O Inimigo Tem um Nome


Por Daniel Pipes*

Se você não puder dar um nome ao seu inimigo, como poderá derrotá-lo? Da mesma maneira que um médico precisa identificar uma doença antes de curar um paciente, um estrategista necessita identificar o inimigo antes de vencer uma guerra. No entanto os povos ocidentais se mostram relutantes em identificar o oponente no conflito que o governo norte-americano de forma variada (e eufemística) chama de “guerra ao terror global” a “longa guerra“, o “conflito global contra o extremismo violento“, ou até mesmo o “conflito global para a segurança e o progresso“.

Esta timidez se traduz numa inabilidade para definir metas de guerra. Duas declarações norte-americanas de alto-nível no final de 2001 tipificam as declarações vagas e ineficazes emitidas pelos governos ocidentais. O Secretário da Defesa Donald Rumsfeld definiu como vitória a instauração de “um ambiente onde nós podemos de fato atingir e viver as [nossas] liberdades”. Diferentemente, George W. Bush anunciou uma meta mais limitada, “a derrota da rede global do terror” – seja lá qual for esta não identificada rede.

“Derrotar o terrorismo” na realidade permanece a meta básica da guerra. Implicitamente, os terroristas são os inimigos e o contra-terrorismo é a resposta principal.

Porém os observadores cada vez mais concluem que o terrorismo é apenas uma tática, não um inimigo. Bush efetivamente admitiu claramente isto em meados de 2004, reconhecendo que “Nós na realidade estamos dando um nome errado à guerra ao terror”. Ao invés disso, ele a chamou de “um conflito contra extremistas ideológicos que não acreditam em sociedades livres e que usam o terror como uma arma para tentar sacudir a consciência do mundo livre”.

Um ano depois, após os atentados de 7 de julho no sistema de transportes em Londres, o primeiro-ministro britânico Tony Blair prosseguiu com a discussão falando do inimigo como “uma ideologia religiosa, uma tensão dentro da religião do Islã no mundo”. Em seguida, o próprio Bush usou os termos “radicalismo islâmico”, “jihadismo militante” e “islamo-fascismo”. Mas estes termos instigaram muitas críticas e ele voltou atrás.

Na metade de 2007, Bush voltou a falar sobre “o grande conflito contra o extremismo que está ocorrendo agora pelo Oriente Médio”. É nesse ponto que as coisas estão hoje em dia, com as agências do governo norte-americano sendo aconselhadas a se referir ao inimigo em termos nebulosos como “culto da morte”, “como um culto”, “culto sectário” e “violência cultista”.

Na realidade, esse inimigo tem um nome preciso e conciso: Islamismo, uma versão utópica radical do Islã. Islâmicos, os partidários desta bem financiada e bem difundida ideologia totalitária, está tentando criar uma ordem islâmica global que aplica a lei islâmica (Shari‘a) na sua totalidade.

Assim definido, a necessária resposta fica clara. Ela se divide em duas partes: derrotar o islamismo e ajudar os muçulmanos a desenvolverem uma forma alternativa do Islã. Não coincidentemente, esta abordagem compara de forma grosseira o que as forças aliadas realizaram vis-à-vis nos dois movimentos utópicos radicais anteriores, o fascismo e comunismo.

Primeiro vem o fardo de derrotar um inimigo ideológico. Como em 1945 e 1991, a meta deve ser marginalizar e debilitar um movimento ideologicamente coerente e agressivo, de forma que já não atraia seguidores nem que pose uma ameaça de estremecer o mundo. A Segunda Guerra Mundial, vencida com sangue, aço e bombas atômicas, oferece um modelo de vitória, a Guerra Fria, com sua contenção, complexidade e colapso quase que pacífico, oferece um outro totalmente diferente.

Presumivelmente, a vitória contra o islamismo utilizará estes legados e os combinará em uma nova mistura de guerra convencional, contra-terrorismo, contrapropaganda, e muitas outras estratégias. De um lado, o empenho de guerra levou à derrubada do governo do Taliban no Afeganistão; do outro, requer o afastamento dos islâmicos que atuam dentro do sistema legal que trabalham legitimamente dentro do sistema educacional, religioso, da mídia, nas arenas legais e políticas.

A segunda meta envolve ajudar os muçulmanos que se opõem aos objetivos dos islâmicos e desejam oferecer uma alternativa às depravações do islamismo, reconciliando o Islã com o que há de melhor dos costumes modernos. Mas esses muçulmanos são fracos, indivíduos divididos que só agora começaram o trabalho árduo de pesquisar, comunicar, organizar, financiar e mobilizar.

Para fazer tudo isso mais rápida e efetivamente, estes moderados necessitam de encorajamento não-muçulmano e de patrocínio. O quanto inexpressivo eles possam ser no momento, os moderados, com o apoio ocidental, apenas isso, apresentam o potencial para modernizar o Islã e assim acabar com a ameaça do islamismo.

Em última análise, o islamismo apresenta dois desafios principais ao Ocidente: Falar de forma franca e ter como objetivo a vitória. Nada disso vem naturalmente ao indivíduo moderno que tende a preferir a justeza política e a resolução de conflitos ou até o apaziguamento. Mas, uma vez superadas estas barreiras, a fraqueza de objetivo do inimigo do islâmico em termos de arsenal, economia e de recursos significa que ele pode ser derrotado prontamente.

* Daniel Pipes é um dos maiores especialistas da atualidade em Oriente Médio, Islã e terrorismo islamista da atualidade. Historiador (Harvard), arabista, ex-professor (universidades de Chicago e Harvard; U.S. Naval War College), Pipes mantém seu próprio site e dirige o Middle East Forum, que concebeu junto com Al Wood e Amy Shargel — enquanto conversavam à mesa da cozinha de sua casa, na Filadélfia — e que hoje, dez anos mais tarde, tem escritórios em Boston, Cleveland e Nova York. Depois do MEF, vieram o Middle East Quartely, o Middle East Intelligence Bulletin e o Campus Watch, dos quais ele participa ativamente. Juntos, esses websites recebem mais de 300 mil visitantes por mês. Por fazer a distinção sistemática entre muçulmanos não-islamistas e extremistas islâmicos, Daniel Pipes tem sido alvo de ataques contundentes. A polêmica gerada por sua nomeação, em 2003, para o Institute of Peace pelo presidente George Bush apenas confirmou o quanto as idéias de Pipes incomodam as organizações islamistas e outros interessados em misturar muçulmanos e terrorismo. Daniel Pipes é autor de 12 livros, entre eles, Militant Islam Reaches America, Conspiracy, The Hidden Hand e Miniatures, coletânea lançada em 2003.

Notas

1. Título original em inglês: The Enemy Has a Name

2. Publicado no jornal Jerusalem Post, em 19 de junho de 2008

3. Tradução: Joseph Skilnik

4. Para ler mais artigos escritos por Daniel Pipe: http://pt.danielpipes.org

 

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