Os Nativos estão Inquietos


Por Michael Behe *

Lynn Margulis é professora emérita de biologia da Universidade de Massachussetts. Muito respeitada por sua teoria, amplamente aceita, de que as mitocôndrias, as fontes de energia das células de plantas e animais, foram outrora células bacterianas independentes, Margulis diz que a história acabará por julgar o neodarwinismo uma “pequena seita religiosa do século 20, dentro da fé religiosa geral da biologia anglo-saxônica” [1].

Em suas muitas palestras, ela pede a biologistas moleculares presentes na platéia que citem um único e inequívoco exemplo de formação de uma nova espécie pelo acúmulo de mutações. Ninguém aceita o desafia. Os proponentes da teoria padrão, afirma ela, “espojam-se em sua interpretação zoológica capitalista, competitiva, regida pelo custo-benefício da obra de Darwin – tendo-o compreendido de forma errônea… O neo-darwinismo que insiste (em pequenas mutações cumulativas) está completamente aterrorizado”.

Citações picantes, essas. Não? A verdade é que o avanço científico está desmontando a teoria da evolução. E Lynn não está sozinha no seu desagrado a ciência coorporativista!

Nos últimos 130 anos, o darwinismo, embora bastante enraizado, tem que enfrentar uma série ininterrupta de críticas, partidas tanto de dentro como de fora da comunidade científica. Na década de 1940, o geneticista Richard Goldschmidt tornou-se tão desencantado com a explicação do darwinismo sobre as origens de novas estruturas que foi levado a propor a teoria do “monstro esperançoso”. Goldschmidt pensava que, às vezes, mudanças grandes e coordenadas poderiam ocorrer simplesmente ao acaso – talvez um réptil pusesse um ovo apenas uma vez, digamos, e nele fosse chocado uma ave.

A teoria do monstro esperançoso não pegou. A insatisfação com a interpretação darwiniana do registro fóssil, no entanto, aflorou várias décadas depois. O paleontólogo Niles Eldredge descreve assim o problema: “Não é de se espantar que os paleontólogos tenham ignorado a evolução por tanto tempo. Aparentemente ela jamais ocorre. A coleta cuidadosa de material na face de penhascos mostra oscilações em zigue zague, pequenas, e uma acumulação muitíssimo rara de leves mudanças – no decorrer de milhões de anos, a uma taxa lenta demais para explicar toda a mudança prodigiosa que ocorreu na história evolutiva. Quando vemos o aparecimento de novidades evolutivas, isso ocorre em geral com um estrondo e, não raro, sem nenhuma prova sólida de que os fósseis evoluíram também em outros lugares! A evolução não pode estar ocorrendo sempre em outros lugares. Ainda assim, foi dessa maneira que o registro fóssil pareceu a muitos desesperados paleontólogos que queriam aprender alguma coisa sobre a evolução.” [2].

Na tentativa de suavizar o dilema, Eldredge e Stephen Jay Gould propuseram, em princípios da década de 1970, a teoria que denominaram “equilíbrio pontuado”[3]. Essa teoria postula duas idéias: que, durante longos períodos, a maioria das espécies passam por poucas mudanças observáveis; e que,quando isso ocorre a mudança é rápida e concentrada em populações pequenas e isoladas. Se isso acontecesse, intermediários fósseis seriam difíceis de encontrar, o que combinaria com o falho registro fóssil. Tal como Goldschmidt, Eldredge e Gould acreditam em uma ascendência comum, mas acham que outro mecanismo, que não a seleção natural, é necessário para explicar essas mudanças rápidas, em grande escala.

Gould tem ocupado o primeiro plano na discussão de outro fenômeno fascinante: a “explosão cambriana”. Buscas cuidadosas revelaram apenas raros exemplares fósseis de criatura multicelulares em rochas de mais de seiscentos milhões de anos. Ainda assim, em rocha apenas um pouco mais jovens, é encontrado uma profusão de animais fossilizados, com grande números de de planos corporais diferentes. Recentemente, o tempo estimado em que ocorreu a explosão foi revisado para baixo, de cinquenta milhões para dez milhões de anos – o que equivale a um piscar de olhos em termo geológicos. Essa estimativa mais curta obrigou escritores sensacionalistas a procurar novos superlativos, sendo um dos favoritos o “Big Bang biológico.” Gould argumenta que a rápida taxa de aparecimento de novas formas de vida exige outro mecanismo para explicá-las que não a seleção natural [4].

Ironicamente, voltamos ao ponto de partida desde dos dias de Darwin. Quando ele propôs sua teoria, uma das grandes dificuldades era a idade estimada da terra. Os físicos do século 19 pensavam que a Terra tinha apenas cem milhões de anos, ainda que Darwin pensasse que a seleção natural precisaria de mais tempo pra gerar vida. No início, provou-se que ele tinha razão; sabe-se hoje que a Terra é muito mais antiga. Com a descoberta do Big Bang biológico, contudo, o espaço de tempo necessário que a vida passasse de simples a complexa encurtou para muito menos do que a estimativa da idade da Terra no século 19.

Mas não são apenas paleontólogos à procura de ossos que estão desanimados. Muitos biólogos evolucionistas que examinam organismos complexos também especulam como o darwinismo pode explicar suas observações. Os biólogos ingleses Mae-Wan Ho e Peter Saunders queixam-se da seguinte maneira: “Passou-se aproximadamente meio século desde a formulação neodarwiniana. Grande volume de pesquisa foi realizado dentro do paradigma que ela define. Ainda assim, os sucessos da teoria limitam-se às minúcias da evolução, tal como a mudança adaptativa da coloração de mariposas, ao mesmo tempo que pouquíssimo tem a dizer sobre as questões que mais nos interessam, como,  para começar, de que maneira surgiram as mariposas.” [5].

O geneticista John McDonald, da Universidade da Geórgia, chama atenção para um enigma: “Os resultados dos últimos vinte anos de pesquisas sobre a base genética da adaptação levaram-nos a um grande paradoxo darwiniano. Aqueles (genes) que são obviamente variáveis em populações naturais não parece constituir a base de muitas das grandes mudanças adaptativas, enquanto que aqueles (genes) que aparecem constituir, de fato, o fundamento de muitas, senão da maioria, das grandes mudanças adaptativas, aparentemente não são variáveis em populações naturais.” [6]

O geneticista evolucionista australiana George Miklos tenta decifrar a utilidade do darwinismo: “O que, então, essa teoria geral e abrangente de evolução prevê? Dado um punhado de postulados, tal como mudanças aleatórias e coeficientes de seleção, ele prognosticará frequências (em genes) ao longo do tempo. É assim que deve ser uma teoria geral da evolução?” [7]

Jerry Coyne, do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago, chega a um veredicto imprevisto: “Concluísmo – inesperadamente – que há poucas provas que sustentem a teoria neodarwiniana: seus alicerces são fracos, assim como as evidências experimentais que a apóiam.” [8]

E o geneticista John Endler, da Universidade da Califórnia, pensa o seguinte sobre como surgem mutações benéficas: “Embora se saiba muita coisa sobre a mutação, ela ainda é, na maior parte, uma “caixa preta” no que se diz a respeito à evolução, e a base de sua origem é virtualmente desconhecida.” [9]

Os matemáticos, ao longo de todos esses anos, têm se queixado de que os números do darwinismo simplesmente não fazem sentido. Hubert Yockey, teórico da informação, argumenta que a informação necessária para iniciar a vida não poderia ter sugido por acaso, e sugere que a vida seja considerada um dado, como a matéria ou a energia. [10] Em 1966, ilustres matemáticos e biólogos evolucionistas realizaram um simpósio no Wistar Institute, na Filadélfia, porque o organizador do evento, Mantin Kaplam, entre-ouvira “uma discussão muito estranha entre quatro matemáticos… sobres dúvidas matemáticas relativas à teoria da evolução darwiniana” [11]. A um matemático que alegara que o tempo para o número de mutações aparentemente necessárias para criar um olho era insuficiente, biólogos disseram que seus números deviam estar errados. Os matemáticos porém, não se convenceram disso. Ou, como um disse um deles: “Há uma grande lacuna na teoria darwiniana da evolução, e acreditamos que ela deve ser de tal natureza que não possa ser conciliada com a concepção corrente de biologia.” [12]

Stuart Kauffman, do Santa Fe Institute, é um dos mais destacados proponentes da “teoria da complexidade”. Em curtas palavras, ela sugere que numerosos aspectos dos sistemas vivos são resultados de auto-organização – a tendência de sistemas complexos a se organizarem em padrões- e não de seleção natural: “Darwin e a evolução nos dominam, quaisquer que sejam as queixas dos cientistas criacionistas. Mas será correta essa tese? Melhor ainda, será adequada? Não é que Darwin tenha errado, mas sim, compreendida apenas parte da verdade.” [13]

Se até agora atriu poucos adeptos, a teoria da complexidade não padece por falta de críticas. John Maynard Smith, orientador de Kauffman em seus estudos de pós-graduação, queixa-se de que a teoria é matemática demais e que pouca ligação tem com a química da vida real [14]. Embora a queixa tenha seus méritos, Smith não oferece solução para o problema identificado por Kauffman – a origem dos sistemas complexos.

Levando-se tudo isso em conta, a teoria de Darwin provocou discórdia desde que foi publicada, e não apenas por razões teológicas. Em 1871, um dos críticos de Darwin, St. George Mivart, elaborou uma lista de suas objeções à teoria, muitas das quais são surpreendentemente semelhantes às levantadas por críticos modernos. “O que caberia alegar (contra o darwinismo), poderia ser resumido da seguinte maneira: que a “seleção natural” é incapaz de explicar os estágios incipientes de estruturas úteis. Que não se harmoniza com a coexistência de estruturas muito semelhantes, de origem diferente. Que há fundamentos para pensar-se que diferenças específicas podem ser desenvolvidas súbita, e não gradualmente. Que ainda é sustentável a opinião de que as espécies têm limites definidos, embora muito diferentes, para a sua variabilidade. Que certas formas transicionais fósseis estão ausentes, quando se poderia esperar que estivessem presentes… Que há numerosos fenômenos notáveis em formas orgânicas sobre os quais a “seleção natural” pouco tem a dizer.” [15]

Parece, então, que o mesmo debate tem sido repetido há mais de um século sem solução. De Mivart a Margulis, sempre houve cientistas bem informados, respeitados, que julgaram o darwinismo inadequado. Ao que parece, ou as questões levantadas inicialmente por Mivart passaram sem resposta, ou alguns indivíduos não se satisfazem com as respostas que receberam.

Mas devemos notar o óbvio: se uma pesquisa de opinião fosse feita entre todos os cientistas do mundo, a grande maioria responderia que acredita que o darwinismo é uma teoria correta. Os cientistas, porém, tal como todas as pessoas, baseiam suas opiniões na palavra de outras pessoas. Entre a grande maioria de aceita o darwinismo, o maior número (embora não todos) assim age baseado em pronunciamentos de autoridades. Além disso, infelizmente, com uma frequência grande demais, as críticas foram ignoradas pela comunidade científica por medo de fornecer munição aos criacionistas. É irônico que, em nome da defesa da ciência, uma crítica científica incisiva da seleção natural tenha sido posta de lado.

Chegou a hora de pôr o debate às claras e ignorar os problemas de relações públicas. A ocasião do debate é agora, porque, pelo menos, chegamos aos fundamentos da biologia e uma solução é possível. Nos níveis mais primários da biologia – a vida química da célula – descobrimos um mundo complexo, que muda radicalmente os fundamentos sobre os quais a polêmica darwiniana deve ser discutida.

* Michael Behe, Ph.D. bioquímico, professor da Universidade de Lehigh (Pensilvânia) e escritor de diversos livros, entre os quais “The Design Theory”.

Referências

[1] – Mann, C. (1991), “Lynn Margulis: Science’s Unruly Earth Mother”, Science, 252, p.378-81.

[2] – Eldredge, N. (1995), Reinventing Darwin, Wiley, Nova York, p.95

[3] – Eldredge, N. e S.J. Gould (1973), “Punctuted Equilibria: An Alternative to Phyletic Gradualism”, in Models in Paleobiology, org. T.J.M. Schopf, Freeman, Cooper and Co., São Francisco, p.82-115

[4] – Beardley, T., “Weird Wonders: Was the Cambrian Explosion a Big Bang or a Whiper?”, Scientific American, junho 1992, p.30-1.

[5] – Ho, M.W. e P.T. Saunders (1979), “Beyond Neo-Darwinism – An Epigenetic Approach to Evolution”, Journal of Theorical Biology 78, p.589.

[6] – McDonald, J. F. (1983), “The Molecular Basis of Adpatation, Annual Review of Ecology and Systematics 14, p.93.

[7 – Miklos, G.L.G (1993), “Emergence of Organizatiol Complexities During Metazoan Evolution: Perspectives from Molecular Biology, Paleontology and Neo-Darwinism”, Memoirs of the Association of Astraulasian Paleontologists, 15, p.28.

[8] – Orr, H.A. e J.A. Coyne (1992), “The Genetics of Adaptation: A Reassessment”, American Naturalist, 140, p.726.

[9] – Endler, J.A. Coyne (1988), “The Process of Evolution Toward a Newer Synthesis”, Annual Review of Ecology and Systematics, 19, p.397.

[10] – Yockey, H. (1992), Information Theory and Molecular Biology, Cambridge University Press, Cambridge, Inglaterra, Cap.9.

[11] – Kaplan, M. (1967), “Welcome to Participants”, in Mathematical Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation of Evolution, org. P.S. Moorhead e M.M. Kaplan, Wistar Institute Press, Filadélfia, p.vii.

[12] – Schützenberger, M.P. (1967), “Algorithms and the Neo-darwinian Theory of Evolution”, in Mathematical Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation of Evolution, org. P.S. Moorhead e M.M. Kaplan, Wistar Insitute Press, Filadélfia, p.75.

[13] – Kauffman, S. (1993), The Origins of Order, Oxford University Press, Oxford, Inglaterra, p.xiii

[14] – Smith, J.M. (1995), “Life at the Edge of Chaos?”, New York Review, 2 de março, p.28-30

[15] – Mivart, St. G. (1871), On the Genesis of Especies, Macmillan and Co., Londres, p.21

Notas

Artigo baseado no livro “A Caixa-Preta de Darwin – o desafio da bioquímica à teoria da evolução”, editado por Jorge Zahar Editor Ltda.

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