O Tempo dos Palestinos está se acabando


Por Bradley Burston *

Aos meus amigos Palestinos, com tristeza:

Compreendo porque há muito tempo vocês chegaram a pensar que o tempo estava ao seu lado. Compreendo os diversos fatores – demográficos, culturais, históricos, geopolíticos, etc. – que serviram para reforçar essa crença; para sedimentar sua forte convicção de que o Estado Palestino era inevitável, inalienável – em todos os sentidos tudo seria uma questão de tempo!

Compreendo porque vocês chegaram a acreditar que o Estado de Israel seria apenas o último de uma longa série de episódios coloniais fugazes; que suas raízes estavam em outras regiões do planeta; que sua força era ilusória, sua resistência estava se erodindo, seu espírito quebrado e o seu futuro seria sombrio. Compreendo que acreditam que podem esperar que essas pessoas vão embora; que elas sejam destroçadas e vencidas; que vocês reduzam sua moral, as superem em número e, finalmente, as vençam…

Compreendo que acreditem que foguetes e morteiros a partir do norte, sul, leste e, eventualmente do oeste, podem reduzir a população, apagar as fronteiras de Israel pré-1967 até que não haja nenhuma necessidade de concordar com um Estado Judeu nessas fronteiras, nem necessidade de acordo sobre os refugiados, Jerusalém, assentamentos, sem a necessidade de conversas diretas, nenhuma necessidade de autoanálise nem de reconsideração, não havendo necessidade de se curvar.

Compreendo que acreditem que este é seu direito, religiosamente, moralmente e politicamente. Compreendo por quê vocês acreditam que podem esperar.

Agora já são três gerações desde 1948, desde a sua Nakba, que esperam. Isto é o que peço que considerem:

Seu tempo está se acabando

Se não começarem a agir com toda vossa sabedoria em direção a seu próprio Estado, estarão correndo o risco de se tornarem os Curdos da bacia do Mediterrâneo, os nativos americanos do Oriente Médio, permanentemente apátridas, eternamente renegados.

Se não começarem a repensar o rumo que o movimento nacional Palestino tem tomado, devem começar a considerar a idéia de um mundo sem uma Palestina. O mundo começa a sentir-se cada vez mais confortável com essa possibilidade, e é chegado o momento de vocês pensarem bem sobre as razões disto.

Nós, no Ocidente pós-moderno passamos anos educando-nos a crer que todas as culturas são igualmente válidas – com a possível exceção, naturalmente, da nossa própria. Passamos a acreditar que criticar a cultura de um povo nativo é obscenamente imperialista, paternalista.

Em suma, lhes demos um salvo-conduto. E os incentivamos a dar-se um a si mesmos. Ao respeitar-lhes sua perseverança, abstivemo-nos de repreende-los por sua passividade. Ao aceitar e amplificar as suas alegações sobre as injustiças de Israel, optamos por não cobrar-lhes por suas próprias condutas, ou por explicá-las como uma função da ocupação.

Vocês aprenderam, ao longo do tempo, a culpar Israel por toda a sua desgraça. Vocês aprenderam, ao longo do tempo, a ignorar, explicar, culpar totalmente Israel, ou então, negar as formas em que suas ações e, em particular, a sua passividade, aprofundou e fomentou a vossa miséria. Vocês aprenderam a desculpar seus dirigentes por sua corrupção e a aceitar a política deles de sempre frustrar as tentativas de Israel (e outros países) tentar melhorar suas condições. Vocês aprenderam a desculpar seus irmãos árabes por sua duplicidade, suas mentiras, sua exploração, seu frio desprezo e sua absoluta falência em vir em sua ajuda.

No processo, vocês podem ter se acostumado a definição de tempo e dos povos nativos, que merecem um re-exame. Vejamos, em primeiro lugar, estas:

Os judeus “são estrangeiros”

Vocês têm retratado os Judeus como uma influência estrangeira. Vocês têm ignorado sua história, dessecrado seu sangue, renegado sua ligação tendonal com Jerusalém, agido como se eles não tivessem qualquer negócio aqui, a não ser fazer o mal.

Mas, nessas décadas em que vocês vêm gastando tampo e se autoenganando sobre a verdadeira natureza da cultura e das origens dos Judeus, geração após geração de Judeus têm nascido aqui. Eles são nativos. Eles não vão para lado nenhum. E mesmo os mais esquerdistas entre eles estão dispostos a morrer em defesa de permaneceram nesta terra.

Terra por Paz

Pior, talvez, é a maneira em que vocês transformaram em meta mortal o conceito de terras por paz, destruindo o conceito, talvez para sempre. Suas tentativas de justificar o uso das ruínas dos assentamentos de Gaza para os lançadores de foguetes Qassam não convencem mais ninguém. Vocês conseguiram justificar todas as previsões e alegações da direita Israelense. Vocês vêm perdendo incomensurável apoio internacional. Vocês são vistos hoje no exterior como tremendamente polarizados, paralisados por lutas internas e incapazes de chegar à acordos, de acatar ordens de seus próprios líderes ou executar decisões.

Infelizes aliados

A respeito das comemorações dos 60 anos de indepência de Israel, vosso ‘irmão, amigo e defensor’ Mahmoud Ahmadinejad, disse que “… Israel chegou ao fim como um rato morto após ser pisoteado pelos libaneses” e “Aqueles que pensam que podem reviver o cadáver fedorento do regime Israelense usurpador e falso ao comemorar uma festa de aniversário estão seriamente enganados”.

Nessa mesma semana o vosso aliado Bin Laden disse que “…o 60º aniversário de Israel seria a prova de que a Palestina é a nossa terra, e os Israelenses são invasores e ocupantes que devem ser combatidos. Vamos continuar, se D-us o permitir, a luta contra os Israelenses e os seus aliados … e não desistiremos de um único centímetro da Palestina, enquanto houver um único verdadeiro Muçulmano na terra”.

O que os seus infelizes aliados estão dizendo é que é mais importante eliminar o Estado Judeu de Israel do que criar um Estado Palestino.

Opções erradas

Ao longo de toda esta década o movimento nacional Palestino vem agido assim, aplicando opções políticas que, lentamente, os estão marginalizando perante o mundo. E, o mesmo tempo, efetivamente justificado a direita Israelense, fazendo tudo ao seu alcance para elevar o estatus dos colonos de uma entidade anárquica, marginalizada e em declínio para uma poderosa força política e mesmo profética.

Graças, em grande parte a vocês mesmos, o movimento de assentamentos está mais forte e organizado como jamais esteve, confiante de que seus foguetes e suas retóricas belicista farão com que, à medida que os anos e as gerações passem, os assentados venham a ser vistos como nativos.

Os colonos jamais serão capazes de pagar essa dívida para vocês.

Vocês devem ter percebido que graças à segunda Intifada, às centenas de atentados suicidas nas principais cidades de Israel, aos milhares de Qassams, morteiros e foguetes Katyushas, a esquerda israelense está furiosa com vocês; os de centro não querem mais nem ouvir falar de vocês, e os da direita satisfeitos com as decisões que vocês têm tomado e com as ações que têm empreendido.

Baseado nisto talvez vocês concluam que a esquerda Israelense era pouco confiável e que todos os Israelenses são iguais…

Ou vocês podem repensar. É verdade, no passado Israel era isolado, estigmatizado, universalmente condenado, boicotado. Mas suas retóricas e ações, as de Bin Laden, as do Irã e outros ‘aliados’ de vocês colocaram Israel efetivamente nas boas graças de uma série de países que começaram a pensar duas vezes sobre vocês. Alguns, na verdade, já começam a esqueçe-los, a não se preocuparem mais com com vocês. Nenhum país do mundo – inclusive Israel – deixou de se preocupar com vocês no passado. Agora, quando suas frustrações são realmente piores do que nunca, seus gritos e lamentos estão caíndo em orelhas surdas – ou hostis.

Nós, dos meios de comunicação, da mídia, embalamos vocês, apoiamos vocês, consideramos vocês os nobres perseguidos. Em resposta, vocês decidiram que “…os Judeus controlam a mídia, que ela toma o lado de Israel, que difama a causa Palestina”.

Olhem novamente

Sua celebração do terror tem alienado muitos de seus amigos mais íntimos.

Vocês fizeram isso. Vocês… Ninguém mais… Vocês convenceram definitivamente os Israelenses que estavam dispostos a trocar Judeia e Samária por paz, que isso seria literalmente um erro fatal.

No mês passado, como se para tirar o que ainda sobrava de dúvida, o veterano representante da Autoridade Palestina no Líbano, membro do Comitê Central da Fatah, Abbas Zaki, disse a uma estação de televisão libanesa: “Deixe-me dizer-lhe, quando a ideologia de Israel desmoronar, e tomarmos, pelo menos, Jerusalém… Ai a ideologia Israelenses entrará em colapso na sua totalidade, e vamos começar a avançar com a nossa própria ideologia, Se D-us quiser, e então vamos expulsar todos judeus da Palestina”.

Vocês devem a seus filhos mais do que isso. Vocês devem a seus filhos mais do que sonhos irrealizáveis, pesadelos, ameaças e delírios. Vocês lhes devem mais do que o mero status de vítimas. Devem-lhes, aos seus filhos, e aos filhos deles também, mais que uma cultura de fracasso, de passividade, de violência e de perda. Vocês devem a seus filhos, aos filhos de seus filhos – e aos nossos – uma honesta busca da paz.

Ou vocês apenas preferem que eu simplesmente me cale? São só desvaneios de mais um Judeu pouco confiável? Ainda querem acreditar que vocês fizeram tudo certinho? Ainda querem acreditar que os poucos que seguem seus amigos na esquerda do Ocidente são só uns babacas impotentes? Ainda querem seguir acreditando que, se vocês se aguentarem por tempo suficiente, tudo vai sair do seu jeito?

Que seja da forma que vocês quiserem.

Talvez, infelizmente para ambos os lados, possamos esperar.

* Bradley Burston. jornalista correspondente do jornal Haaretz e editor da edição online em inglês do mesmo jornal.

Fonte

1. Haaretz – 17/06/2008

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One Response to O Tempo dos Palestinos está se acabando

  1. Não se trata de comentário porque não entendo muito claramente as questões do oriente médio. Este ódio sem fim dirigido ao povo judeu.
    O que sei é que o povo judeu habitou aquelas terras desde os tempos bíblicos. Depois aconteceu a diáspora. Após a trajédia da segunda guerra foi criado o Estado de Israel na terra onde já haviam habitado. Não é isto?
    Entendo que a região não é só dos palestinos. Se parassem de pertubar e trabalhassem para a constução do seu Estado seria mais positivo.
    Therezinha

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