A Guerra contra o Terror


Por Rudnei Dias da Cunhas *

As operações militares norte-americanas contra a organização terrorista Al-Qaeda e o regime Talibã no Afeganistão trouxeram à luz algumas novas realidades para a guerra aérea, proporcionadas por um alto nível de tecnologia.

Antes de examinarmos o que essa guerra trouxe de novo em termos de operações aéreas militares, é interessante recapitularmos brevemente o desenrolar da guerra contra o Talibã, a qual pode ter seu desenvolvimento dividido em quatro fases distintas. A partir de 7 de outubro – quase um mês após os ataques terroristas de 11 de setembro – a Marinha norte-americana lançou ataques sistemáticos com mísseis cruise contra alvos de defesa aérea e de comunicações e controle, rapidamente dando cabo dos mesmos. Na segunda fase, os EUA passaram a destruir o sistema de suprimentos e logística do Talibã, utilizando aeronaves de combate (Marinha/Fuzileiros Navais/Força Aérea), a fim de preparar o terreno para os embates terrestres.

A terceira fase consistiu no apoio aéreo às forças da Aliança do Norte. Grande parte de seus membros não acreditavam que o poderio aéreo norte-americano fosse capaz de fazer muito diferente do que as forças soviéticas haviam feito vinte anos atrás. O que encontraram em seu avanço foi, no entanto, tropas talibãs desmoralizadas e incapacitadas para o combate devido ao preciso bombardeio norte-americano. A quarta fase consistiu dos ataques aos possíveis esconderijos de Osama Bin-Laden nas cavernas da região de Tora-Bora, enquanto os demais redutos talibãs eram destruídos e um governo de reconstrução nacional era instalado no país pela ONU. Cabe ressaltar que houve uma sobreposição no tempo entre essas quatro fases.

Certamente, o que se viu nessa campanha não foi aquilo que vários analistas internacionais preconizaram logo após o início dos ataques ao Afeganistão ou até mesmo antes, após o 11de setembro. Não houve um novo Vietnã e nem mesmo uma reedição da guerra Afegã-Soviética; pelo contrário, as baixas norte-americanas foram reduzidíssimas. Como isso foi conseguido?

Cabe ressaltar que essa guerra, do ponto de vista do combate aéreo, apresentou uma característica muito importante: a quase inexistência de sistemas de defesa aérea talibã. Nem mesmo os temidos mísseis terra-ar lançados do ombro, tipo Stinger, foram utilizados; supridos pelos EUA aos “mujahideen” afegãos durante a guerra contra a URSS, entre 1986 e 1989, esses mísseis já deveriam estar todos com a sua vida útil (oito anos em armazenagem) expirada. Pela mesma razão, os mísseis terra-ar Shorts Blowpipe (de fabricação britânica e supridos pelos EUA) e os 9M32 Strela-2 (SA-7 Grail, capturados dos soviéticos) não tiveram seu uso detectado. Os poucos caças que existiam foram destruídos no solo e, novamente, possivelmente sequer encontravam-se em operação. Dessa forma, os EUA puderam desde o início estabelecer a dominação aérea sobre a região. Isso permitiu o uso de aeronaves como os AC-130U Spectre (equipados com canhões de 105mm, 40mm e 20mm) e os MC-130H Combat Talon II, esses transportando bombas BLU-82B Daisy Cutter de 7.500Kg, roladas para fora da aeronave pela rampa de carga traseira.

Outra característica que auxiliou os EUA foi a geografia do terreno, com a maior parte dos alvos situados em território esparsamente populado e com pouca vegetação. Além disso, as condições meteorológicas permitiram efetuar o bombardeio dos alvos com pouca interrupção.

A terceira característica é que os EUA não se envolveram na guerra terrestre – a menos de um pequeno grupo de Fuzileiros Navais que ocupou uma pista de pouso – e isso, obviamente, fez com que o Talibã não pudesse infligir baixas aos norte-americanos, empregando táticas de guerrilha.

Uma última e importante característica – e que tem implicações para as futuras operações militares – é que, como essa guerra foi um affair norte-americano, com apoio subsidiário dos seus aliados, houve uma liberdade muito maior na condução da campanha por parte dos militares. Mais ainda, o avanço tecnológico norte-americano é tão grande, mesmo em comparação com os países da OTAN, que pode se argumentar que um eventual “auxílio” atrapalharia a condução das operações.

 

Localizando alvos

O que se viu na campanha no Afeganistão foi o emprego de pequenos grupos de “forward air controllers” (FAC, controladores aéreos antecipados) do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, equipados com os mais avançados sistemas de comunicação e localização de alvos – equipamentos GPS, rádios digitais com codificação/decodificação e computadores de mão. Em guerras anteriores, os FAC tinham de ser protegidos por uma força amiga relativamente grande; no Afeganistão, foram utilizadas forças bem pequenas. Um comandante norte-americano disse que os ataques aéreos dirigidos contra o Talibã na batalha de Mazar-e Sharif – a primeira grande vitória para a Aliança do Norte – foram controlados por “three or four guys in the North”.

Por outro lado, pouco importa ter FACs capazes de detectar com exatidão os alvos, se a autorização para atacá-los tem de percorrer uma longa cadeia de comando, impedindo uma reação rápida; de alguma forma, o ciclo observar-orientar-decidir-agir, identificado primeiramente por John Boyd (coronel da USAF), deve ter seu tempo minimizado. Por exemplo, na Guerra do Golfo (1991), dificuldades em se obter as devidas ordens ao tempo certo fizeram com que muitos lançadores de mísseis Scud não fossem destruídos – quando as ordens chegavam e os ataques eram montados, há muito tempo os lançadores já haviam se deslocado para outro lugar. Na campanha contra o Talibã, a decisão de se instalar mísseis AGM-114C Hellfire em UAVs (Unmanned Air Vehicles, aeronaves não-tripuladas) RQ-1 Predator conseguiu reduzir o tempo de resposta para algo em torno de dez minutos – mas nem tudo é perfeito ainda, pois o Mullah Omar (líder do Talibã) aparentemente escapou por duas vezes de ser atacado por um Predator, pois a autorização para lançar os mísseis não foi conseguida a tempo.

Uma outra fonte para se localizar os alvos é uso de aeronaves e satélites de espionagem. Nessa campanha, os EUA utilizaram não só aeronaves U-2R, de conhecidas capacidades, mas também introduziram em combate os UAVs RQ-1 Predator e o RQ-4A Global Hawk (um dos quais caiu durante uma missão em 30 de dezembro), os quais ainda não se encontram completamente operacionais. Além desses, os EUA solicitaram a ajuda da Austrália, França e Reino Unido, os quais contribuíram com aeronaves P-3C Orion, Mirage IVP e Canberra PR.9 e Nimrod R.1, respectivamente.

 

Acertando alvos

Para a guerra aérea, no entanto, a campanha contra o Talibã trouxe uma outra implicação – o uso de alta tecnologia na guiagem de bombas, através de GPS (muito mais seguro e confiável do que guiagem por laser) e “wind corrected munitions dispensers” (WCMD, lançadores de munição com correção do vento) – fez com que os bombardeiros estratégicos B-52, B-1B e B-2 passassem a ser utilizados como aeronaves de bombardeio tático ou de apoio aéreo aproximado, de forma eficaz e eficiente. Eficaz por que um B-52 pode lançar no mínimo 24 bombas JDAM (bombas do tipo Mk82, de 1.000lb, ou Mk.84, de 2.000lb, acopladas a um kit de guiagem por GPS) e WCMD com precisão medida em poucos metros; e eficiente por que pode permanecer algumas horas sobre a área de engajamento, reduzindo o número de missões que deveriam ser montadas caso aeronaves menores (por exemplo, do tipo F-15E, o qual pode transportar até quatro bombas JDAM, com uma menor autonomia) fossem utilizadas. Além disso, tais bombas podem ser lançadas de uma altitude de 35.000 a 40.000 pés, o que reduz as chances da aeronave lançadora ser atingida pela defesa anti-aérea inimiga e, num conflito como esse, o inimigo só descobrirá que está sendo atacado quando a bomba explodir.

Obviamente, aeronaves de emprego tático como os F-14A Tomcat e F/A-18C/D foram utilizadas, mantidas em espera no ar com o uso de aeronaves de reabastecimento aéreo, algumas das quais VC-10 britânicos.

Na campanha no Afeganistão, pela primeira vez as bombas inteligentes foram utilizadas em larga escala. Na Guerra do Golfo, apenas 9% das bombas lançadas eram guiadas por laser; na Guerra do Kosovo, esse percentual aumentou para 29%, mas as más condições atmosféricas e necessidade de minimizar os assim chamados efeitos colaterais (como danos a civis) reduziu o uso das bombas guiadas a laser. Agora, 90% das bombas utilizadas no Afeganistão foram do tipo inteligente, sendo que a maioria dessas foi do tipo JDAM (de baixo custo – apenas US$18.000 o kit), as quais apresentam um raio máximo de erro de aproximadamente 10 metros. Até mesmo um pequeno grupo de terroristas escondido em uma trincheira pode, agora, ser considerado um alvo para um bomba desse tipo. Cabe ressaltar que, caso o sistema de guiagem GPS de uma bomba JDAM torne-se inoperante ou perca o sinal da cadeia de satélites GPS, automaticamente entra em ação um sistema de guiagem inercial, baseando-se na última posição conhecida (através do GPS); o erro possível passa a ser da ordem de 30 metros.

Implicações

Pode-se dizer que, em situações de completa dominação aérea, a estratégia norte-americana passa a ser a de utilizar bombardeiros carregados de bombas, capazes de lançá-las quando necessárias com altíssima precisão, permanecendo horas sobre a área de ataque. Isso parece se confirmar com a introdução em serviço, em 2002, da “small diameter bomb” (SDB, bomba de pequeno diâmetro), com as quais um B-2 será capaz de transportar 324 SDBs de 250lb.

Uma outra constatação é a dependência cada vez maior dos EUA no uso de satélites, os quais fornecem os meios para a aquisição de informação (através de fotos de alta definição), disseminação de informação (transmitindo dados) e, principalmente, para a guiagem de bombas, tropas e UAVs através da rede de satélites GPS. Pode-se afirmar que essa rede é o centro nervoso das operações militares dos EUA; é, também, seu calcanhar de Aquiles, pois se essa cadeia sofrer interferência ou ataque (um pulso eletromágnetico causado por uma explosão nuclear de média potência pode destruir os circuitos eletrônicos de um satélite), as forças norte-americanas podem ter sua eficácia grandemente reduzida. Nesse sentido, é importante notar a importância cada vez maior dada pelo Departamento de Defesa norte-americano ao Comando Espacial da USAF; juntamente com a dominação aérea, os EUA necessitarão adquirir e manter, em um conflito próximo, a dominação espacial.

 

* Rudnei Dias da Cunha

 

Bibliografia

1. T. Robinson, “New rules of warfare – First lessons from Afghanistan”. In: Aerospace International, Vol. 29, No. 2. Royal Aeronautical Society, Londres, Fevereiro de 2002.

2. D. Willis, “Targeting Afghanistan”. In: Air Forces Monthly, No. 165. Key Publishing, Londres, 12/2001.

3. D. Willis, “Afghanistan-The Second Month”. In:Air Forces Monthly, Nº 166. Key Publishing, Londres, 01/02.

4. A.Dawes, “Afghanistan – The Third Month”. In: Air Forces Monthly, Nº 167. Key Publishing, Londres, 02/02.

5. Joint Direct Attack Munition – JDAM

6. Bombers: A formidable weapon in fight against terrorism.

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One Response to A Guerra contra o Terror

  1. Bianca says:

    Muito bom esse texto me ajudou muito no meu trabalho!!!!!!!!!!
    Thanks very much…….. =]

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