Teatro da Mídia de Massa


“Em uma sociedade democrática, quando se diz “terrorismo” também se diz “meios de comunicação”. Porque o terrorismo, pela própria natureza, é uma arma psicológica que depende da comunicação de uma ameaça a uma sociedade mais ampla. É por isso, em essência, que o terrorismo e os meios de comunicação gozam de uma relação simbiótica.” – Paul Wilkinson1

Gabriel Weimannn *

A psicologia do terror

Desde o início, o terror acarreta necessariamente um aspecto psicológico de massa: A palavra “terror” vem do termo latino “terrere,” que significa “assustar ou atemorizar”. Durante a Revolução Francesa de 1793, o Reinado do Terror resultou na execução de 17 mil pessoas; as execuções eram sempre realizadas diante de grandes platéias e acompanhadas por publicidade sensacionalista, espalhando assim o medo desejado entre os cidadãos com temeridade suficiente para objetar.

O terrorismo moderno pode ser compreendido em termos das mesmas exigências de produção de qualquer empreendimento teatral: cuidados meticulosos com a preparação do roteiro, seleção do elenco, cenários, acessórios, representação e direção de cena minuto a minuto. Assim como nas peças de teatro ou apresentações de balé, a orientação das atividades terroristas na mídia exige atenção cuidadosa aos detalhes para ser eficaz. A vítima é, no fim das contas, apenas “o couro de um tambor tocado para produzir impacto calculado sobre uma platéia mais ampla”.2

Paralelamente ao aumento das oportunidades proporcionadas pela tecnologia, os próprios terroristas trataram de aperfeiçoar sua capacidade de comunicação. Conforme testemunho de um dos terroristas que orquestraram o atentado aos atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972:

O desempenho mais poderoso, violento e perfeitamente coreografado do moderno “teatro do terror” foi o atentado de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Em novembro daquele ano, Osama bin Laden discutiu os atentados às Torres Gêmeas, referindo-se aos terroristas suicidas como “vanguardas do Islã” e achando maravilhoso que “aqueles jovens, com os atos praticados em Nova York e Washington, tivessem falado mais alto que  os demais discursos do mundo inteiro. Eles foram compreendidos pelos árabes, pelos não-árabes e até pelos chineses”.4 Os alvos escolhidos para esse evento eram símbolos da riqueza, do poder e do patrimônio dos Estados Unidos. De acordo com um manual usado em campos de treinamento da Al Qaeda, a publicidade era – e muito provavelmente ainda é – fato importante a ser levado em conta. Assim, os partidários da Jihad foram aconselhados a mirar “marcos sentimentais” como a Estátua da Liberdade de Nova York, o Big Ben de Londres e a Torre Eiffel de Paris, porque sua destruição “geraria intensa publicidade”.6

 

A produção terrorista

Um dos teóricos mais influentes do terrorismo moderno foi o brasileiro Carlos Marighela, cujo “Manual do Guerrilheiro Urbano” tornou-se o livro de referência para os terroristas globais. Ele escreveu:

“Seqüestrar figuras conhecidas por suas atividades artísticas, esportivas ou outras que não expressaram pontos de vista políticos pode possivelmente proporcionar uma forma de propaganda favorável aos revolucionários. … Os meios de comunicação modernos, simplesmente por anunciar o que os revolucionários estão fazendo, são instrumentos de propaganda importantes. A guerra de nervos, ou guerra psicológica, é uma técnica de combate baseada no uso direto ou indireto dos meios de comunicação de massa. … Assaltos a bancos, emboscadas, deserção e desvio de armas, resgate de prisioneiros, execuções, seqüestros, sabotagem, terrorismo e guerra de nervos são os casos apontados. Aviões desviados em pleno vôo, navios e trens assaltados e capturados por guerrilheiros também podem ser ações executadas unicamente para efeitos de propaganda”.7

Ralph Dowling sugeriu aplicar o conceito de “estilo retórico”, argumentando que “os terroristas se entregam a formas retóricas recorrentes que forçam a mídia a proporcionar o acesso sem o qual o terrorismo pode não cumprir seus objetivos”.9 que podem ser melhor analisadas como “eventos de mídia”. Os atentados do Hezbollah contra alvos israelenses, por exemplo, são sempre gravados em fitas, levando alguns analistas a sugerir que todas as unidades do terror consistem em no mínimo quatro membros: o perpetrador, um operador de câmera, um técnico de som e um produtor.

É claro que os terroristas planejam suas ações tendo a mídia como um fator importante. Eles selecionam alvos, local e ocasião de acordo com preferências de mídia, tentando satisfazer critérios de interesse, horários de mídia e prazos. Eles criam e preparam auxílios visuais – como filmes, videoclipes de atentados e “confissões” forçadas de reféns, entrevistas gravadas em fita e declarações de fidelidade dos perpetradores da violência – ao mesmo tempo que entregam comunicados à imprensa profissional e aos noticiários.

Os terroristas modernos alimentam a mídia, tanto direta quanto indiretamente, com propaganda disfarçada de itens de notícias. Também monitoram a cobertura, examinando atentamente as reportagens de diversos jornalistas e suas organizações de mídia. A pressão dos terroristas sobre os repórteres assume várias formas – de hospedagem aberta e amigável a ameaças diretas, chantagem e assassinatos de intimidação.

Finalmente, as organizações terroristas operam sua própria mídia, de canais de televisão (o Al-Manar do Hezbollah e A Voz do Califado da Al Qaeda), agências de notícias, jornais e revistas, canais de rádio e cassetes de vídeo e áudio a, mais recentemente, sites na internet.

 

A retórica da propaganda terrorista

Um elemento comum nos sites terroristas é a justificativa dada ao uso da violência. Uma teoria útil que orienta essa análise é a teoria da “desobrigação moral” de Albert Bandura, embora não especificamente desenvolvida para terroristas: 12 Diluiçãoda responsabilidade – Desumanização de alvos – Linguagem eufemística – Comparações vantajosas – Distorção da seqüência de eventos e da atribuição de culpa – O desafio futuro.

O surgimento do terrorismo voltado para a mídia representa um duro desafio para as sociedades democráticas e os valores liberais. A ameaça não se limita à manipulação da mídia e à guerra psicológica; inclui também o perigo de restrições impostas à liberdade de imprensa e de expressão pelos que tentam combater o terrorismo.

Como devem responder as sociedades democráticas? Essa questão é extremamente sensível e delicada, pois a maior parte da retórica disseminada é considerada discurso livre protegido pela Constituição dos EUA ou por legislação semelhante em outras sociedades ocidentais.

Novas tecnologias acarretam troca de paradigma: elas valorizam os indivíduos em relação aos Estados ou sociedades por meio do livre acesso às informações e à comunicação de massa. A beleza da internet como meio de massa está em sua natureza liberal, livre e não regulada. Seu uso indevido é um dos preços inevitáveis da democracia? Devemos buscar um compromisso proativo que minimize seu abuso por terroristas, mantendo, ao mesmo tempo, as liberdades democráticas.

 

* Gabriel Weimannn, jornalista associado ao United States Institut of Peace, professor de Comunicação na Universidade Haifa, Israel. Autor de conceituados artigos e estudos sobre terrorismo moderno, campanhas políticas e meios de comunicações.

 

Notas

(1) P. Wilkinson, Terrorism Versus Democracy [Terrorismo versus Democracia] (Londres: Frank Cass, 2001).

(2) A. Schmid e J. de Graaf, Violence as Communication [Violência como Comunicação] (Beverly Hills, CA: Sage, 1982).

(3) C. Dobson e R. Paine. The Carlos Complex: A Pattern of Violence [O Complexo Carlos: um Padrão de Violência] (Londres: Hodder e Stoughton, 1977).

(4) As notas foram tiradas das traduções de um videoteipe, presumivelmente feito em meados de novembro de 2001 no Afeganistão.

(5) B. Nacos, “The Terrorist Calculus Behind 9-11: A Model for Future Terrorism?” [O Cálculo Terrorista por trás do 11 de Setembro: Um Modelo para o Terrorismo Futuro?] Studies in Conflict and Terrorism [Estudos em Conflito e Terrorismo], vol. 26 (2003): pp. 1-16.

(6) Hamza Hendawi, “Terror Manual Advises on Targets.” [Manual do Terror Informa sobre Alvos].

(7)C. Marighela, “Manual do Guerrilheiro Urbano”, em J. Mallin (ed.), Terror and the Urban Guerrilla [O Terror e a Guerrilha Urbana] (Coral Gables, FL: University of Miami Press, 1971)

(8)P. Karber, “Urban Terrorism: Baseline Data and a Conceptual Framework,” [Terrorismo Urbano: Dados Básicos e Estrutura Conceitual] Social Science Quarterly, vol. 52 (1971): pp. 527-533.

(9)R.E. Dowling, “Terrorism and the Media: A Rhetorical Genre” [Terrorismo e a Mídia: um Estilo Retórico], Journal of Communication, vol. 56, No 1 (1986): pp. 12-24.

(10) J.B. Bell, “Terrorist Script and Live-Action Spectaculars” [Roteiro e Espetáculos Terroristas ao Vivo], Columbia Journalism Review (maio-junho de 1978): pp. 47-50.

(11)Gabriel Weimann, WWW.Terror.Net: How Modern Terrorism Uses the Internet [www.terror.net: Como o Terrorismo Moderno Usa a Internet] (relatório especial) (Washington D.C.: Instituto da Paz dos Estados Unidos, 2004); Gabriel Weimann, Terror on the Internet: The New Arena, The New Challenges [Terror na Internet: Nova Arena, Novos Desafios] (Washington, D.C.: Instituto da Paz dos Estados Unidos, 2006); Gabriel Weimann, “Virtual Disputes: The Use of the Internet for Terrorist Debates” [Disputas Virtuais: o Uso da Internet para Debates Terroristas], Studies in Conflict and Terrorism[Estudos sobre Conflito e Terrorismo], vol. 29, No 7 (2006): pgs. 623-639.

(12) A. Bandura, “Moral Disengagement in the Perpetration of Inhumanities” [“Desobrigação Moral na Perpetração de Atos Desumanos], Personality and Social Psychology Review (edição especial sobre o mal e a violência), vol. 3 (1999): pp. 193-209; A. Bandura, “Selective Moral Disengagement in the Exercise of Moral Agency” [Desobrigação Moral Seletiva no Exercício da Agência Moral], Journal of Moral Education, vol. 31, No 2 (2002): pp. 101-119; e A. Bandura, “The Role of Selective Moral Disengagement in Terrorism and Counterterrorism” [O Papel da Desobrigação Moral Seletiva no Terrorismo e no Contraterrorismo] em F. M. Moghaddam e A. J. Marsella (eds), Understanding Terrorism: Psychological Roots, Consequences and Interventions [Entendendo o Terrorismo: Raízes Psicológicas, Conseqüências e Intervenções] (Washington, D.C.: Associação Americana de Psicologia, 2004), pp. 121-150.

 

Fonte

eJournal USA

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2 Responses to Teatro da Mídia de Massa

  1. Clarissa says:

    Adorei o seu blog muito dez!!! Está de parabéns! Muito interessante!
    ah se puder acesse meu site também da nossa clínica de psicoterapia e terapias alternativas!
    http://www.haraterapias.com.br/inicio.html

    grande abraço,
    Clarissa

  2. giovanna says:

    adorei o seu blogmuito bommmm!!!!!!!!!! muito exelente!…. grande abraço beijosss

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