Um jornalista completo


“Pense num jornalista completo – um grande repórter, um grande editor, capaz de criar revistas que ficaram na história, dono de um texto impecável; e, mais do que isso, dedicado a ordenar aquela multidão de informações que, depois de passar por suas mãos, se tornam compreensíveis, ganham coordenação, passam a ter sentido.

Este jornalista tem nome: Nahum Sirotsky. Aqui, num excelente trabalho da repórter Karina Padial, da revista Imprensa, está o perfil do jornalista que criou a revista Senhor, que foi o principal repórter dos jovens Assis Chateaubriand e Roberto Marinho, que se casou com uma das atrizes mais belas e talentosas que o teatro brasileiro já teve, que esteve em mais guerras do que gosta de lembrar e que hoje, aos 83 anos, continua sendo correspondente de guerra, em Israel.

Vale a pena!”

Carlos BrickmannB & AC

Por Karina Padial *

O jornalista Nahum Sirotsky escutava sua trilha sonora preferida, embalada pelas vozes femininas da francesa Édith Piaf, da brasileira Dolores Duran e da americana Ella Fitzgerald, enquanto aguardava calmamente a ligação da reportagemda revista IMPRENSA. O gosto musical cosmopolita reflete a pluralidade cultural de sua estrada jornalística.

Nahum Sirotsky, em 2006 Há oito anos morando em Israel, Sirotsky – que comemora 83 anos em dezembro – é o atual correspondente brasileiro do portal “Último Segundo”, do iG, e do jornal Zero Hora. Mas antes de desembarcar definitivamente em Tel Aviv, para viver perto do filho e dos netos, o jornalista teve uma carreira marcada pela direção de grandes publicações e por importantes coberturas internacionais.

Esse importante e veterano jornalista, com 65 anos de carreira, ainda é pouco conhecido das novas gerações. Se os jovens profissionais, no entanto, procurassem conhecê-lo, talvez descobrissem sua fórmula de longevidade. Segundo o próprio Sirotsky diz, sua duradoura trajetória tem origem no valor que dá, desde menino, à importância do conhecimento. “Estava em uma fogueira tomando mate e ouvindo um contador de ‘causos’ lá do interior do Rio Grande do Sul, quando perguntei sobre a pessoa de quem ele estava falando. E ouvi a reposta: ‘A gente só entende depois que conhece’. Ou seja, vai estudar para aprender”, conta.

O aprendizado dos livros, aliado às experiências que acumulou nas redações, permite que Sirotsky faça uma análise da imprensa brasileira. Para ele, poucos jornalistas entendem realmente os conflitos do Oriente Médio e, por conta disso, “acabam tomando posições de acordo com as simpatias e ideologias pessoais”. E continua: “o repórter deve ter o mínimo possível de preconceito, mas o que vejo muito no Brasil é que muitos deles já parte de um ponto de vista, com uma conclusão. Não pode. Nossa função é explicar o melhor possível sem tomar posição”.


Caminhos do Acaso

Antes de se tornar jornalista, o sonho de Nahum era ser cientista. Mas para pagar os estudos e o quarto onde morava no Rio de Janeiro começou a trabalhar como contínuo da revista Diretrizes. A publicação, criada em 1938 por Samuel Wainer, não resistiu à censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), durante a Era Vargas, quando publicou uma matéria sobre Miguel Costa, um dos líderes da Coluna Prestes. “Um dia cheguei para trabalhar e a revista estava fechada”, lembra.

Desempregado, foi pedir ajuda para seus amigos da revista, que o aconselharam a falar com Herbert Moses, então presidente da ABI e diretor de O Globo, ao lado de Roberto Marinho. A primeira pergunta de Moses foi se ele sabia outras línguas. “Nessa hora eu falava tudo! Disse para ele que sabia espanhol porque falava um portunhol lá do Rio Grande do Sul; inglês, porque falava good morning e good evening; e francês, porque sabia bon jour mon amour”.

Foi contratado sem entender porque um contínuo como ele precisava conhecer idiomas. Só percebeu que tinha se tornado repórter quando foi enviado para entrevistar um médico que viera dos EUA apresentar aos colegas brasileiros uma nova técnica de cirurgia. Na nova função, também passou a acompanhar o embarque e desembarque de navios no porto, muito movimentado na época em razão da 2ª Guerra Mundial.

Filho de caixeiro viajante, Nahum lembra que por causa da profissão do pai, durante o ginásio, mudou três vezes de escola. Como jornalista de O Globo, agora era ele que não tinha pouso fixo.

Por “falar” outras línguas, Roberto Marinho escalou-o para cobrir a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), nos Estados Unidos.

Tinha, então, 19 anos quando viajou de navio por 56 dias para sua primeira experiência como correspondente internacional. “Considero minha iniciação em cobertura de guerras: durante a viagem a gente via submarinos”, lembra. Nos dois anos que ficou em terras norte-americanas, fez contatos com a elite política e econômica internacional e trabalhou para três jornais locais, entre eles o New York Post.

A volta dos Estados Unidos não resultou no fim de suas andanças, pelo contrário. Ainda pelo O Globo, viajou, entre outros países, para a França, Argentina, Colômbia e Alemanha, país que percorreu inteiro logo após o fim da 2ª Guerra.

Quando finalmente aportou no Brasil, foi convidado para dirigir uma nova revista que um grupo americano lançava no Brasil. Nahum assumiu a direção da Visão quando tinha 24 anos.

“Eu era chefe de reportagem, mas não tinha nenhum repórter. Era só eu”, lembra. Mesmo assim, conseguiu transformar o título num projeto bem-sucedido e “em dois anos eu já era conhecido no Brasil inteiro”. Foi, por isso, que Assis Chateaubriand não demorou a convidá-lo para assumir a direção do jornal Diário da Noite.

Acabou aceitando porque Chatô lhe fez uma proposta irrecusável: “Eu ganhava uns 3 mil cruzeiros no O Globo. Quando fui para a revista, sugeri 20 mil para os ‘gringos’ e eles aceitaram. Como eu não queria ir para os Associados, pedi 100 mil e ele pagou. Era o maior salário do Brasil”.

O jornal conhecido pelas manchetes sensacionalistas chegava a vender 200 mil exemplares por dia.

Ele lembra que, numa madrugada, ao chegar à redação, sugeriram a ele que estampasse na capa “Tel Aviv em Chamas”: começava a Guerra de Sinai. Como sua mulher e seu filho estavam lá e as linhas telefônicas estavam cortadas, o jornalista resolveu pedir uma licença a Chatô para viajar até Israel. Ele respondeu: “O importante na vida do homem é o jornal. Família é secundário. Essa guerra vai acabar num instante”. Inconformado, pediu demissão, mas, mesmo assim, não conseguiu viajar.

Esse episódio faz Sirotsky relembrar as experiências de guerra. “Procuro esquecer, inclusive, para não ter muitos pesadelos. Já vi muita gente morrer. E vi também como o homem é um animal cruel, pior que qualquer outro animal, pois tem metralhadora na mão, granada, ele tem um poder de matar muito grande”.

Sem emprego, Sirotsky voltou à procura. Otto Lara Resende – então diretor da revista Manchete – ia para a Bélgica como adido e lhe sugeriu que procurasse Adolpho Bloch, dono da publicação, para ocupar seu lugar. Pouco tempo depois, Sirotsky assumiu a direção da revista. Contratou nova equipe, que deu qualidade à impressão, projeto gráfico e conteúdo e transformou-a num sucesso de vendas.

Anos depois, durante uma festa, sua mulher, a atriz Beyla Genauer, encontrou um dos sócios da editora Delta Larousse. Apresentou-o ao marido, de quem recebeu a sugestão de criar uma nova publicação. Nascia, assim, o projeto da revista Senhor, considerada até hoje um marco no jornalismo cultural brasileiro.

Tanta modernidade em um veículo só foi possível pelo conhecimento que Nahum tinha sobre publicações estrangeiras. “Eles pediram que eu fizesse um projeto. Fui à banca, comprei diversos exemplares de publicações internacionais que já conhecia e montei um boneco da revista na base do recorte e cole”. A publicação trouxe inovação ao design gráfico brasileiro com a direção artística de Carlos Scliar. Quando a Senhor foi vendida, o jornalista passou a ter divergência de idéias com o novo dono e resolveu largar o projeto.


De volta ao mundo

Aliando a saudade do tempo em que percorria países atrás de notícias ao fato de estar sem trabalho, aceitou prontamente o convite de seu amigo, o diplomata Roberto Campos, para ser seu adido em Washington. Instalou-se novamente nos Estados Unidos, dessa vez com a família e passou a colaborar para veículos brasileiros, assinando com pseudônimos, já que funcionários do governo não podiam escrever sobre política.

Voltou ao Brasil quando o general Geisel, então Chefe da Casa Militar, chamou-o de volta para escrever discursos e trabalhar como assessor de Campos. “Não dava para dizer não, porque era uma ordem e não um convite”, conta. “Mas eu pedi a eles que, assim que eu terminasse meu trabalho, queria passar um tempo em Israel com a minha mulher”. E assim aconteceu.

De lá, passou a colaborar para o Jornal do Brasil e para O Estado de S. Paulo, no qual escrevia com pseudônimo de Nelson Santos. Burlando a lei, cobriu para as duas publicações o conflito de 1967, conhecido como Guerra dos Seis Dias.

A veia de líder jornalístico também levou Nahum Sirotsky a dirigir a publicação Israel Magazine, editada em inglês. A experiência o fez perceber que a imprensa israelense é inteiramente livre, mesmo em período de guerra. “A única censura existente é que os veículos não podem revelar certas coisas de importância militar ou estratégica, a exemplo de onde está uma base ou preparativos de tropas para atacar”.

Cansado da vida de diplomata, voltou ao Brasil depois de seis anos. Abriu uma empresa de assessoria política, econômica e de relações públicas. “Como eu não sabia direito o que era, batizei de engenharia política. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro mesmo”.

Porém, Sirotsky não se acostumou com a vida dentro do escritório e arrumou novamente as malas com destino a Israel.

Há cerca de cinco anos, quando foi visitar a área da Faixa de Gaza, se envolveu em uma confusão com soldados de Israel e ‘combatentes’ árabes, sendo atingido no joelho por uma pedra que debilitou a mobilidade de uma perna. “Além disso, com a minha idade, não tenho mais preparo para ir a campo. Você precisa ter reflexos rápidos, saber correr, saber se jogar no chão, saber se esconder”, relata. Passou a acompanhar os conflitos pelo noticiário e pelo clima que envolve os países. Foi assim com a guerra entre Israel e a ‘organização’ libanesa Hezbollah, em 2006.

Ao que tudo indica, a estada israelense de Sirotsky, dessa vez, parece definitiva. “Minha família está aqui e no Brasil não teria mais emprego”. Além da idade, segundo ele, seu sobrenome gera insegurança na mídia nacional: “Sou primo da primeira geração dos sócios da RBS. Mas eles construíram um império, foram inteligentes e competentes. Eu não construí.”

Portanto, segundo Sirotsky, a grande mídia não estaria interessada em seu trabalho pelo peso de um sobrenome que não recai diretamente sobre ele. “Quando me ofereci para voltar, eles falaram que eu era milionário, dono da Rádio e da TV Gaúcha, do Zero Hora e que não podia tirar emprego de outros colegas de profissão”, diz. Tal reação, envolvendo o nome de um personagem fundamental do jornalismo brasileiro, pode ter duas fontes prováveis. Ou seus interlocutores fazem parte daquelas novas gerações de jornalistas, pouco ávidas por conhecimento; ou sabem quem é Nahum Sirotsky, mas se assustam com o lastro de seu currículo.

No primeiro caso, são ignorantes; no segundo, são medrosos mesmo.


*Karina Padial, jornalista da equipe de estagiários da revista Imprensa


Notas

1. Matéria original publicado na Revista Imprensa, edição n° 240

2. “Ou se é atual, ou já não se é mais“. entrevista Nahum Sirotsky concedida à jornalista Solange Noronha, da ABI – Associação Brasileira de Imprensa -, em 27/01/2006.

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3 Responses to Um jornalista completo

  1. Opa! Brilhante a trajetória desse jornalista que deve ser um aprendizado atrás do outro com tanto ensinamento. Estou ainda bem no início da profissão de jornalista….já vou completar quase dois anos de formado e o que sinto é o quanto da nossa profissão exige pesquisa e criatividade. Adorei conhecer a biografia de Nahum Sirotsky escrita de forma tão atrativa.

    Abraço,

    =]

    ——————-
    http://cafecomnoticias.blogspot.com

  2. Tania Araujo says:

    Excelente materia com um dos maiores jornalista brasileiro de todos os tempos.

  3. VESPAZIANO says:

    Olá.
    Conheço os artigos do Nahun, a tempos que eu leio, atravez dos seus artigos cheguei a conclusão que EUA iriam invadir o Iraque. É um excelente jornalista. Gosto de seus artigos e o acompanham a quase 6 anos. Mas não sabia de sua vida, agora sei e fico feliz por saber que se trata de uma pessoa séria, que ama a família e procura no seu trabalho informar mais as pessoas do que ocorre no outro lado do mundo. Um forte abraço a voce que fez a matéria e um Shalon ao Nahun… By..

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