A comunicação de massa como condição para a democracia


Por Alexander Goulart *

Quando pensamos a comunicação, por vezes, somos um tanto negativistas; enxergamos muitos problemas e poucas perspectivas positivas. Na contramão das críticas calorosas aos problemas da mídia contemporânea, temos o entusiasmo do sociólogo francês Dominique Wolton, autor de Elogio do grande público.

Na presente comunicação, gostaria de partilhar algumas idéias de Wolton, com quem tive a oportunidade de participar de um seminário na Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUC-RS, em Porto Alegre. Sem a pretensão de fazer uma leitura crítica do pensamento do Wolton, simplesmente apresento aquilo que depreendi de suas explanações, deixando, portanto, que o leitor tire suas conclusões.

A comunicação

Para Wolton, a comunicação é um grande valor humanístico e democrático baseado na igualdade e liberdade dos interlocutores. Trata-se de um valor humanístico porque é inerente ao ser humano e é democrático, porque só a democracia coloca a igualdade como condição para a comunicação. Mas Wolton alerta para o grande risco da comunicação: a não-comunicação, o não entendimento.

Sobre as características da comunicação, devemos estar atentos para o fato de não haver comunicação sem técnica e economia. Sempre houve uma economia da comunicação, que agora ganha cada vez mais destaque. Outra característica é a questão cultural e social – países distintos possuem diferentes gramáticas (modos) de comunicar-se. Essa talvez seja a característica mais importante e a menos visível. Em síntese, a comunicação envolve técnica (o mais visível), cultura (o mais importante) e economia (o mais perigoso).

Comunicação e informação são valores de emancipação. Porém, informar não é sinônimo de comunicar. Quando falamos em revolução da informação, não se trata de comunicação, pois melhores técnicas não garantem melhor comunicação. Por exemplo, melhores ligações entre Brasil e Argentina não solucionam os entraves políticos, os problemas de comunicação entre os dois países.

Comunicar significa compartilhar. Outro significado é “transmitir”. Em escala humana, queremos compartilhar. A diferença entre compartilhar e transmitir está no fato de que podemos transmitir sem compartilhar. As técnicas de maior sucesso são as que permitem proximidade com o compartilhamento físico (rádio e TV). O objetivo número um da comunicação é a partilha. A técnica mais humana de comunicação é o telefone, que ao mesmo tempo comunica e não comunica – no nível da compreensão. A comunicação está ligada ao amor: um quer falar e precisa de outro para ouvir. A comunicação é uma negociação constante.

Comunicar não é apenas expressar, mas também deixar que o outro responda e que seja ouvido. Eis a interatividade. Deve haver diálogo. O verdadeiro elogio da comunicação é o diálogo. É também o seu desafio, sua dificuldade. O diálogo exige retorno.

O elogio da comunicação é: reconhecer que se quer comunicar; ter consciência de que o êxito é raro; por fim, a construção da coabitação. A coabitação é o horizonte da comunicação. Coabitar significa reconhecer a dificuldade, a diferença, e ainda assim querer manter a relação. A coabitação exige igualdade e alteridade. Então, a comunicação é um desejo que gera uma não-comunicação, que tem por síntese a coabitação. Trata-se do mesmo sistema da sociedade democrática, ou seja, a tentativa da convivência pacífica. A democracia exige atenção para alguns fundamentos, por vezes, esquecidos: liberdade, igualdade, solidariedade, comunicação e alteridade.

Filosofias da comunicação

Há duas filosofias da comunicação hoje: uma dominante, afirmando que o progresso técnico vai garantir a melhora da comunicação. “O computador pode tudo”. A base dessa filosofia é a economia; a segunda filosofia podemos chamar de minoritária, é aquela que coloca ênfase na dimensão humana, no reconhecimento da dificuldade da comunicação humana, no problema político. A partir da filosofia minoritária, temos o desafio da comunicação não na técnica, mas no humano.

Pensando no humano, não podemos enxergá-lo como um ser passivo. Frente à TV, por exemplo, não somos passivos, pois nosso cérebro está funcionando. Existe uma interação. Aos que criticam a televisão, Wolton responde que, para que haja sufrágio universal, é necessária a mídia de massa. A TV não reduz a desigualdade, mas impede mais desigualdade. Sem comunicação de massa, não há democracia de massa.

Televisão, internet e comunicação de massa

A vantagem da TV aberta é seu poder de pautar o público, fazendo-o pensar em coisas que, de outro modo, não pensaria. Na comunicação, o grande desafio é o grande público. A internet, por sua vez, faz as informações circularem com muita rapidez e, uma imagem ou um texto circulando pelo mundo, acelera a reflexão. Porém, devemos ter em mente que “os homens comunicam, as técnicas transmitem”. A internet é um meio comunitário, segmentado, temático. Não é societal. A TV aberta é societal. A comunidade é homogênea e a sociedade heterogênea.

A internet garante a comunicação temática, não obriga a ver, a conhecer o diferente. Na TV aberta, o conteúdo é oferecido. Na internet, se faz uma escolha. Logo, a internet não dá maior liberdade. Ao contrário da internet, na TV e no rádio a alteridade se impõe. Tentam nos fazer acreditar que aquilo que é voltado para a massa é ruim; e bom é o segmentado, pequeno, controlado. A mídia de massa é boa, pois é coabitação, enquanto que a minoria é comunitária. A sociedade é massa, não comunidade.

Quanto à crítica da mídia de massa, devemos observar que, se a visão de quem só vê o que há de ruim na mídia estivesse correta, não haveria possibilidade de emancipação. Esses intelectuais pensam que tudo está podre, menos eles. Radicalidade não é sinônimo de verdade. Não adianta fazer crítica, falar, por exemplo, da ideologia das telenovelas, mas o que se deveria fazer é estudar como milhões de pessoas aproveitam as telenovelas para pensar e agir. A mídia de massa é a condição para a democracia de massa, e não é a mídia que controla a realidade, mas o receptor, a partir do que faz com a mensagem que recebe. A responsabilidade do produto da televisão pertence ao emissor. A audiência não mede a demanda, mas a reação diante do que é ofertado.

O ser humano sempre é inteligente. Os intelectuais marxistas sempre crêem que o povo é alienado, o emissor um manipulador. Se assim fosse, o sufrágio universal seria estupidez, pois o povo seria estúpido. O ser humano pode ser dominado, mas não alienado. Há pessoas muito cultas e estúpidas, outras, analfabetas e inteligentes. O receptor não é burro. Devemos amar a comunicação e lembrar que trata-se de uma troca de inteligências. A democracia de massa é melhor que a democracia da elite.

Sociedade da Informação e pós-modernidade

Um sistema de informação não cria a democracia. A internet não salva o mundo. O que muda o mundo é a vontade política. O instrumento não dá sentido à consciência, mas a consciência dá sentido ao instrumento. Por exemplo, as escolas acreditam que a tecnologia é a solução e fazem investimentos grandes nessa área, esquecendo de investir nos professores.

O problema da sociedade da informação é a liberdade de perversão da informação. Temos que perceber que nem tudo pode ser informação. A sociedade da informação é um mito de racionalização. Não há sociedade de informação. Precisamos de intermediários, sejam eles jornalistas ou documentaristas. É falácia acreditar que jornalista não é necessário. O jornalista não tem que buscar a verdade, mas a honestidade. O jornalista tenta ser honesto ao colocar ordem no caos.

A sociedade da informação possui vive o mito da modernidade. Não há modernidade sem tradição. Se quisermos que a globalização tenha sentido, precisamos restabelecer os valores, a tradição. O conceito de sociedade da informação é contraditório. Contraditório também é o conceito de pós-modernidade. Não estamos na pós-modernidade, mas num outro momento da modernidade. Estamos num hiato de tempo em que algumas idéias ruíram, mas não saímos da modernidade. O discurso pós-moderno é vaidoso, coisa de intelectuais narcisistas que acreditam serem testemunhas de uma ruptura histórica. A pós-modernidade, por exemplo, seria incapaz de pensar a Europa como democracia. A União Européia está abrindo uma nova etapa na história, ou seja, não é o fim. A UE é o melhor argumento contra a pós-modernidade, contra o fim da história. ” A história permanece aberta: existe uma margem de manobra. O homem pode ser dominado, mas não alienado.”

Comunicação e globalização

Alguns apontamentos sobre comunicação e globalização:

– Quanto mais globalização, maior será a reivindicação cultural e política. O fim das distâncias físicas revela a extensão das distâncias culturais. “O outro está próximo de mim, mas não o suporto”.

– O grande desafio da globalização é não ter uma única potência dominando culturalmente. Os povos vão desejar manter suas identidades. Logo, a coabitação cultural é a chave par a paz.

– Valores contraditórios precisam coabitar: cultural x universal. Isso requer uma coabitação multicultural. O gerenciamento cultural e religioso é fundamental. Cultura e religião são dinamites.

– O exemplo da União Européia deve ser observado. Se a UE fracassar, então a comunicação terá falhado. Em termos de coabitação, o Brasil é o país mais à frente, pois é multicutural.

– A comunicação envolve três coisas: representação do outro, experiência do outro, e divisão do território. Quanto mais a comunicação vence o tempo e o espaço, mais aparece a importância do território, ou seja, precisamos estar em algum lugar.

Em síntese, a comunicação é um grande desafio para o século 21. A comunicação, em suas três dimensões, tem na cultura a mais importante. Seu desafio é organizar a coabitação, respeitando as identidades e relações, correndo o risco do choque entre cultura e identidade. Não há democracia sem comunicação, que mesmo com suas ambigüidades, mantém seu valor de emancipação, pois nos leva à alteridade. Pela coabitação, poderemos chegar à emancipação do ser humano. É pelo respeito ao diferente, à alteridade, à inteligência do outro que se realiza a emancipação. O maior desafio de todos é proteger a dimensão humanista da comunicação.

* Alexander Goulart, jornalista, mestre em comunicação. Porto Alegre. Brasil

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