Origem do Islã já traz o germe do radicalismo


Napoleão Sabóian *

Entrevista (concedida ao Estado de São Paulo, em Paris) com o professor Jacques Rollet, da Universidade de Rouen, França, um dos mais reputados especialistas europeus nos estudos da relação entre política e religião.

 

Estado – O Islã traria em sua própria essência o fermento da violência?

Rollet – Nos seus primórdios, não, porque o Islã pregava o respeito ao próximo, ao pobre. Mas, entre 622 e 632, com as leis ou textos sagrados postos em relevo no Alcorão, em Medina, assistiu-se a uma radicalização e à abordagem da violência pelo Islã. Um desses textos rezava: “Faça a guerra aos que não crêem nem em Deus nem no Juízo Final.” Maomé empreendeu então o combate contra os infiéis de Meca e, mais particularmente, contra os judeus e cristãos de Medina que resistiam à conversão ao Islã. O combate ganhou, pois, formas militares. O uso da violência tornou-se ai inelutável.

 

Estado – A jihad, que foi também, inicialmente, um combate espiritual individual visando à perfeição da alma humana, converteu-se depois em guerra santa, tendo como alvo os territórios não-muçulmanos. Como explicar tal evolução?

Rollet – O Islã significa conquista desde Maomé, que era um combatente militar, um conquistador. Jesus nunca combateu com armas nas mãos. A diferença é fundamental. Desde seu advento, no século 7.º, em apenas dois ou três séculos o Islã conheceu uma expansão fulminante. Tais sucessos militares confirmaram os muçulmanos mediáveis na mística de que sua religião era a expressão da verdade. A jihad introduzirá e firmará, assim – fenômeno amplificado pelas cruzadas -, a idéia de que o Islã só existirá como tal se obtiver sucessos militares. Nada deve se opor à sua expansão. Isto constitui a essência mesma do Alcorão. A partir daí, pode-se compreender o contexto em que se impôs, bem mais tarde, o islamismo radical.

 

Estado – O que determinou o surgimento do islamismo radical?

Rollet – Para começar e situar as coisas, diria que o islamismo é um movimento iniciado nos anos 20 do século passado, no Egito, pelo dignitário Al-Banna, fundador da Fraternidade Muçulmana, movimento no qual se engajou mais tarde seu discípulo Sayid Qutb. O objetivo primordial de sua criação era revitalizar a comunidade muçulmana pela união indissolúvel entre a religião e a política, fazendo dos fiéis militantes do Islã. Em nome dessa união, os islâmicos radicais proclamaram que, se a comunidade muçulmana se defronta com problemas, com a adversidade, por causa dos infiéis – os não-muçulmanos – ela deve superar as dificuldades até mesmo pelo combate militar.

Em outras palavras, o islamismo radical surgiu para empreender uma ação de natureza política que tornasse indissociável o vínculo da religião com a política, com a nítida valorização da segunda. Ele traduz uma visão, uma “leitura” radical do Islã.

Lembraria que, antes do advento do islamismo radical no século passado, os mulçumanos, durante mais de um milênio limitaram-se a fazer suas preces, a praticar o Islã sem que ninguém ousasse efetuar leituras ou interpretações de qualquer natureza sobre seu exercício.

 

Estado – Que interpretação os radicais deram à jihad (guerra santa)?

Rollet – A interpretação segundo a qual, representando o Islã a verdade, devem ser eliminados todos os que a negam ou deixam uma sociedade viver em liberdade, apta a fazer o que ela bem quer. Esse entendimento se tornará bem mais radical ainda com as teses do paquistanês Al-Mawdudi, outro pai fundador do movimento. Ele incitava a comunidade ao combate pelo Islã porque, segundo suas palavras, o mundo estava sendo invadido pelo reino da ignorância, da heresia e da devassidão. Para os islâmicos radicais de hoje, tais maldições são encarnadas pelo Ocidente, pelas suas democracias com suas liberdades – e tudo isso que precisa ser combatido por todas as armas.

 

Estado – Bin Laden não é imã, mulá ou chefe religioso. Que legitimidade teria ele para convocar os muçulmanos à guerra santa e lançar fatwas (sentenças), atribuições reservadas no passado aos doutores da lei sagrada?

Rollet – Ele não tem a legitimidade e teria muito menos ainda se fosse xiita, pois nesta segunda vertente do Islã (a primeira é a sunita, à qual pertence Bin Laden e agrupa 90% dos muçulmanos) só os aiatolás possuem tal legitimidade. Mas há de se matizar a resposta. Ele não é desmentido, desautorizado pelo fato de que todo muçulmano, à luz do Alcorão, deve combater o que ele estima ser o mal e os portadores deste. Aí, nos deparamos com uma problemática que desarvora os muçulmanos sunitas moderados e em relação à qual eles são impotentes. Isto porque, na vertente sunita do Islã, não existe, como na vertente xiita, um magistério, uma direção clerical capaz de clarificar definitivamente as coisas. Clarificação que consistiria em dizer que todo apelo à guerra, à violência ou à simples adversidade contra os não-muçulmanos não pode ser feito em nome do Islã. Porém, sem a mediação de uma espécie de Vaticano muçulmano, não vejo como tal iniciativa possa ser tomada mesmo pelo Islã moderado praticado em geral na Europa e na França em particular, por exemplo.

 

Estado – Como analisa os tímidos sinais de abertura vindos do Irã?

Rollet – Se houver uma evolução, esta virá efetivamente do Irã, como deixam supor os textos de dois de seus notáveis pensadores e mulás, Soroush e Shabestar. Ambos sustentam que o Islã deve respeitar no Irã a diversidade de posições na sociedade, onde cada um precisa gozar do direito de se exprimir, de dizer o que pensa. A meu ver, tal sinalização no sentido de uma reforma se explica pela existência, no Islã xiita do Irã, de um magistério exercido pelos aiatolás. Mas para que as coisas possam evoluir realmente será necessário que o sistema político iraniano se impregne do espírito de abertura daqueles dois pensadores. Para ser concreto, tudo dependerá da capacidade das forças religiosas e políticas tidas como mais liberais e representadas pelo atual presidente da república, Mohammad Khatami, se imporem perante as correntes conservadoras, sobre o Conselho de Vigilância da Revolução, que, entre outras prerrogativas, pode anular todas as leis votadas pelo Parlamento se estas não lhe convém. Em suma, para haver uma evolução em profundidade, seria indispensável separar a política da religião, e isto nem mesmo Soroush e Shabester ousam ainda a admitir. Além disso, tenho sérias dúvidas de que tal evolução pudesse influenciar o mundo muçulmano sunita, que é majoritário no Islã.

 

Estado – Vaticano do Islã ou magistério à parte, os moderados, em nome do Alcorão, não podem contestar, contradizer as proclamações dos extremistas como Bin Laden?

Rollet – Os moderados não podem verdadeiramente contestá-los em nome do Alcorão porque os textos sagrados estabelecidos em Medina quando Maomé era venerado como chefe e chamado “O Profeta” já ordenavam que os inféis deviam ser combatidos militarmente. A força do islamismo radical reside aí, na impossibilidade de o Islã moderado de desmenti-lo sem que o Alcorão seja interpretado de maneira mais aberta e abrangente, o que não foi feito até hoje porque o Alcorão, ao contrário da Bíblia para os cristãos, não se presta a exegeses, pois encerra diretamente a palavra de Deus. Por isso, ele é, no seu conteúdo, materialmente sagrado para um muçulmano. A Bíblia já não alcança tal dimensão sacral, porque ela não é materialmente a palavra de Deus, apenas um testemunho desta. Aliás, dentro da tradição do Islã, o Alcorão só deve ser lido na sua língua original, o árabe, e não deveria em princípio ser traduzido, precisamente por conter, de modo material, a palavra de Deus. Mesmo sabendo ser praticamente nula a liberdade dos estudiosos em relação ao texto, um dos mais notáveis intelectuais muçulmanos radicados na Europa, hoje, Mohamed Arkoun, professor da Sorbonne, bem que gostaria de desenvolver uma hermenêutica do Alcorão, mas verifica as dificuldades para uma tal empresa nas circunstâncias que cercam o Islã no momento.

 

Estado – Em que os movimentos islâmicos radicais nos países muçulmanos ou não se distinguem entre si?

Rollet – O movimento inspirado por Al-Banna, Qutb e Al-Mawdudi, é predominante na quase totalidade do mundo muçulmano. De menos violento e intolerante nos países muçulmanos da Ásia e da África, tal movimento radicalizou agora suas posições, incendiando igrejas cristãs e perseguindo os seguidores destas na Indonésia, Cingapura e Sudão, por exemplo. Há um segundo movimento, mais antigo, dito fundamentalista wahabita, criado no século 18 pelo reformador purista saudita Abdul Wahab. De modo geral, o wahabismo se revela mais rigoroso ainda do que o islamismo radical de Al-Mawdudi. Para evitar qualquer desvio ou desequilíbrio na relação indissolúvel da política com a religião, o “wahabismo” impôs a volta aos rigores da sharia (lei sagrada). É por isso que – sem falar da natureza radical dos castigos impostos regularmente aos infiéis e ímpios em praça pública – o culto cristão não pode ser exercido na Arábia Saudita. Não se autoriza ali a construção de templos cristãos. Durante a Guerra do Golfo, como os sauditas não concedem vistos diplomáticos a membros de outras confissões religiosas, os capelães americanos entravam no País como se fossem enfermeiros… Agora, o dado estranho é que os sauditas não se apresentam perante o mundo com sua verdadeira identidade de fundamentalistas radicais. Daí, as ambigüidades, as zonas de sombra que cercam o fenômeno Bin Laden.

 

Estado – Como assim?

Rollet – O fato de Bin Laden ter sido destituído da nacionalidade saudita não impediu que de sua rede financeira participassem bancos e instituições sauditas, conforme as revelações da imprensa. Riad o renegou, mas não deixou de financiá-lo, dentro do espírito fundamentalista que forma o exercício do poder político no País. Entretanto, neste momento crucial, em que se jogam de modo imperativo as cartas da geopolítica do mundo, a Árabia Saudita, como o Pasquistão, se alinhou oficialmente às posições dos EUA para não ser politicamente incomodada.

 

Estado – O que diferencia o islamismo radical do fundamentalismo wahabita?

Rollet – Do ponto de vista técnico das ciências políticas, a diferença está em que o islamismo radical se propõe, desde seu advento no século passado, a promover a união indissolúvel da religião com a política, enquanto o fundamentalismo wahabita foi criado dois séculos antes, na Arábia Saudita, para reforçar a prática rigorosa, ao pé da letra, do Islã e a aplicação não menos estrita da sharia (lei sagrada). Abdul Wahab, seu criador, falava então de retorno ao “Islã fundamental”. Para tanto, os wahabitas não precisaram empreender uma ação política, visto a força, a hegemonia que exerciam no reino saudita.

Hoje, todavia, estamos assistindo no mundo muçulmano à convergência e à aliança tácita entre o islamismo radical e o fundamentalismo wahabita. A ilustração disso é dada pela evolução dos talebans, que, originalmente fundamentalistas wahabitas, se tornaram também islâmicos pela ação política, na acepção legítima do termo.

 

Estado – Quais foram as razões determinantes dessa convergência ou aproximação dos dois movimentos?

Rollet – Entre os anos 60 e 80, para aprofundarem a união ou fusão da política com a religião, os islâmicos desencadearam vasta mobilização de caráter político nos países muçulmanos, em particular do Oriente Médio, sob a alegação de que estes não eram suficientemente combativos em relação àquele objetivo. Eles consideravam tais países demasiado moles, conciliantes nas suas relações com o Ocidente, e se referiam mais especificamente ao caso da Arábia Saudita.

Na prática, o resultado dessa ação dos islâmicos visando a enquadrar os “países muçulmanos tentados pelo Ocidente” pode ser avaliado – apesar de todas as ambigüidades e zonas de sombra que envolvem os fatos, os testemunhos – pela caução moral e o apoio financeiro indireto dado pela Arábia Saudita ao Taleban. Pode ser calculado de modo mais largo pelo que iria ser revelado depois dos atentados nos EUA, ou seja, a participação direta e indireta de países do Golfo e sobretudo da Arábia Saudita por meio de investimentos, bancos e de instituições diversas, inclusive caritativas, no sistema financeiro de Bin Laden.

 

Estado – O Choque de Civilizações, fundado nas incompatibilidades entre as civilizações islâmica e ocidental, tal como o americano Samuel Huntington analisa em seu livro, lhe parece o quê?

Rollet – É evidente que há um choque frontal entre as duas culturas – uma secularizada e democrática, a do Ocidente, e a outra, não secularizada, não democrática, a do mundo muçulmano. Pelo simples fato de os jovens vestirem jeans e beberem coca-cola não se pode dizer que eles sejam ocidentalizados.

É uma questão de cultura no sentido apreendido por Tocqueville, ou seja, que compreende tanto os sentimentos, as emoções quanto os costumes. Para que o choque não se efetive materialmente será preciso que os muçulmanos moderados, majoritários numa população de mais de 1 bilhão de pessoas, proclamem, de saída, que o islamismo radical não traduz o Islã mas o trai.

Depois, será preciso que os muçulmanos incorporem o pluralismo religioso e político e aceitem que, em democracia, a religião não faz as leis da sociedade.

 

Estado – Afinal, não vai aparecer ninguém entre os dignitários muçulmanos moderados para dizer ao menos que Bin Laden e seus seguidores estão confundindo o Islã com islamismo radical?

Rollet – Não será fácil aparecer. Sem dúvida, o islamismo é evidentemente uma visão radical do Islã. Mas pode-se perguntar: esta visão é falsa? Não traduz também o que o Islã pode realmente ser? A questão me remete à análise luminosa do regime soviético feita por Raymond Aron em seu livro Democracia e Totalitarismo e baseada no conceito de Max Weber sobre a casualidade limitada nas ciências sociais. Assim, Aron escrevia que Stalin era o paroxismo pessoal do totalitarismo tornado possível por Lenin. Do mesmo modo, eu acrescentaria, que o islamismo converteu-se em realidade graças à existência do Islã.

 

* Napoleão Sabóian, jornalista brasileiro, correspondente de O Estado de São Paulo na França..

This entry was posted in World. Bookmark the permalink.

2 Responses to Origem do Islã já traz o germe do radicalismo

  1. Pingback: Os sonhos das arábias de Obama « World’s Observatory

  2. Pingback: A violência política da Bíblia e do Alcorão | World’s Observatory

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s