Dora Schindel ajudou vítimas do nazismo a fugir para o Brasil


Por Geraldo Hoffmann *

Dora Schindel ajudou a levar para Juiz de Fora 48 pessoas perseguidas pelo regime nazista. Aos 92 anos, a co-fundadora da Sociedade Brasil-Alemanha ainda trabalha pelo país que – segundo afirma – a salvou.

Quem visita Dora Schindel, no bairro Dottendorf, em Bonn, tem um encontro marcado com a história extra-oficial das relações teuto-brasileiras. A co-fundadora da Sociedade Brasil-Alemanha (DBG) é uma espécie de memória viva de contatos à margem do tapete vermelho entre os dois países.

Isso já começa pela sua biografia. Nascida em 16 de novembro de 1915 em Munique, dona Dorli – como é conhecida na DBG – emigrou duas vezes da Alemanha para escapar da perseguição nazista aos judeus.

Na primeira vez, em 1938, foi para Zurique (Suíça), onde estudou Ciências Químicas e Matemática, ao mesmo tempo em que foi aluna ouvinte de cursos de Arte e Literatura.

Durante um passeio a Salzburgo, na Áustria, conheceu seu futuro parceiro, o professor Hermann Görgen, com quem organizaria, nos anos de 1940-1941, a fuga de 48 perseguidos do regime nazista para o Brasil.

“A lista de Schindel”

O mapa do Brasil em azulejos na entrada da casa revela afeição pelo país. Estima-se que de 1933 a 1942 entre 16 mil e 19 mil refugiados de língua alemã tenham emigrado para o Brasil. Apesar da rigorosa lei de imigração e da legislação anti-semita do governo de Getúlio Vargas, também muitos judeus conseguiram entrar no país usando passaportes falsos.

No “grupo Görgen” ou na “lista de [Dora] Schindel” havia judeus, mas também integrantes “arianos” da resistência política e religiosa da Alemanha (entre eles, o ex-governador do Sarre, Johannes Hoffmann), da Áustria “anexada” e da República Tcheca.

A fuga do grupo através da Suíça, segundo explica dona Dorli, foi viabilizada com a ajuda do Comitê de Ajuda aos Intelectuais Refugiados e do enviado brasileiro junto à Liga das Nações, César Weguelin de Vieira, em Genebra.

Para obter os vistos para os perseguidos, Görgen e Schindel se comprometeram a construir uma indústria metalúrgica em Juiz de Fora (MG) – que se chamaria Indústrias Técnicas Ltda, onde dona Dorli assumiria a administração.

“Estávamos todos felizes por termos escapado com vida e gratos ao Brasil, que nos acolheu e nos deu permissão para trabalhar e a possibilidade de continuarmos vivendo”, conta.

Saudades do Brasil grande

Bildunterschrift: Dora Schindel tem uma pequena biblioteca particular sobre o Brasil. Em 1955, ela voltou à Suíça e, dois anos mais tarde, se transferiu para Bonn, onde Görgen já integrava o Parlamento alemão como deputado da União Democrata Cristã (CDU). “Senti saudades da imensidão do Brasil e da alegria de seu povo”, lembra.

Em 1960, Görgen e Schindel fundaram a Sociedade Brasil-Alemanha, em cujo escritório dona Dorli trabalha até hoje, voluntariamente, como integrante honorária da diretoria.

“Criamos a DBG por dois motivos: primeiro, em gratidão pelo fato de o Brasil ter salvado nossas vidas; segundo, para acabar com preconceitos que existem nos dois países. No Brasil, se pensa que todos os alemães são nazistas; na Alemanha, se pensa que o Brasil é só samba e favela e que sequer tem uma cultura própria”, relata.

Coração 50% brasileiro

Hermann Görgen faleceu em 1994. Em sua biografia, ele conta que o Brasil poderia ter ajudado a salvar mais judeus, se diplomatas brasileiros em Hamburgo e Berlim não tivessem “frustrado” em grande parte um acordo assinado entre o Vaticano e o governo Vargas, em 1939, que previa a concessão de 3 mil vistos de permanência no Brasil para “não-arianos católicos”. Dos 3 mil vistos só cerca de mil foram expedidos, relata.

Isso, porém, não é motivo para dona Dorli, filha de judeus muniquenses, guardar qualquer rancor em relação ao Brasil. Seu conselho para os jovens é: “Manter-se vigilante, abrir a boca e diferenciar entre o povo e os seus governantes”.

Dona Dorli afirma que aprendeu com os brasileiros a “encarar a vida positivamente. Provavelmente, eu seria muito triste, se não tivesse um contato tão intenso com os brasileiros. Meu coração pertence pelo menos 50% ao Brasil. Em toda a minha vida vou permanecer grata a esse país que é um presente de Deus. Deus é brasileiro, sim”.

* Geraldo Hoffmann, jornalista, tradutor e webmaster brasileiro que vive na Alemanha e desde 1992, trabalha como free lancer para a Deutscha Walle desde 1993 e é editor-chefe da revista Tópicos – publicação da Sociedade Brasil-Alemanha.

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3 Responses to Dora Schindel ajudou vítimas do nazismo a fugir para o Brasil

  1. Exemplo como a de Dora Schindel devem ser seguidos. Devemos estar sempre alertas contra as perseguições raciais, religiosas, enfim, contra todo tipo de perseguição.

  2. Lorilei Maria Schindel Costa says:

    gostaria se fosse possivel ser auxiliada para saber por onde começo a dar entrada em meus documentos para adquisir a dupla cidadania´, meu vô veio para o Brasil fugido da Alemanhã e falou na imigração que era russo mudando sua cidadania.

  3. Lorilei Maria Schindel Costa says:

    Estou querendo localizar de onde meu avô partio pois estou interesada em tirar meu documentos se for possivel gostaria de saber mais detalhes, sabendo que tb es da familia Schindel. obrigada.

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