O povo mais hipocrática na terra


Por Michael Béhé *

Os políticos, jornalistas e intelectuais libaneses ficaram chocados quando souberam que o Hezbollah tinha criado um estado independente dentro do nosso país! Um estado completamente organizado, incluíndo ministérios e instituições paralelas, duplicando o governo e as organizações administrativas do Líbano. O que não sabiam, descobriram em 2006 com a guerra: a extensão desta fagocitoses.

De fato, nosso país tinha se transformado em uma extensão de Irã, com nosso poder político suprimido e nossas forças armadas indiretamente envolvida à serviço de Teerã. Descobrimos de repente que o Irã, com ajuda da Síria, tinha estocado mais de 12.000 mísseis – de todos os tipos e calibres – em nosso território e que paciente e sistematicamente organizou uma considerável força militar paralela; que estudou, dia após dia, todos os aspectos estratégicos e de segurança do Líbano e de Israel. Apenas imagine: estocaram mísseis terra-terra e terra-mar em nosso território e dispararam tais dispositivos sem o conhecimento do legítimo governo libanês, em ações de guerra que poderiam ter deflagrado um conflito estratégico regional com potencial para aniquilação total do Líbano!

Soubemos que o Irã, por meio da Hezbollah, construía uma verdadeira linha Maginot, ao sul – divisa com Israel -, mas foram as fotos de Maroun el-Ras e Bint J’bail que nos revelaram verdadeiramente o valor e as dimensões destas construções. Estas informações nos fez compreender diversas coisas de uma só vez: que não éramos o senhor do nosso próprio destino, que não possuímos os meios mais básicos e necessários para inverter o curso daquela situação e que, aqueles que transformaram nosso país em um posto de combate da sua doutrina islâmica contro Israel jamais tiveram a intenção, a mínima que fosse, de retirar sua pressão – política, militar e psicológica – sobre nós.

A focalização – atrasada, diga-se de passagem – das “discussões de salvação nacional” através da aplicação da resolução 1.559 da ONU, que envolvia a maioria dos povos e movimentos políticos libaneses, foi utilizada pelo Hezbollar como um instrumento de manobra para desviar a atenção dos libaneses e, ao mesmo tempo, concluir os preparativos finais da guerra contra Israel planejada pelo Irã e pela Síria. Sim, uma guerra planejada, pois estes países não investiriam bilhões de dólares para organizar e militarizar o Líbano extra-oficial, para depois, simplesmente cedendo aos desejos dos libaneses e da comunidade internacional, embalar suas ferragens e retornar para casa.

E então, a indecisão, a covardia, a divisão e o comportamento irresponsável dos nossos líderes foram tais que nem ao menos se esforçaram para mostrarem seus talentos. Para estes, não havia necessidade de se engajar em um combate, mesmo se unidos com outros componentes políticos da terra dos cedros. Atitude que têm se mostrado – e continue a se mostrar – ser inconsistente e mesmo indícios de falta de determinação de parte de um povo.

É verdade que o nosso recém formado exército, depois de anos da ocupação Síria, não poderia cumprir por muito tempo seu papel de protetor da nação: faltava-lhe equipamentos, armas, munições e nem usaria as “táticas de milícias do Hezb [1]. Por outro lado, também é verdade, às vezes é mais perigoso envolver nosso exército em ações – por causa do equilíbrio explosivo que constitui suas brigadas, formada conforme a religião – do que mantê-lo atrás das portas de seus quarteis. Um exército que em sua maior parte ainda é leal aos seus antigos mestres estrangeiros, ao ponto de ser incontrolável; de terem colaborado com os iranianos no uso das NOSSAS estações de radar do litoral para direcionar seus mísseis para um inimigo deles, e que quase afundaram um barco israelense fora das costas de Beirute. Quanto aos elementos do governo que não são Hezbollah, afirmaram que não sabiam de nada sobre a existência de mísseis em nosso território. Estas ações estrangeiras dentro do nosso território, com a colaboração de elementos do nosso exército simplesmente causaram a destruição totalmente justificada de todas NOSSAS estações de radar pelo exército hebreu. E então nos nivelamos aos servos do Irã e Síria e começamos a justificar o injustificável…

Agora é fácil se lamentar da “opressão” e hipócritamente se fazer de vítima. Sabemos que o nosso poço está cheio de traição e covardia e, mesmo assim, pegamos outros para que tenham piedade de nós e continuamos afirmando que não fomos responsáveis pelos horrores que ocorrem regularmente em nosso solo. Como podemos denominar estes tipos de procedimentos se não como vergonhosos e desonrosos, nada mas do que lixo!

A resolução da ONU de 1.559, votada e aprovada em 2 setembro 2.004, determina que NOSSO governo posicione NOSSO exército em NOSSO território soberano, ao longo das NOSSAS divisas internacionais – e isto inclui nossas divisas com Israel, ao sul – e que desarme todas as milícias em NOSSA terra. Tivemos dois anos para implantarmos esta resolução e assim garantirmos um futuro mais calmo e seguro para nossas crianças, mas não fizemos absolutamente nada. Nosso crime maior – que não foi o único! – não foi não termos feito nada, mas nem ao menos termos tentado fazer alguma coisa. E aquilo não foi falha de ninguém a não ser dos patéticos políticos libaneses.

Nosso governo, no momento crucial de ocupação Síria, deixou navios carregados com armas ancorarem em nossos portos e desembarcar armas de guerra! Sem nem mesmo inspecionar suas cargas! Pondo em extremo perigo todas as possibilidades para o renascimento de nosso país e confundindo a volta do cedro com o liberação de Beirute. Na realidade, tínhamos recebido apenas possibilidades – esperanças – para nos permitir administrar nosso país com nossas próprias mãos, nada mais.

Foi por pensar que éramos mesmo incapazes de concordar com a “queda” de Émile Lahoud – o fantoche de al-Assad – e sua transformação em mártire que ele continuou sendo o presidente daquilo que alguns ainda insistem em chamar de a nossa república do Líbano… Não há nenhuma necessidade de olhares e avaliações adicionais: está tudo muito claro, somos o que somos, isto devemos dizer, embora não muito.

Todos aqueles que assumiram responsabilidades pública e de comunicação neste país são responsáveis para este catástrofe. Exceto aqueles meus colegas jornalistas e editores que estão inoperantes, assassinados pelos sírios porque foram claramente menos covardes do que aqueles que sobreviveram. E Lahoud continuou em Baadbé [2]!

Quando falo de uma catástrofe, não significa as ações realizadas por Israel em resposta às agressões contra seus civis e o seu exército, que foram realizadas apartir do nosso solo – e não fizemos absolutamente nada para evitar, e que, por conseqüência, também somos responsáveis. Alguns evitam, esquivam-se desta responsabilidade, seja por covardia ou ignorância – alguns povos que compõem a nossa sociedade ainda não têm as noções básicas para compreender a lei internacional! -, e essas informações não são providas pelo estado libanês.

A hipocrisia foi de muitos, inclusive de alguns editorialistas do respeitável jornal Orient-le-Jour que puseram o Hezbollah como salvadores e os israelenses como agressores! Vergonha! Resignância! E quem somos nós neste farsa? Pobres e eternas vítimas dos desejos e ambições dos outros?

Nossos políticos suportaram esta idéia insana ou mantiveram-se em silêncio. Aqueles de quem esperávamos ouvir algumas palavras para conservar nossa imagem, permaneceram silenciosos como os demais. E eu, inicialmente também referenciado pelo oba-oba geral, acabei não fazendo praticamente nada a este respeito – poderia ter feito um movimento proclamando a verdade, mas também falhei. Um dos poucos que provou ser menos vago e manifestou algumas verdades em público – ignoradas pela mídia libanesa na época, vale ressaltar – foi Walid Jumblatt, líder druso.

Líbano uma vítima? Que piada!

Antes do ataque israelense o Líbano real já não existia há muito tempo, ele era apenas um holograma. Em Beirute, simples cidadãos libaneses como eu ou mesmo NOSSA polícia, NOSSO exército e NOSSOS juízes eram proibidos de acessar determinadas áreas! Áreas especiais onde se localizavam as “zonas de comando do Hezbollah, das tropas sírias, das milícias alugadas e daqueles que diziam ser da confiança deles!” Uma área com quase dois quilômetros quadrados dentro da capital do MEU país, guardada permanentemente por um exército de Horla [3], possuindo suas próprias instituições, suas escolas, suas creches, seus tribunais, sua rádio, sua televisão e, sobretudo… seu governo. Isto mesmo, “um governo próprio e independente que recebia ordens de Teerã e não do presidente do Líbano”; um governo que decidia sozinho o destino do NOSSO país no lugar do fictício governo libanês – onde, por sinal, o Hezbollah também mantinha seus ministros! -; um governo ilegal que atacou um estado vizinho – com quem o Líbano não tinha nenhuma discussão substancialmente acirrada – para lançar-nos em um conflito sangrento. E se atacar o território de uma nação, assassinar oito de seus soldados e seqüestrar outros dois e, simultaneamente, lançar mísseis em nove de suas cidades não constituírem uma causa bélis, então o último princípio jurídico internacional precisa ser séria e urgentemente revisto.

Assim, quase todos esses políticos covardes, incluíndo os numerosos líderes e personalidades religiosas, muitos dos quais abençoava cada bomba que cai dos F-16 judeus, são também responsáveis por esta destruição do nosso país, a exemplo do que acabou ocorrendo com Haret Hreik – no coração de Beirute – que se transformou em uma paisagem lunar. No entanto, sem os israelenses, como poderíamos ter recebido outra possibilidade – apesar dos verdadeiros libaneses em nenhum momento terem merecido! – para reconstruir nosso país?

A cada forte Irã-Sírio que Jerusalém destrói e a cada lutador islâmico (do falso islã) que elimina o Líbano começa, proporcionalmente, a viver outra vez! Como são os soldados de Israel estão fazendo o nosso trabalho; uma vez que, como em 1982, estamos apenas prestando atenção – covardemente, de cabeça baixa, desesperadamente, e em público insultando-os – nada mais justo do que afirmar que é o sacrifício heróico dos judeus que está nos permitindo manter as esperanças de não sermos engolidos pelas entranhas da terra. E tudo isto iníciou pelo contínuo descaso do nosso governo para com o sul do nosso país que, mesmo sabendo das intensas ações do Hezbollar naquela região, deixou essas terras serem controladas por esses estrangeiros que vivem em nosso meio e agem como se o Líbano fosse o quintal deles. Agora teremos um pouco de tempo e, se tivermos habilidade e determinação, poderemos recuperar nossa independência e segurança se, no fim desta guerra o exército libanês retomar o controle sobre seu território e desmontar o estado ilegal dentro do Estado libanês. E isto devemos ao Tsahal [4]. Todos políticos libaneses de coração fraco, do trafulha do Fouad Siniora, de Saad Hariri – o filho do pirata do Líbano – e a grande maioria da população que embarcou nesse oba-oba sabem perfeitamente bem o que digo…

As partes da capital do meu país que foram destruídas por Israel – o que é outra impostura – são: Haret Hreik e áreas de acesso proibidas à maioria dos libaneses – totalmente destruídas -; as moradias de líderes do Hezbollah, situadas no grande subúrbio de Shi’a de Dayaa; o imponente edifício que abrigou o comando do Hezbollah, no Norte de Beirute, onde Nasrallah firmou sua dominação sobre os libaneses; os depósitos iranianos e sírios de munições em diversos pontos da cidade, próximo do litoral; um prédio cristão no bairro de Ashrafieh que havia sido tomado de assalto pelos Shiitas e transformado em um depósito de munição; e destruições de outras partes onde encontravam-se lançadores de foguetes e radares.

Além disto as infraestruturas de estradas e do aeroporto utilizadas pelo Hezbollah para transporte de munição e deslocamentos de equipamentos e tropas estrangeiras operando no Líbano com uniformes do Hezbollah – fornecidos pelo Irã – foram postas fora de funcionamento. Fora do aqui relacionado de forma resumida, o Tsahal não destruiu ou danificou nada mais. Todos aqueles que falaram da “destruição de Beirute” são mentirosos: iranianos, sírios, antisemitas ou ausentes que acreditaram nas informações publicitárias divulgados por esses pela imprensa mundial. Mesmo as casas situadas próximas aos alvos que mencionei não foram destruídas, a maioria não foram nem mesmo danificadas. Somente que viu pessoalmente os resultados destes bombardeios podem compreender o que significa verdadeiramente a palavra “bombardeios cirúrgicos” e admirar a destreza dos pilotos judeus.

Beirute, todo o resto de Beirute, 95% de Beirute, vive e respira bem melhor depois da última noite. Todo aqueles que não são partidários do terrorismo sabem que não têm absolutamente nada temer dos planos israelenses, muito pelo contrário! Um exemplo: ontem a noite o restaurante onde fui jantar estava tão superlotado e com filas de espera tão longas que tive que esperar até 9:30 desta manhã para fazer o pedido. Todos sorriam e relaxavam, mas ninguém nos filmava ou fazia entrevistas! Destruição estranha este de Beirute, não é?

Naturalmente, há uns 500.000 refugiados do sul que estão experimentando uma verdadeira tragédia e certamente não estão sorrindo. Mas Jean [5], que acompanhava o que ocorria em Kfar Kileh, um amigo em quem aprendi a confiar em cada palavra que diz, assegura-me que praticamente todas as casas dos refugiados estavam intactas. Assim poderão voltar logo que o Hezbollah for vencido.

A derrota dos Shiitas fundamentalistas leais ao Irã é eminente. As informações divulgadas por Nasrallah e pela Cruz Vermelha libanesa são falsas: das quase 2.000 mortes confirmadas nesta guerra, somente 150 são civis – algumas, não se sabe quantas, usadas propositadamente como escudos humanos -, o restante eram militantes com uniforme de guerra dos comandados pelo Irã na área: o Hezbollah. As fotografias “Les Civils des bilans libanais” feito pelo repórter fotográfico Stéphane Juffa para nossa agência, constituem, até o momento, a única evidência tangível de uma mórbida e gigantesca manipulação das informações nesta guerra. O que torna este trabalho uma obra extremamente importante.

De igual forma, as informações divulgadas pelo Tsahal de que a organização de Hassan Nasrallah tinha perdido 200 combatentes, não estão corretas. Este número refere-se somente aos militantes que foram eliminados na fronteira com Israel. A contagem real das vítimas do Hezbollah, incluíndo os eliminados na fronteira, em Beirute; nos vales de Bekaa, Baalbek e em outros acampamentos militares; em locais de lançamentos de foguetes e de mísseis; em depósitos do munições e estações de radar são efetivamente mais de 1.100 militantes que causaram tanto terror, dor e humilhação ao meu país.

Como a maioria oprimida dos libaneses, eu rezo para que ninguém pare o ataque israelense até que o poder destes terroristas seja quebrado. Eu rezo para que os soldados hebreus penetrem no sul do Líbano e identifiquem todos militantes escondidos e os ponham para fora do meu país. Como a maioria oprimida dos libaneses, já pus uma champanhe na geladeira para comemorar a vitória israelense…

E, contrário a eles – e parafraseando Michel Sardou [6] -, reconheço que estão lutando também por nossa liberdade, uma outra batalha “onde você não estava presente”! E em nome do meu povo, desejo expressar minha infinita gratidão aos parentes das vítimas israelenses – o civis e militares- que por amor tombaram para que muitos outros vivessem. Devem saber que choro com eles.

Quanto ao clique patético que prospera na cabeça de muitos conterrâneos, é hora deles compreenderem que depois desta guerra, após nossos aliados naturais nos livraram daqueles que foram verdadeiramente os grandes obstáculos para reconstrução da nossa nação, um cessar-fogo ou um armistício não bastará. Para assegurar o futuro do Líbano, é hora de um governo nacional legítimo e soberano constituir um exército forte o suficiente para assegurar a ordem interna, guardar nossas fronteiras e fazer a paz definitiva com aqueles que não temos nenhuma razão real para combatê-los – Israel. De fato, somente a paz assegurará a paz. Alguém deve dizer-lhes porque neste país nós ainda não aprendemos o que significa truísmo.

* Michael Béhé, político, jornalista e intelectual libanês.

Notas

1. Artigo original escrito em francês para a Metula News Agency, em 30 Julho de 2006 – Beirute

2. Tradução do Francês para o inglês por Llewellyn Brown

3. Tradução do inglês para o português por Frank Herles Matos

Notas Complementares

[1] – hezb-Hezb-Allah: Partido de Allah

[2] – Palácio presidencial da República libanesa

[3] – Aludindo ao livro “Le Horla”, de Guy de Maupassant

[4] – Forças de Defesa de Israel

[5] – Tsadik, um amigo pessoal de Michael Béhé

[6] – Cantor francês

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2 Responses to O povo mais hipocrática na terra

  1. Léo Veimrober says:

    Veja a verdade de que os muçulmanos são os maiores assassinos de muçulmanos de toda a História e isso não vai acabar tão cedo !

    See the fact that Muslims are the biggest killers of Muslims throughout the history, and this is not going to end as soon!

  2. José Antônio Rocha says:

    Que cultura aberrante é esta onde os mais fracos tornam-se meros instrumentos de mentiras, mortes e martirios?
    O mundo, o ocidente em particular, precisa conheçer melhor essas legiões de demônios que mentem, enganam e matam tudos que não seguem suas ordens…

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