Os sonhos das arábias de Obama


Por Caroline Glick*

O Presidente dos EUA Barack Obama se apresenta como partidário convicto de dizer a verdade. Nas entrevistas concedidas à mídia e nas prévias de sua viagem à Arábia Saudita e o Egito, e durante o seu grande discurso no Cairo (04/06/09), ele proclamou que a peça central de sua política no Oriente Médio é o seu empenho em dizer verdades difíceis de ouvir.

De fato, Obama fez três referências à necessidade de dizer essas verdades em seu assim chamado discurso dirigido ao mundo islâmico.

Infelizmente, para um discurso rotulado como exercício de proferir a verdade, a fala de Obama deixou muito a desejar. Longe de expressar verdades difíceis, o discurso de Obama foi um testemunho de conveniência política.

As aparentes duras verdades a serem ditas ao mundo islâmico incluíram declarações acerca da necessidade de combater os assim chamados extremistas; dar igualdade de direitos às mulheres; defender a liberdade de fé e encorajar a democracia. Infelizmente, todas as suas declarações em relação a esses temas foram apenas manifestações abstratas e teóricas, desprovidas de quaisquer prescrições práticas.

Ele falou da necessidade de combater terroristas islâmicos sem mencionar que o respectivo respaldo e as respectivas bases intelectuais, políticas e financeiras provêm das instituições religiosas e políticas dos regimes da Arábia Saudita e do Egito, enaltecidos como moderados e responsáveis.

Ele falou da necessidade de garantir a igualdade das mulheres sem fazer menção a práticas islâmicas comuns, como os assim chamados assassinatos de honra e a mutilação genital. Ele ignorou o fato de que em todos os países islâmicos são negados às mulheres direitos humanos e direitos legais fundamentais. E ele respaldou suas declarações alegando enganosamente que as mulheres dos EUA sofrem similarmente de desigualdade de direitos. Discutindo a questão dessa maneira, Obama enviou a mensagem de que ele não poderia importar-se menos com o pleito das mulheres no mundo islâmico.

Obama falou igualmente acerca da necessidade de garantir a liberdade de fé, mas ignorou o apartheid religioso da Arábia Saudita. Pronunciou-se sobre as benesses da democracia, mas ignorou os problemas das ditaduras.

Resumindo, a “fala direta” de Obama ao mundo árabe, iniciada com a falsa proclamação de que, como a América, o Islã está comprometido com “a justiça e o progresso, a tolerância e a dignidade de todos os seres humanos”, foi conscienciosa e fundamentalmente fraudulenta. E essa fraude foi promovida para favorecer a finalidade de situar o mundo islâmico em pé de igualdade moral com o mundo livre.

De forma semelhante, as duras “verdades” de Obama sobre Israel foram caracterizadas por desonestidade factual e moral a serviço de fins políticos.

Aparentemente, Obama censurou o mundo islâmico por estar totalmente impregnado da negação do Holocausto e da ignomínia do ódio aos judeus. A asserção de que a negação do Holocausto e o anti-semitismo são erros pareceu confirmar o seu compromisso prévio de que a ligação entre a América e Israel é inabalável.

Infelizmente, um exame cuidadoso de suas declarações mostra que Obama está na verdade aceitando a visão árabe de que Israel é um intruso estrangeiro – ou seja, algo inaceitável – no mundo árabe. De fato, longe de criticar a rejeição árabe de Israel, Obama a legitimou.

O argumento árabe básico contra Israel é que a única razão da criação de Israel foi a de atenuar a consciência culpada dos europeus em relação ao Holocausto. Segundo essa narrativa, os judeus não têm qualquer direito legal, histórico ou moral à terra de Israel.

Este argumento é completamente falso. A comunidade internacional reconheceu os direitos legais, históricos e morais do povo judeu à terra de Israel muito antes de que se ouvisse falar em Adolf Hitler. Em 1922, a Liga das Nações ordenou que a Comunidade Judaica fosse reconstruída – e não criada – na terra de Israel, abrangendo suas fronteiras históricas em ambas as margens do Rio Jordão.

Mas em seu exercício auto-descrito como o de contar verdades, Obama ignorou esse fato básico preferindo aderir à mentira árabe. Ele deu credibilidade a essa mentira declarando erradamente que “a aspiração que conduziu à criação do Lar Judeu está enraizada em uma história trágica”.

Dessa forma, ele ligou explicitamente a criação de Israel ao Holocausto, apoiada numa versão histórica pessoal sobre o genocídio dos judeus europeus.

Ainda pior do que essa deliberada cegueira perante os direitos históricos, legais e morais da reconstrução de Israel, foi a própria caracterização de Israel. Leviana, falsa e insolentemente Obama comparou a atitude de Israel face aos palestinos ao tratamento dos escravos negros por parte dos escravagistas americanos brancos. De maneira ainda mais repulsiva, Obama promoveu o terrorismo palestino ao estatuto moral das rebeliões de escravos e ao movimento pelos direitos civis dos EUA, referindo-o pelo eufemismo árabe “resistência”.

Mas independentemente de sua retórica decepcionante e francamente obscena, a visão política de Obama foi ainda muito pior. Enquanto tagarelava acerca de como o Islã e a América são como duas faces da mesma moeda, Obama estabeleceu duas diretrizes claras. Primeiramente, anunciou que compeliria Israel e terminar com todas as construções para judeus em Judá, na Samaria, e em Jerusalém este, norte e sul. Em segundo lugar, ele disse que se esforçaria em convencer o Irã a substituir o seu programa de construção de armas nucleares por um programa de energia nuclear.

Obama alegou que a primeira diretriz facilitará a paz e a segunda evitará que o Irã adquira armas nucleares. A reflexão, porém, mostra claramente que nenhuma dessas diretrizes atingirá os objetivos declarados. De fato, a inadequação dessas medidas para alcançar as finalidades propostas é tão óbvia que cabe perguntar pela verdadeira razão subjacente à sua adoção.

A política do governo americano em relação à construção para judeus no coração da terra de Israel e em sua capital expõe o seu maciço nível de hostilidade contra Israel. Essa decisão não somente desmente o compromisso explícito dos EUA em relação em Israel, afirmado pela administração Bush, como contradiz o acordo de longa data entre sucessivos governos israelenses e americanos de não criar obstáculos mútuos.

Mais ainda, o fato de que o governo americano não pára de atacar Israel acerca da construção judaica em Jerusalém, Judá e Samaria, enquanto se mantém calado diante da iminente tomada de poder no Líbano por parte do Hezbollah nas eleições da próxima semana, a plataforma política genocida do Hamas, o envolvimento do Fatah com o terrorismo ou os laços norte-coreanos com o Irã e a Síria, tem conseqüências nefastas sobre a perspectiva de paz na região.

Como o líder do Fatah Mahmoud Abbas deixou claro na entrevista dada na última semana ao The Washington Post, em função da hostilidade demonstrada pela administração Obama contra Israel, a Autoridade Palestina não mais se sente compelida a fazer quaisquer concessões. Não precisa aceitar a identidade de Israel como estado judeu. Não precisa diminuir a sua exigência de que Israel cometa suicídio demográfico aceitando milhões de árabes estrangeiros hostis como cidadãos. E não precisa restringir suas exigências territoriais de que Israel fique reduzida a fronteiras indefensáveis.

Em breve, atacando Israel e responsabilizando Israel pela ausência de paz, o governo americano está encorajando os palestinos e o mundo árabe como um todo a continuar rejeitando Israel e a negar-se a celebrar a paz com o estado judeu.

O governo Netanyahu manifestou abertamente o temor de que Obama e seus conselheiros transformaram a questão dos assentamentos em algo tão importante porque querem derrubar o governo de Israel e substituí-lo pelo Kadima, um partido mais flexível. Fontes governamentais assinalaram que o Chefe de Gabinete Rahm Emmanuel desempenhou um papel central na desestabilização do primeiro governo do premier Binyamin Neanyahu em 1999, quando era conselheiro do presidente Bill Clinton. Também assinalaram que Emmanuel está trabalhando atualmente com a esquerda israelense e com judeus americanos associados ao Kadima e o Partido Democrático, para desacreditar o governo israelense.

Embora haja poucas razões para duvidar de que a administração Obama preferiria um governo de esquerda em Jerusalém, é pouco provável que a Casa Branca esteja atacando Israel principalmente em função desse objetivo, até porque neste momento dificilmente os parceiros da coalizão montada por Netanyahu irão abandoná-lo.

Em acréscimo, os americanos não têm qualquer razão para acreditar que as perspectivas de um acordo de paz melhorarão com um governo de esquerda no leme de Jerusalém. Afinal de contas, apesar de todos os seus esforços, o governo do Kadima foi incapaz de estabelecer a paz com os palestinos, tal como acontecera com o governo trabalhista anterior. O que os palestinos têm mostrado consistentemente, desde a cúpula fracassada de Camp David, em 2000, é que não há o que Israel possa oferecer que consiga contentá-los.

Então, se a finalidade dos ataques da administração americana a Israel não é nem acelerar as negociações de paz nem derrubar o governo Netanyahu, o que pode explicar esse comportamento?

A única explicação razoável é que o governo americano está importunando Israel porque deseja abandonar o estado judeu como aliado e substituí-lo por laços mais fortes com o mundo árabe. Escolheu atacar Israel em relação à construção judaica porque acredita que, concentrando-se nessa questão, minimizará o preço político que será forçado a pagar perante o público americano por revogar a aliança americana com Israel. Alegando que está pressionando Israel a aderir a uma pacífica “solução de dois estados”, Obama julga que conseguirá manter o apoio dos judeus americanos, supostamente incapazes de perceber a hostilidade subjacente à sua política aparentemente pacifista.

A política de Obama face ao Irã é o complemento lógico de sua conduta em relação a Israel. Da mesma maneira que não há qualquer probabilidade que de que atacar Israel venha a aproximar o Oriente Médio da paz, tentar impedir que o Irã adquira armas nucleares oferecendo energia nuclear aos mullahs tampouco o fará. O acordo que Obama está propondo atualmente já existe desde 2003, quando o programa nuclear do Irã foi inaugurado. Durante os últimos seis anos, os iranianos rejeitaram esse acordo repetidamente. De fato, na semana passada anunciaram novamente que o rejeitam.

Aqui, também, para entender o objetivo real do presidente é necessário procurar a resposta mais perto de casa. Visto que a política de Obama não pode prevenir o Irã de adquirir armas nucleares, é evidente que ele tem que reconciliar-se com a idéia de um Irã dotado de um arsenal atômico. Em função do que, a interpretação mais racional de sua política de entendimento com o Irã é a de que ele deseja evitar ser responsabilizado quando o Irã emergir como potência nuclear nos próximos meses.

Em suas relações com o governo Obama, é imperativo que o governo de Netanyahu e o público entendam os verdadeiros objetivos de sua política atual. Felizmente, dados confiáveis obtidos através de pesquisas de opinião pública mostram que a grande maioria dos israelenses percebe a profunda hostilidade da Casa Branca a Israel. Os mesmos dados também mostram que a população aprova as posições assumidas por Netanyahu face a nossas relações com Washington.

Doravante, o governo precisa estimular essa consciência e esse apoio populares. Tanto por palavras como por ações, não somente Obama mostrou que não é um amigo de Israel, mas provou que não há nada que Israel possa fazer para mudar a sua atitude.

* Caroline Glick, socióloga, mestre em política pública, ex-capitã das Forças de Defesa de Israel, colunista, comentarista, reporter, escritora… judia-americana; vive atualmente em Jerusalém, Israel.


Notas

1. Tradução do Inglês para Português – Jornal ALEF

2. Artigo originalmente publicado no jornal The Jerusalem Post


Fonte

1. Carolina Glick – Home

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