americanos, das liberdades e direitos humanos. E desde o primeiro momento que aceitei esse encargo social fiz questão de pagar todas as minhas despesas do meu próprio bolso – não suportaria alguém afirmar que Kirk Douglas teria viajado pelo mundo com algum centavo do contribuinte.

Mas você não precisa ser uma estrela de cinema para defender as liberdades humanas básicas. A luta contra a opressão e a tirania retratada em Spartacus ainda está em curso em todo o globo, da Síria ao Egito, ao Irã. Mesmo os russos estão mais uma vez enfrentando a ameaça de um levante popular. Acredito que mesmo antes do tempo de Spartacus, quando se adoravam muitos deuses, grande parte das divisões no mundo continuam sendo causados por fanatismos religiosos. O homem não foi colocado na Terra para dizer a Deus quão grande Ele é. Ele não precisa de nossa ajuda. Estudano o nosso passado constatamos que milhões de pessoas foram mortas ao longo da história humana por causa das divisões religiosas, fundadas na ortodoxia e na falsa espiritualidade.

Independentemente de quem sejamos não podemos esqueçer que o espírito humano jamais pode ser esmagado, não importa o quão cruel, opressora ou fanática seja a crença. Se nos lembrarmos de uma verdade simples – agirmos contra todas crueldades, opreções e fanatismo de forma pessoal e coletiva, em pequenos e às vezes em grandes movimentos – as liberdades humanas tão duramente conquistadas acabarão por prevaleçer. Até lá todos nós somos Spartacus.

* Kirk Douglas, ator e autor

Notas

1. Texto baseado em “I Am Spartacus! Making a Film, Breaking the Blacklist“, décimo livro do ator e escritor Kirk Douglas. Um misto de autobriografia e pontos de vista sobre a vida e sociedade humana, lançado mes passado pela Media Open Road Integradas.

2. Tradução livre.

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3 Responses to Somos Spartacus

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