A guerra no Iraque é nobre


 

Entrevista de Fouad Ajami, o intelectual mulçumano que defende a invasão americana no Iraque. Migrou do Líbano para os EUA quando tinha 17 anos. Criou uma nova consciência de si mesmo e uma nova identidade depois de vir para os EUA. “Aceitei o novo mundo”, diz, “e levei a palavra ‘novo’ a sério. É possível se conectar com o sonho americano se você se assimilar. Faça isso, e a América está aberta para você. O modo de ser americano está construído sobre duas idéias que mandam a mensagem correta para os imigrantes: 1) As portas estão abertas e 2) Siga as regras. Eu sei que nunca serei senador por Nova York (os cargos de senador e presidente da República nos EUA são reservados a americanos natos), mas, se 19 portas estão abertas para você, não importa se a 20a está fechada”.

 

Por Flemming Rose *

Fouad Ajami sorri muito discretamente. “Pode soar como um ultraje”, diz, sabendo que muitas pessoas vão discordar do que vai dizer, “mas não acho que eu seja um mau muçulmano. Não bebo e também não como carne de porco. Sigo a tradição e admiro muitos aspectos do islã. Adoro o que o islã construiu na Andaluzia. Estudo e encontro inspiração nisso, mas me vejo como um secular, parte do mundo moderno”. Ele acrescenta: “E não rezo”. Ajami, diretor do programa de estudos sobre o Oriente Médio na Universidade Johns Hopkins, é um dos mais influentes especialistas em Oriente Médio dos Estados Unidos. Assessorou a secretária de Estado Condoleezza Rice sobre a dinâmica sutil do mundo árabe. E apoiou a derrubada de Saddam Hussein, mesmo sabendo que a campanha americana seria vista como imperialista pela maioria dos árabes. Acreditou que esse caminho oferecia um futuro melhor para a região.

Ajami lançou recentemente um livro sobre o Iraque, em que conta as suas viagens pelo país depois da queda de Saddam Hussein e seus encontros com soldados americanos, iraquianos comuns, o grande aiatolá Ali al-Sistani e membros da nova elite iraquiana. “Não desisti da idéia de promover a democracia no Oriente Médio”, diz. Ele considera a Guerra do Iraque uma “guerra nobre”, mas diz que uma pergunta ainda sem resposta é se será um nobre sucesso ou um nobre fracasso. “Se tivermos sorte – se os iraquianos fizerem a coisa certa, e se perseverarmos por três ou quatro anos e não desanimarmos -, então será um sucesso nobre. Mas Deus nos ajude se acabar sendo um nobre fracasso. Tiramos a tampa de um país árabe que antes estava fechado… Em 2004, o prefeito de Bagdá havia dito que os governos na região estavam nervosos com os acontecimentos no Iraque, ao passo que as populações estavam com inveja.

 

Flemming Rose – Mas isso foi em 2004. E hoje?

Fouad Ajami – Dada a violência, pode-se perguntar se ainda invejam. Minha resposta é: sim e não. Invejam no sentido de o Iraque estar no meio de algo único no mundo árabe. Percebem que o Iraque está lutando para nascer, que o país não quer pertencer a um único homem. Por outro lado, as pessoas estão nervosas porque vêem as mortes e a violência. Isso as assusta, mas não é nenhuma novidade para elas. Assim, o Iraque é uma contradição. É um perigo, assim como uma esperança. As coisas podem acabar beneficiando os autocratas ou os democratas.


Rose – Observadores do Oriente Médio há anos afirmam que o conflito entre israelenses e palestinos é a chave para a paz na região. Você não compartilha desse ponto de vista. Por quê?

Ajami – O centro de gravidade no Oriente Médio migrou do Mediterrâneo para o Iraque e o Golfo Pérsico. O que está acontecendo no Iraque é muito mais importante. Isso tem a ver com dinheiro e com o fato de que o Iraque é um país grande, com uma população grande. Não estamos falando de 3 milhões ou 4 milhões de palestinos sem nenhum recurso. Estamos falando de 25 milhões de pessoas com a segunda maior reserva de petróleo da região. Por cima disso, temos a situação dos xiitas, um possível papel do Irã no Iraque, a questão curda, o que põe o problema da integração nacional no mundo árabe em pauta. Há uma quantidade tremenda de coisas em jogo.

Hoje, esse conflito israelenses e Palestinos chega e ser irrelevante do ponto de vista geo-estratégico global se comprado ao Iraque. Quem ainda bate nesta tecla está defasado ou pessoalmente envolvido nesta questão.


Rose – Você rejeita a integração como um modelo de imigração? É assimilação ou nada?

Ajami – Sim. Você precisa se deixar assimilar. Sou muito jacobino com relação a isso. Não sou muito tolerante com gente que insiste em usar véu em uma escola americana ou francesa. As exigências impostas pela modernidade têm de abranger todos os aspectos da vida. Já esses imigrantes querem modernidade à la carte. Querem aproveitar todos os benefícios, mas não querem aceitar as exigências e a carga que esses benefícios acarretam… Nós nos levantamos toda manhã, vamos para o trabalho e pagamos nossos impostos. Você precisa aceitar a disciplina que a modernidade requer e isso também se aplica ao risco de ser ofendido. É a natureza da vida moderna. Modernidade envolve não ser capaz de conhecer os códigos e as regras de cada grupo.

Depois de conversar por uma hora no escritório de Ajami, saímos para uma caminhada. Começamos a falar sobre o desafio que a imigração de muçulmanos apresenta para o Ocidente. Ajami menciona um estudo que fez dos programas da rede de TV árabe Al-Jazeera, com sede no Catar, depois do 11 de setembro. Ele analisou os programas que permitiam aos espectadores telefonar e dar sua opinião. As opiniões mais radicais vinham de muçulmanos que moram na Europa. Eles não se referiam aos seus países como Suécia, Dinamarca ou Holanda, mas como terras de infiéis. “Ouvi até um homem dizer para a TV saudita: ‘Nós podemos portar uma nacionalidade, mas pertencemos à nossa religião’. Isso me impressionou porque, para mim, meu passaporte americano é mais do que um simples documento de viagem, é um documento que estabelece uma filiação, um laço, um sentimento de pertencer a algo”.


Rose – Por que isso acontece?

Ajami – A imigração para o Ocidente mudou desde que eu vim para os EUA, nos anos 1960. Naquela época, apenas algumas pessoas iam embora, e para elas era uma questão de votar com os pés. Emigrar do Oriente Médio era admitir o fracasso da velha cultura. Depois disso, vimos uma explosão demográfica, e as pessoas do Oriente Médio em especial começaram a ir embora em grande número, mas eram analfabetas ou pouco educadas… Estavam pura e simplesmente famintas, e logo que satisfizeram suas necessidades primárias – comida e abrigo – começaram a voltar-se para a militância, o radicalismo. Então, vieram as mentiras. A conversa de como a tradição islâmica em seu país de origem era grande, como é maravilhosa a religião a que todos pertencemos. Construíram uma lenda que se baseia na negação da realidade.


Rose – Você acha que uma versão do islã capaz de coexistir com a democracia liberal pode se desenvolver na Europa e ter influência positiva nos acontecimentos no Oriente Médio?

Ajami – Algumas pessoas têm a impressão de que o islã na Europa vai ser influenciado pelas tradições do Iluminismo e pela sociedade aberta, e que isso vai levar ao nascimento de um novo islã, europeu. Acho que isso é arrogante. Desconsidera o nervo sensível das novas doutrinas islâmicas e o que acontece com as pessoas quando se desligam das preocupações práticas e financeiras da vida diária. O grande problema que o mundo árabe realmente enfrenta é que o secular relacionamento entre causa e efeito não está mais lá. Todas essas doutrinas radicais estão desligadas da realidade e buscam refúgio na fantasia. O estado de bem-estar social libera as pessoas da disciplina que a vida moderna requer do mesmo modo que o petróleo o faz na Arábia Saudita e no Kuwait. Ambos estimulam e promovem ideologias extremistas porque permitem que as pessoas fujam das responsabilidades por suas idéias. Os muçulmanos europeus são especialmente beligerantes. São mais militantes que os outros, são bons em evitar responsabilidade e são protegidos pelo império da lei das democracias. Usam a Al-Jazeera para mandar mensagens horríveis para os muçulmanos que vivem em condições horríveis em Damasco e no Iêmen. Isso é um insulto, porque os muçulmanos radicais europeus vivem do suor de outras pessoas.

Os europeus deram à cultura muçulmana tudo e nada, como um colega francês disse. Por “tudo”, ele quis dizer que não se pede nada. Ninguém impõe as regras do país. Ninguém educa os muçulmanos para compreender o sentido de “cidadania”. Por outro lado, eles ficam excluídos da sociedade. Esse é o grande paradoxo europeu. Há essa cultura indulgente que garante absolvição completa. E, uma vez que você pára de considerar as pessoas responsáveis, você já as perdeu, porque não se pode exigir mais nada delas.


* Flemming Rose, jornalista dinamarquês, autor e editor cultural do jornal Jyllands-Posten (Dinamarca); principal responsável pela publicação dos cartoons sobre Maomé em 2005 que acabou sendo motivo de pretesto para diversos protestos muçulmanos em todo o mundo.

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