Uma derrota no Iraque será o fim


 

O britânico Christopher Eric Hitchens já foi um ídolo da esquerda. Agora, acredita que o que está em jogo no Oriente Médio é a sobrevivência da civilização moderna.

 

Flemming Rose *

O escritor e colunista inglês Christopher Eric Hitchens está em pé perto da janela de seu apartamento no 7º andar de um dos prédios mais altos de Washington, a capital americana.

“Pouca gente nesta cidade tem uma vista como a minha”, diz, orgulhoso. Aponta para a estátua do general George McClellan, herói da Guerra de Secessão, e, mais adiante, no topo da Avenida Wisconsin, erguendo-se acima da cidade, a Embaixada da Rússia.

Fiel a sua imagem de jornalista boêmio, segura uma garrafa de uísque em uma das mãos e um maço de cigarros na outra. É domingo. Sua filha adolescente está preparando um trabalho sobre História americana, e, de vez em quando, ele interrompe a entrevista para responder às perguntas dela sobre pontuação e abolição da escravatura.

Christopher Hitchens vive nas barricadas – ele adora um confronto intelectual. Quando estudava no Balliol College, na Universidade de Oxford, começou como um socialista nos moldes de Rosa de Luxemburgo, a radical polonesa que defendia um caminho democrático para o socialismo. Trabalhou para muitas publicações ao longo dos anos, primeiro fazendo crítica literária para a revista New Statesman, assumindo depois cargos cada vez mais importantes em publicações como o suplemento literário do jornal The Times e as revistas Harpers, The Nation e Vanity Fair, além de dar contribuições a muitas outras.

Em seus livros e artigos defendeu os direitos dos palestinos e dos curdos, entre outros. Condenou a Guerra do Vietnã, o regime militar que governou a Grécia entre 1967 e 1974, o apartheid na África do Sul e a queda do socialista chileno Salvador Allende, em 1973, e ainda exigiu que o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos Henry Kissinger respondesse por cometer crimes de guerra quando estava no cargo.

Durante muito tempo, os EUA estiveram no topo da lista negra de Hitchens como uma das forças destrutivas do mundo. No entanto, em 1995, Hitchens defendeu a invasão da Bósnia pela ONU, sob a liderança dos EUA. Quatro anos depois, fez o mesmo no Kosovo e também, em 2001, no Afeganistão e, em 2003, no Iraque. Recentemente, defendeu a publicação das charges sobre Maomé pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten.

O que aconteceu com o antigo revolucionário? Abandonou seus ideais marxistas e disse adeus à solidariedade às classes trabalhadoras e aos oprimidos?


Flemming Rose – Você ainda é um esquerdista?

Christopher Hitchens – Não considero que faça parte da ala esquerda como ela se define no momento. Nunca tive uma relação dogmática com a esquerda. Rompi com o Partido Trabalhista antes de me mudar para os EUA, em 1980. Não votei neles quando (a ex-primeira-ministra) Margaret Thatcher e os conservadores chegaram ao poder, em 1979, apesar de ser membro do partido na época.


Rose – Por quê?

Hitchens – A socialdemocracia já tinha acabado, o velho regime era corrupto e apoiava o statu quo. O triângulo destrutivo formado por governo, sindicatos e capital precisava ser quebrado. Sentia que isso deveria ser feito pela esquerda, mas, quando percebi que nunca daria certo, era preciso que Thatcher o fizesse…

Também a apoiei no confronto com a ditadura militar fascista da Argentina, em 1982, quando o general Leopoldo Galtieri invadiu as Ilhas Malvinas. Aquilo era importante. A convivência com o fascismo não é nem possível nem desejável. Eu também andava interessado nos pensadores liberais, como Friedrich Von Hayek e Milton Friedman, e percebi que fazia sentido a idéia de que havia uma relação entre um mercado livre e uma sociedade livre.


Rose – O que significa para você pertencer à geração de 1968?

Hitchens – A identificação com 1968 é, para mim, algo diferente de simplesmente pertencer à geração dos anos 60 – 1968 foi diferente. Foi um ano que tinha o potencial de ser como 1848, um momento revolucionário para o mundo todo. Naquele ano, tive uma sensação daquelas que se tem uma vez na vida… De que um evento épico estava acontecendo, e era óbvio que as autoridades não tinham a menor idéia do que era.

O movimento pelos direitos civis e o assassinato de Martin Luther King nos EUA, a ofensiva do Tet no Vietnã, revoltas estudantis na França e no México, o desenvolvimento explosivo de um movimento pelos direitos civis na Irlanda do Norte, o golpe militar na Grécia, a Primavera de Praga e a invasão subseqüente pela União Soviética, os protestos estudantis na Polônia – tudo estava ligado. Sentíamos que, de ambos os lados da Cortina de Ferro, havia uma alternativa para a Guerra Fria, mas ela se esvaiu rapidamente. Mais tarde ficou evidente que nós não havíamos sido testemunhas de um renascimento do marxismo ou da revolução socialista, mas, sim, de um último florescer de romantismo.


Rose – Quando você percebeu isso?

Hitchens – Bem cedo. Na primeira vez em que ouvi que o que é pessoal é político, ou que você deveria considerar seu desejo como realidade, pensei “Isso não é uma boa notícia”. Era extremamente reacionário e narcisista, e tudo rapidamente se desmanchou em política de identidade…


Rose – Você apoiou a invasão do Iraque em 2003. Você se arrepende, tendo em vista os últimos acontecimentos?

Hitchens – Não, não há outra opção, e não aceito o raciocínio por trás da questão de que, se as coisas vão bem, você apóia, se a guerra vai mal, então você é contra. Não tem nada a ver com o problema. O Iraque foi invadido com dez anos de atraso. Há a possibilidade de derrota, de que as forças reacionárias vençam, mas isso faz apenas com que eu apóie a guerra mais ainda.


Rose – Como seria uma derrota?

Hitchens – Muito ruim. Há risco de uma guerra total com todo mundo, com caos, chefes de milícia e máfias por todo lado, e o Irã, a Turquia e a Arábia Saudita intervindo. Eles interviriam mesmo se não tivéssemos derrubado Saddam (Hussein, ex-ditador do Iraque). Mais cedo ou mais tarde o sistema teria se esfacelado. Então, um dos filhos psicopatas de Saddam teria subido ao poder. O Iraque acabaria sendo invadido de qualquer forma, só que não pelos EUA.


Rose – Por que você acha que a esquerda mostra tanta compreensão para com os islâmicos?

Hitchens – É uma questão de multiculturalismo brando ou linha dura. A versão branda diz que é preciso ser polido com uma religião diferente, que é uma obrigação compreendê-los e conviver com eles. Esse ponto de vista é defendido por muitos que crêem em outras religiões com base em que uma religião não é melhor que nenhuma outra.

A versão linha-dura prega que o islã é a religião dos pobres e oprimidos, as massas muçulmanas assumiram o papel de proletariado do mundo e o Corão se transformou no Manifesto Comunista de nosso tempo. Isso não poderia ser mais ridículo. Meu ex-editor recentemente publicou um livro com os discursos de Bin Laden (Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda) e, no prefácio, se diz que, se fossem removidos alguns mal-entendidos sobre sua visão do mundo, ele pareceria um novo Che Guevara. Não sou um grande fã de Che Guevara. Posso dizer tanto coisas boas como ruins sobre ele, mas não tenho uma única coisa boa a dizer sobre Bin Laden, exceto talvez que ele quer derrubar o governo da Arábia Saudita. Esse tipo de análise ingênua é assustador, porque significa que a esquerda abandonou tudo o que defendia.


Rose – E o que era?

Hitchens – Acima de tudo, o princípio da separação entre Estado e Igreja. A religião representa uma assustadora combinação de arrogância e falsa modéstia. É uma combinação traiçoeira. Não precisamos mais desse tipo de coisa. Hoje sinto que estamos em meio a um choque de civilizações, um choque entre e de civilizações. Se não ganharmos essa luta, podemos esquecer todas as outras, porque não haverá mais debate sobre casamento homossexual ou papel da religião na sociedade. Sou internacionalista, não dou importância para a religião e insisto no direito de questionar tudo. Não aceito que raça e religião dividam as pessoas. As pessoas têm outros instintos além do egoísmo. Elas têm também um forte desejo de ajudar os outros.


* Flemming Rose, jornalista dinamarquês, autor e editor cultural do jornal Jyllands-Posten (Dinamarca); principal responsável pela publicação dos cartoons sobre Maomé em 2005 que acabou sendo motivo de pretesto para diversos protestos muçulmanos em todo o mundo.

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