Argoya/Yarden – Utopia da Etiópia


Por Anat Medan*, Yediot Achronot **

Ela nasceu em Matza, uma pequena vila no norte da Etiópia, a sexta criança dentre dez filhos. Quando completou sete anos assumir os trabalhos da família e começou a pastorear ovelhas. “Tinha apenas três irmãos, e as meninas também tinham que fazer sua parte. Não encarava isso como castigo, mas como uma rotina normal. Não era nada agradável sair à noite no inverno, mas tinha que acordar muito cedo para pastorear o rebanho. O que mais desejava era ir para a escola,  como meus irmãos mais velhos, mas além do ônibus não chegar até a vila onde morava metade do caminho era feito no lombo de um burrico. Da nossa pequena casa até a escola são três horas de caminhada para ir outras três horas para voltar a pé. Por isto meu pai decidiu que eu era muito fraquinha para fazer esse trajeto; assim, em vez de estudar ficava pastoreando nossas ovelhas”.

Curiosidade e esforços

“Mas fui uma criança muito curiosa. Sempre que meus irmãos faziam a lição de casa ficava atrás deles, observando, querendo aprender também; sonhando em um dia ir para a escola. Pedia aos meus irmãos que me ensinassem o que estava escrito nos cadernos e aprendia o que podia, sem mesmo entender do que se tratava. Tinha uma necessidade premente de aprender e me lembro ter prometido a mim mesmo que quando crescesse, iria embora para estudar”.

“Naquela época eu pertencia à família e tinha que fazer minha parte: cuidar das ovelhas, ajudar minha mãe com as fornadas de pão, na cozinha e a tomar conta das gêmeas, que nasceram depois de mim. Apesar de tudo isso, não me sentia frustrada. Ajudava meus pais como podia e até me sentia muito importante, pois confiavam em mim para trazer todo o rebanho de ovelhas de volta. A sensação de ser tratada como um adulto que é capaz de assumir responsabilidades e de ser bem sucedido, me acompanha até hoje”.

O grande segredo

Quando Argoya tinha 12 anos seus pais lhe contaram um grande segredo: Toda família iria para Israel! Ela se lembra desses dias com lágrimas nos olhos. “Meu pai comprou dois cavalos, levamos verduras e frutas secas para o dia, e não tínhamos permissão de falar sobre esse assunto com ninguém. Lembro-me bem da nossa excitação. Partimos no meio da noite; eu carregava nas costas uma das minhas irmãs gêmeas – que na época tinha dois – uma barrica de água em uma mão, e uma cesta cheia de alimentos na outra. Durante um mês inteiro andamos apenas à noite, para que não fossemos capturados, até que chegarmos ao Sudão. Lá esperamos onze meses até partimos para Israel.

No Sudão ficamos num campo de trânsito com condições sub-humanas. Pessoas morriam à nossa volta o tempo todo – uma das minhas irmãs gêmeas também morreu lá. Tinha medo de ser capturada, de ser desertada, que meus pais morressem…

Entre dois mundos

A adaptação e absorção de Argoya em Israel não foi fácil. Como não sabia ler nem escrever o governo israelense a enviou ao internato Mikveh Yisrael, onde alterei meu nome para Yarden, fiquei sob observação pedagógica e fui alfabetizada” – recorda-se.

“Mas num mundo apressado – e para mim estranho – como Israel, onde cada um deve dar o máximo de si e onde tudo têm um custo, logo me disseram que poderia ser uma boa costureira! Como recusei a sugestão dizendo que gostaria de continuar estudando a esposa do diretor do internato, olhando para mim, disse: ‘Ok Yarden, revele-se’. Você tem um mês para tentar entrar na classe normal’. E em menos de 30 dias já estava na classe normal”.

Já na classe normal, seguindo métodos de aprendizado intensivo e com uma extraordinária força de vontade absorveu oito anos de estudos em apenas um. “Quando seus amigos saíam para se divertir eu ia estudar e revisar meu material. Embora desejasse, não podia perder tempo. Além do ritmo intenso de ensino e aprendizado, sentia – pela primeira vez em minha vida – que poderia ir até onde minha capacidade permitisse”.

Na décima série suas aptidões tornaram-se patentes e ela foi considerada uma boa aluna. Mas sua ambição foi impulsionada, principalmente, após uma visita ao Instituto Weizman, em Rehovot.

Ela ainda se lembra do pânico que a tomou de assalto antes da viagem. “Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo: era algo totalmente fora desse mundo. Não podia me imaginar, a pastorinha da Etiópia, entrando no templo das ciências! Depois de me reunir com os professores e alunos de lá, consegui me acalmar e passei a vê que eram seres humanos exatamente como eu. Naquele momento jurei para mim mesmo que também cursaria uma universidade. A idéia ‘não era algo caindo do céu’, era algo atingível. Foi uma experiência construtiva que afetou toda a minha vida”.

Início Acadêmico

Após concluir o 2º grau, desistiu de servir às Forças de Defesa de Israel em virtude de objeções religiosas de seus pais e pelo seu desejo de continuar estudando. Então iniciou seus estudos acadêmicos na Universidade Bar Ilan, em Criminologia. Tinha intenção de resgatar jovens etíopes que se envolviam na criminalidade, o que a levou a trabalhar com jovens delinqüentes. Durante esse período percebeu que o ingresso de jovens na criminalidade situava-se no estágio de formação da personalidade, antes da degradação no crime. Isso fez com que ela conseguisse impedir que muitas dessas crianças caíssem nessa armadilha”.

Concluído o curso de Criminologia fez mestrado em orientação educacional na Universidade de Tel Aviv;  com a tese “Aproveitamento de Jovens Etíopes em Ciências e Tecnologia”, com a qual recebeu excelentes notas. “Comecei minhas pesquisas analisando o que estava acontecendo no país. Descobri que os alunos etíopes nem mesmo constavam dos gráficos de aproveitamento nas áreas de ciências e tecnologia; não por serem ‘menos inteligentes’, mas simplesmente porque eram muito poucos e não possuíam suportes pedagógicos tão indispensáveis  à migrantes das duas primeiras gerações quando em ambientes culturais bem diferentes e níveis acadêmicos abismais. Isto foi perfeitamente comprovado pelos resultados de diversos alunos etíopes que receberam esse suporte e obtiveram índices semelhantes de sucesso”.

Ajudando seus semelhantes

De posse desses conhecimentos desenvolvi um programa prático de ajuda e suporte à crianças etíopes ingressarem em universidades, expondo-os a experiências de ciências e de laboratório. “A auto-confiança deles aumentou tanto que agora compreenderam que qualquer coisa que desejassem será possível alcançar, desde que estejam determinados e deem o melhor de si mesmo para atingir seus próprios objetivos”.

Esse programa existe há quatro anos. Começamos com 40 alunos e agora já são 400. Quando vejo alguns deles em universidades me lembro da minha visita ao Instituto Weizman e fico muito entusiasmada. Acredito que, dependendo do país onde viva, qualquer pessoa que possui habilidades básicas de raciocínio, pode alcançar tudo o que desejar, não importa de onde venha”.

Casamento Branco

Na sua casa em Givatayim, cercada de roupa para lava e brinquedos de sua filha e de artigos sobre Educação, a jovem mãe relata sua história de vida com muita calma e modéstia. Para ela, é importante não ser considerada um fenômeno, com uma história de sucesso. O marido, Ilan Wagenstein, de 36 anos, economista graduado em Direito, trabalhando em um escritório de Relações Públicas, não consegue esconder o orgulho, e vez por outra deixa a esposa encabulada, lançando no ar um elogio a ela. Yarden jamais esquece, nem por um minuto, suas origens e como tudo começou. Reitera repetidamente o fato de que extraiu sua força interior durante os doze anos em que viveu, quando criança, numa vila isolado da Etiópia e, particularmente, de sua viagem a Israel, após o que nada mais poderá amedrontá-la.

Tudo começou quando ela teimou em seguir os estudos universitários e perseguir uma carreira acadêmica; continuou lidando com atitudes de terçeiros em relação a ela própria, ao seu casamento e, agora à sua filhinha. “Quando Ilan e eu  íamos ao teatro ou ao cinema, encontrávamos pessoas que, não sabendo que eramos casados muitas vezes me perguntavam se eu estava sozinha, mesmo quando meu marido estiva em pé ao meu lado. Desde essa  época sempre andamos de mãos dadas, para que as pessoas não captem a mensagem errada”.

“Vocês não têm idéia de quantos empregos me oferecem quando ia fazer compras. Geralmente encontrava senhoras que me perguntavam para quem eu trabalhava ou me diziam que estavam procurando uma faxineira, querendo saber se tenha algum dia livre! No começo ficava chocada, chateada, mas agora digo-lhes que eu também estou procurando uma faxineira e pergunto-lhes se desejam trabalhar para mim. Percebi que esta  é a melhor maneira de pôr essas pessoas de escanteio.. Prefiro acreditar em ações concretas e não em palavras vazias”.

Reações ao casamento

“Minha mãe teve o primeiro filho aos 15 anos; e a partir do meus 18 anos minha família me pressionava a procurar um bom homem para me casar! No início foi muito difícil para minha mãe o fato de me concentrar na minha carreira e não se preocupar com casamento. Quando finalmente casei, aos 30 anos, primeiro ficaram surpresos por ter me casado com um branco, apesar de casamentos mistos já serem relativamente comuns em Israel; depois não entendiam como podia estudar, ser uma boa esposa e ter uma filha. Disse-lhes com muita calma e carinho que a realidade aqui é bem diferente da Etiópia, e pedi para não pressionarem minhas irmãs mais novas. Meus pais aprenderam comigo que em Israel tudo é possível: trabalhar em diferentes empregos, casar em idade mais avançada, ter sucesso profissional e também ser mãe”.

Hoje, mesmo o Ilan não gostando da comida etíope, eles gostam mais dele do que de mim, e qualquer conversa termina com a frase:’Não cause nenhum embaraço ao seu marido, ele é um bom rapaz'”.

“A família do Ilan me aceitou de braços abertos, muito embora eu me perguntasse, logo no início, se eles estava apenas tentando ser simpáticos, ou se realmente era algo sincero. No início foi muito precavida nessa questão, pois sabia que muitos israelenses pensem que os etíopes são pessoas fracas e hesitantes… Mas isto não é verdade; o que verdadeiramente há nessa questão são padrões culturais diferentes que, aos poucos, somam-se e se integram em objetivos tanto pessoais como coletivos”.

A pele clara da filha

“Quando me casei com Ilan era óbvio que nossos filhos seriam mulatos ou brancos. A verdade é que meus pais ficaram mais surpresos pelo fato de ter me casado, do que ter tido uma filha branca. Minha mãe a chama de Umma “Adis”, que significa ‘nova’, porque uma menina branca é algo novo na minha família”.

“Quando saímos com a Umma, algumas vezes ouvímos comentários desagradáveis: O melhor deles foi quando entrei numa loja e alguém disse: ‘Dá para ver que você realmente adora essa menina. Quantas horas por dia você toma conta dela?’ Eu respondi: “24 horas por dia, 60 minutos por hora.” E a moça continuou: ‘O que? mas ela não tem pais?’ Quando disse que éramos os pais dela, a moça baixou a cabeça e sumiu de nossas vistas”.

“Em casa alimento minha filha com pratos típicos etíopes, ensino-a o amárico e toco música tradicional da Etiópia. Entre seus ursinhos e coelhinhos de pelúcia a atração principal é ‘Aneish’, uma boneca negra cujo nome significa ‘vamos ver você’ em amárico. Procurei uma boneca negra antes mesmo de Umma nascer, porque desejava que tivesse uma boneca parecida com que a mãe tinha quando criança”.

Visitando o passado

Há três anos atrás Yarden retornou a Etiópia para participar de um Congresso sobre países em desenvolvimento. “Quando saí da Etiópia não sabia o que era uma universidade, agora retornei como representante de uma universidade, como uma pesquisadora judia que tem algo a dizer, algo a ensinar e muita vontade de ajudar…”

“Nessa ocasião cheguei a viajar ao norte e cheguei próximo da vila onde morava quando criança. Não fui até lá porque ainda hoje não há ônibus para a vila. Vi crianças pastores como eu tinha sido um dia, adultos trabalhando na agricultura como meus pais… Pensei que qualquer um poderia chegar onde eu cheguei se tivesse tido uma oportunidade. Não senti pena deles e não creio que suas vidas sejam tão difíceis: são felizes com o que têm e talvez tenham um maior senso de tranqüilidade do que o nosso. Por outro lado, gostaria que pelo menos essas crianças fossem expostas às oportunidades que existem no mundo e que pudessem fazer suas próprias escolhas”.

Próxima parada: Harvard

Hoje, com 34 anos de idade, Yarden Fanta-Wagenstein, além de ser a primeira mulher etíope a obter doutorado em Israel fará pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde pesquisará a justaposição entre cultura e tecnologia e desenvolverá  um programa educacional para auxiliar analfabetos.

“Sabia que não ia parar no doutorado, e que se eu quisesse influir na educação teria que continuar. Essa é a razão pela qual quis entrar na melhor universidade do mundo. Sei que será difícil me adaptar aos professores de Harvard, mas fico sempre me lembrando que esses professores jamais sofreram o que eu já passei na vida . Portanto, eu chego lá”.

Passado, presente e futuro – Considerações

“Hoje, já como mãe, admiro meus pais pela coragem de terem embarcado nessa empreitada. Quando cheguei em Israel invejava as crianças daqui que não tinham vivenciado a experiência do medo como eu. Sentia que havia suportado uma carga extremamente pesada e que era muito jovem para já ter passado por essa experiência. Com o tempo as coisas foram se equilibrando, e hoje, retrospectivamente, acredito que foi um privilégio passar por tal provação e ainda estar viva”.

“Lembro-me da viagem como se tivesse sido hoje de manhã; está nas minhas entranhas. A jornada me ensinou a tirar algum proveito de tudo o que é ruim, e que quando você tem fé e está preparada para enfrentar o que tem pela frente, as coisas acontecem. Meu passado me transformou em uma pessoa mais forte, e nada mais poderá me apavorar”.

“Estou feliz de poder usufruir esses dois mundos. Sinto-me mais ou menos no centro, entre a cultura da Etiópia – de amor à bondade, paciência, valores de se doar, de família – e a cultura Ocidental que envolve pressa, conquistas, alcançar e conseguir. Tento combinar esses dois mundos, mas às vezes é impossível. Aos fins de semana sempre visito meus pais em Natania – para mim é importante estar ligada às minhas raízes. Não consigo me desligar do meu passado e da minha cultura,  é de lá que extraio minha forças. Vou à universidade usando minhas roupas etíopes e me sinto muito bem. Faz parte da minha pessoa, não importa onde eu viva”.

“Algumas vezes há pessoas que me dizem: ‘Você já se revelou, mostrou sua capacidade. Pare de estudar e viva a vida’. Estudar toda a vida é a mesma coisa que a escravidão”. Eu não vejo assim. Para mim, cada etapa de estudo é apenas mais uma jornada nada fácil, mas sem dúvida não tão difícil quanto a minha viagem da Etiópia a Israel. Não creio que qualquer coisa possa chegar perto daquela experiência”.

“Tenho planos para depois de Harvard, quero ser a primeira mulher etíope dirigindo a Faculdade de Educação da Universidade de Tel Aviv e a primeira catedrática etíope. Política? Nem pensar. Estou mais interessada em viajar para a Lua e ver a terra lá de cima, e ser mãe de mais três ou quatro filhos”.

* Anat Medan, ** Yediot Achronot

Notas

1. Essa matéria foi resumida e re-estruturada cronologicamente para uma mais rápida compreenção do seu conteúdo.

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