O Lado Escuro da Lua


A Grande Coincidência Cósmica e uma Explicação Heterodoxa

Por Kentaro Mori

Não são todos que param para se perguntar por que a Lua exibe sempre as mesmas manchas, identificadas por diversas culturas seja como um homem, um coelho ou mesmo uma mulher carregando um bebê, entre muitas outras interpretações. Pense bem e é algo intrigante: a Lua poderia girar e ao fazer isso mostraria suas outras manchas; nossos ancestrais poderiam ter visto as manchas diferentes das outras partes do satélite; ou mesmo de diferentes cantos do mundo diferentes partes da Lua poderiam ser vistas [1]. Mas nós vemos sempre o mesmo lado de nosso satélite de todas as partes do mundo. Isto quer dizer que seu período de rotação é igual ao seu período orbital – o que por sua vez quer dizer que o tempo que a Lua demora para girar sobre si mesma é exatamente igual ao tempo que ela demora para dar uma volta à Terra!

Uma conseqüência de vermos sempre o mesmo ‘lado’ da Lua é que nunca vemos seu outro lado. Esse lado é chamado por alguns de o ‘lado escuro da Lua’, uma face que permaneceu oculta e misteriosa à humanidade até que foi finalmente fotografada em 1959 pela sonda soviética Luna 3, em um feito histórico que infelizmente passa hoje largamente despercebido. Ao contrário do que pode parecer, o ‘lado escuro’ da Lua não é realmente escuro, pelo menos não mais que o outro lado. Você verá dias e noites sobre nosso satélite não importa em que lado esteja. Ocorre apenas que como nós nunca vemos o ‘lado escuro’, não percebemos que ele é tão iluminado (ou se for assim, escuro) quanto o nosso lado velho conhecido.

Mas voltemos à questão: por que a Lua sempre exibe a mesma face à Terra, ocultando seu outro lado? Seria isso uma coincidência, fruto do mero acaso? Ou algo tão bem ajustado que só poderia ser explicado pela ação de alguma força? A resposta é que isso não é mero acaso, e a força responsável por essa sincronia é a mais famosa de todas: a gravidade. Originalmente a Lua certamente não tinha um período de rotação igual ao orbital, mas a gravidade tratou de sincronizá-los gradualmente. Esse efeito gravitacional pelo qual satélites acabam sincronizando seu período de rotação ao período orbital é conhecido como ‘acoplamento de maré’ (tidal locking), e pode ser visto em diversos outros satélites pelo sistema solar.

O acomplamento de maré garante que qualquer variação no período orbital Lunar seja acompanhada de variação equivalente em seu período de rotação. A Lua mostrará a mesma face à Terra ainda por um bom tempo, assegurando a nossos descendentes a mesma diversão que nossos antepassados tiveram em enxergar os mais diversos desenhos, sejam eles quais forem, em manchas lunares praticamente iguais que nada mais são que crateras aleatórias e vestígios geológicos de atividades passadas.

A forma como o efeito de acoplamento de maré sincroniza os períodos orbital e de rotação lunares é fascinante por si. Enquanto os dois períodos não estão sincronizados, o satélite terá ‘marés’ significativas. Na Terra nós associamos as marés com a água do mar, porém o efeito maré também afeta matéria sólida. Podemos ver como a água flui livremente durante as marés, em altas e baixas, mas rochas sólidas certamente não têm essa mesma facilidade em fluir. O resultado é fricção, que gera calor da mesma forma que ocorre quando você dobra um clipe de papel várias vezes. Este exato mecanismo pode estar gerando no satélite de Júpiter Europa calor suficiente para manter vida debaixo de crostas de gelo de quilômetros de espessura! Toda essa fricção consome energia, que como não vem do nada acaba desacelerando a velocidade de rotação (justamente a que determina a freqüência das marés), até que ela esteja eventualmente sincronizada ao período orbital e não haja mais marés significantes. É por mecanismos assim que os movimentos celestiais foram tão comparados aos mecanismos de relógio.

E o mecanismo funciona nos dois sentidos: no momento nosso satélite tem seus períodos orbital e de rotação sincronizados em relação à Terra, mas em alguns bilhões de anos a Terra também terá seu período de rotação equivalente ao orbital (e também de rotação) da Lua. Se ainda estivermos por aqui, poderemos nos ver na curiosa situação da Lua ser visível de apenas um hemisfério — e sempre com o mesmo ‘lado’. Da mesma forma que nunca se vê a Terra do ‘lado escuro’ da Lua, algum dia nós não poderemos mais ver a Lua do que, espera-se, seja corretamente chamado de o ‘lado oculto da Terra’. Em relação à Lua.

Enfim, o ‘lado escuro da Lua’ e sua outra face que será interpretada daqui como homens, coelhos ou mulheres carregando bebês são algo natural, compreensível e que ocorre em outros corpos do sistema solar, com uma explicação peculiar que nos leva a imaginar uma situação futura que à primeira vista parece inacreditável – meio-mundo “com Lua”, meio-mundo “sem Lua”. É incrível que boa parte das pessoas sequer pondere o tema. Todos sabem que a Lua gira, e todos têm várias noções sobre o sistema solar. Mas a questão dificilmente surge, a despeito da Lua aparecer toda noite no céu – sempre com as mesmas manchas.

A Grande Coincidência Cósmica

Existe outro aspecto intrigante sobre a Lua que pode ser notado diariamente, mas se faz mais explícito nos eclipses solares totais, quando a Lua encobre o disco solar perfeitamente. É justamente isto que é intrigante: da Terra os tamanhos aparentes do Sol e da Lua são praticamente iguais. Em uma proporção surpreendente, o Sol é 400 vezes maior que a Lua, mas está também 400 vezes mais distante.

Há um outro mecanismo cósmico funcionando aqui? Na mais incrível das respostas, até onde sabemos esta é uma gigantesca coincidência, uma grande coincidência cósmica. Podemos entender a dimensão desta coincidência, e ao fazê-lo poderemos ver que a despeito das mil e uma idéias que possam estar passando por sua cabeça neste momento é possível estarmos razoavelmente seguros de que tudo é realmente uma coincidência. Sem dúvida porém, não apenas uma coincidência e sim uma Grande Coincidência Cósmica.

Assimilar a dimensão desta coincidência envolve dois aspectos inter-relacionados. O primeiro é descobrir como as coisas poderiam ser muito diferentes. De fato, esta coincidência cósmica não ocorre em nenhuma outra parte do sistema solar, em nenhuma das outras 64 luas de diversos planetas. Mesmo na Terra esta coincidência é passageira: há 150 milhões de anos a Lua aparecia visivelmente maior que o Sol. Daqui a outros 150 milhões, aparecerá menor. Isso ocorre porque nosso satélite está placidamente se afastando de nós, de forma gradual e sem se importar minimamente se tem o mesmo tamanho do Sol ou não. A janela de tempo em que esta coincidência de tamanhos aparentes ocorre aqui na Terra é relativamente pequena – e única – na história do planeta e seu satélite.

Esta janela de tempo poderia nem mesmo existir. Dependendo do tamanho da Lua, do Sol e a distância da Terra ao Sol, à Lua e as órbitas relacionadas, seria praticamente impossível que uma coincidência de tamanhos aparentes ocorresse. A nossa Lua poderia ser minúscula, a ponto de precisar estar em órbitas excessivamente baixas para uma coincidência de tamanhos. É preciso uma conjunção de muitas variáveis que poderiam ter valores muito diferentes. A existência dessa conjunção fortuita, permitindo uma coincidência de tamanhos aparentes entre um satélite e o Sol é algo em si extraordinário.

Mas a gota d’água em extraordinariedade é que nós possamos ver isto. É este o segundo aspecto das dimensões realmente cósmicas desta coincidência. A conjunção não só ocorre, como ocorre quando existe uma civilização para enxergá-la e entendê-la, que felizmente somos nós. Nosso planeta tem em torno de 5 bilhões de anos, e esta janela de tempo tem aproximadamente 300 milhões de anos, representando assim por volta de 5% do tempo de existência da Terra. Durante 95% do tempo em que o planeta existiu não havia nenhuma coincidência de tamanhos.

E uma civilização poderia ter surgido dentro destes 95% ao invés dos 5%. O advento de nossa espécie formando civilização no tempo em que formamos é algo que dependeu de inúmeras variáveis completamente fortuitas, que determinaram inúmeras extinções em massa no passado e, ainda mais imprevisível, que determinaram que nós tenhamos evoluído da forma que o fizemos. A rigor, uma civilização poderia ter surgido muito antes ou muito depois de nosso surgimento, tal civilização poderia mesmo ter sido formada por outra espécie que não nós, e ainda mais, é até onde sabemos possível que nenhuma civilização tivesse surgido sobre o planeta simplesmente porque nenhuma espécie suficientemente inteligente tivesse surgido.

Quando somamos todas estas variáveis jogadas ao acaso que entraram em conjunção para que vejamos a Lua e o Sol com o mesmo tamanho, entendemos as dimensões cósmicas desta grande coincidência. E, ironicamente, podemos ver também que é realmente uma coincidência e não a obra de alguma inteligência superior.

Para que esta conjunção fosse artificial, seria preciso que uma hipotética inteligência atuante controlasse todos os incontáveis fatores citados, e mesmo muitos outros que não foram. Isso incluiria controlar cuidadosamente as extinções em nosso planeta, permitindo ou não a queda de meteoros (não só na Terra como na Lua), bem como controlar de forma extremamente trabalhosa a evolução de espécies para que nós, e apenas nós surgíssemos como seres capazes de formar civilização na época correta – que como vimos representa apenas 5% do tempo de existência do planeta. E isso se tal inteligência não precisou alterar a distância da Terra ao Sol e à Lua, suas órbitas e tamanhos. Qualquer erro em qualquer das variáveis poderia por tudo a perder. Temos aqui uma aplicação exemplar do princípio da navalha de Occam: é realmente extraordinário e a princípio incrível explicar a conjunção de tamanhos como uma coincidência, mas resulta muito mais extraordinário, complexo e infundado postular que é algo artificial.

Talvez mais algumas explicações ajudem a enxergar tanto a fascinação da coincidência quanto o fato de que é realmente uma coincidência. Por exemplo, tente calcular qual a probabilidade de que você esteja lendo este texto neste exato momento. Você pode pensar nas mil e uma outras coisas que poderia estar fazendo agora; mesmo na internet é bem provável que você estivesse procurando por ‘sexo, filme ou música’ (bem, considerando você simplesmente como um ou uma internauta…); você poderia nem existir se seus pais nunca tivessem se conhecido, ou seus avós ou bisavós. Podemos imaginar as infinitas variáveis e chegar finalmente a uma probabilidade ínfima, mas a verdade é que se você está lendo isto a probabilidade de que você esteja lendo este texto é simplesmente de 100%. Quando partimos de um fato determinado e fazemos o caminho inverso pensando no que poderia ser diferente, é bem fácil sermos enganados a pensar que há algo sobrenatural ocorrendo quando no entanto estamos apenas caindo em um raciocínio falacioso.

Ou seja, uma das formas de encarar esta grande coincidência cósmica é ver que se ela não ocorresse poderíamos estar nos perguntando por que ela não ocorre. Se a Lua tivesse a metade do tamanho aparente do Sol isso poderia estar nos intrigando da mesma maneira. Suponha que a proporção dos tamanhos aparentes da Lua e do Sol fosse a mesma dos tamanhos reais entre a Terra e a Lua. Isto também poderia estar mistificando as pessoas. Uma Coincidência Cósmica ainda mais impressionante seria se os períodos de rotação da Terra e da Lua e o período orbital da Lua estivessem todos sincronizados ao mesmo tempo em que a Lua tivesse o mesmo tamanho aparente do Sol. Ou seja, a Lua seria vista sempre do mesmo hemisfério da Terra, com a mesma face e o mesmo tamanho do Sol – o que deveria ser algo simplesmente transcendental -, mas que não ocorre e não deve ocorrer (como dito, em 150 milhões de anos a coincidência Lua-Sol deve deixar de ocorrer, e a sincronia de rotação entre a Terra e a Lua só deve ocorrer daqui a bilhões de anos).

A Lua ter o mesmo tamanho aparente do Sol é sem dúvida uma Grande Coincidência Cósmica, mas muitas outras coincidências poderiam ocorrer no lugar dela que poderiam estar sendo cogitadas como igualmente tantalizantes. Ou não…

Uma Explicação Heterodoxa

Talvez haja uma explicação para esta grande coincidência cósmica [2], relacionada ao que é chamado de Princípio Antrópico. Sabemos que os mecanismos cósmicos mais comumente atuantes em escalas astronômicas, como a gravidade ou mesmo o eletromagnetismo, não podem explicar esta coincidência de tamanhos aparentes entre a Lua, o Sol e nós mesmos para ver esta coincidência. Também sabemos que é improvável que a coincidência seja obra de uma inteligência superior, porque seria preciso que ela lidasse com incontáveis variáveis, resultando mais sensato aceitar o fato como uma Grande Coincidência Cósmica. Contudo, até que ponto estamos certos ao imaginar que as coisas poderiam ser muito diferentes? Será que o elemento mais extraordinário, a coincidência temporal entre nossa existência e a visibilidade da coincidência de tamanhos não são algo relacionado?

Para explorar este pensamento, entramos no heterodoxo “Princípio Antrópico”. Ele seria formulado, de forma bem simplificada, em: “nós vemos o Universo assim porque se ele não fosse assim nós não estaríamos aqui para ver nada”. Por exemplo, alguém pode se perguntar por que está respirando, e uma resposta muito válida será a de que se a pessoa não estivesse respirando não poderia nem mesmo fazer a pergunta, uma vez que estaria morta. Se você responder a pergunta dessa forma em uma prova de biologia pode tirar um zero, mas este raciocínio simples pode vir a ter grandes implicações, formuladas justamente no chamado Princípio Antrópico. Tais implicações podem ser profundas, úteis, práticas e até mesmo erradas, como a idéia de que nós somos essenciais para a existência do Universo porque nossa consciência o cria ou a de que o Universo foi feito sob medida para nós por um ser Criador.

Pois bem, a Lua provavelmente desempenhou um papel muito importante para a nossa existência. Apenas uma das conseqüências (ou pode-se dizer, dádivas) de sua existência é a estabilização do eixo de rotação da Terra. Em comparação à Terra, a Lua tem uma massa muito grande, de fato, a relação entre a massa da Terra e da Lua é a maior de todas do sistema solar, com exceção de Plutão e seu satélite Caronte que no entanto são ambos muito pequenos. É esta massa relativamente grande que permite que o satélite estabilize o eixo de rotação terrestre de forma significativa. E esta massa relativamente grande também faz com que a Lua apareça grande no céu e possa assim encobrir totalmente o Sol.

Por sua vez, se a Terra estivesse muito distante do Sol a energia recebida do astro-rei poderia ser muito pequena para poder gerar vida, ou pelo menos vida com um metabolismo suficientemente rápido para resultar em inteligência em um tempo hábil. Ao mesmo tempo, se o Sol fosse muito menor a energia emitida também poderia ser muito pequena. Em ambos os casos, o Sol não apareceria relativamente grande no céu.

Assim, se tanto a Lua quanto o Sol aparecessem menores, seja isoladamente ou em conjunto, nós poderíamos não estar aqui. Há muitos outros fatores ligados à ocorrência da coincidência cósmica que também estão ligados à nossa própria existência tal como ela é. É o Princípio Antrópico em ação: se as coisas fossem diferentes poderíamos não estar aqui para vê-las. A Grande Coincidência Cósmica seria assim minimizada ao notarmos que ela seria em si um dos fatores necessários, ou pelo menos estatisticamente ligados, à ocorrência de vida inteligente como nós.

Estes pensamentos são com razão um tanto polêmicos, e não podemos estar muito certos deles até termos mais dados, incluindo principalmente informações detalhadas sobre como são os outros sistemas planetários nas nossas proximidades. O próprio Princípio Antrópico é tema de grandes debates, sendo infelizmente relacionado por algumas pessoas de forma inadequada a idéias Criacionistas ou piores. É por isso que esta explicação é heterodoxa. Apesar disso tudo, ela parece razoável até certo ponto, e se estiver correta implica que quase toda civilização existente veja uma coincidência cósmica equivalente. Em seu último e definitivo aspecto de extraordinariedade, esta Grande Coincidência Cósmica pode ser um laço comum ligando a maior parte das civilizações pela Galáxia, e talvez, pelo Universo. É mole?

Notas

[1] – Na verdade de diferentes partes do mundo nós vemos sim partes diferentes da Lua, devido à própria paralaxe. À medida que a Lua se move em relação a nós acabamos podendo ver 59% de sua superfície, algo ocasionado também pela libração gravitacional lunar. Mas a Lua continua tendo dois ‘lados’, um próximo e conhecido e outro oculto devido à sincronia orbital.

[2] – A explicação foi formulada por Guillermo Gonzalez, da Universidade de Washington, em Seattle, EUA. A notícia que encontrei não cita explicitamente o princípio antrópico, porém é bem claro que ele se relaciona à explicação. Esta coincidência cósmica seria mais uma das chamadas ‘coincidências antrópicas’.

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One Response to O Lado Escuro da Lua

  1. “O sol é o nosso astro-rei. A lua é a nossa maior “estrela” artificial e a TUF é gay!!!”

    Abraços do Paulão (CEARAMOR)

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