Israel e a Bomba


Por Avner Cohen *

Faz 40 anos que Israel se tornou a sexta nação do planeta a possuir armas nucleares. No momento em que o Estado judeu enfrentava a pior crise da sua história – a concentração de tropas egípcias na Península do Sinai e a possibilidade de um iminente ataque aéreo de surpresa -, cientistas e técnicos israelenses “brincaram com fogo” ao montarem o primeiro artefato nuclear do país. Esses esforços apressados tinham como objetivo criar dispositivos explosivos nucleares improvisados, e não armamentos de verdade. Tais artefatos não poderiam ser utilizados, ou sequer lançados, de uma maneira genuinamente militar. Eram dispositivos toscos, volumosos, com formato de aranha, que lembravam um pouco a primeira engenhoca atômica detonada pelos Estados Unidos (o chamado “Teste Trinity”) em Alamogordo, no Estado do Novo México, em 16 de julho de 1945. A pressa em fabricar um artefato atômico não surgiu como resposta a nenhum pedido concreto da alta liderança política de Israel – embora haja pouca dúvida de que o primeiro-ministro Levi Eshkol aprovou aquelas medidas emergenciais -, e certamente não tinha nenhuma conexão com qualquer necessidade militar especial.

A iniciativa veio de cima, mas não do topo. Em um período no qual Israel improvisava cemitérios temporários para milhares de pessoas, era impensável que os líderes do projeto nuclear seguissem os trâmites normais. Se houvesse a possibilidade de a capacidade atômica se tornar disponível, ela teria que, de fato, se tornar disponível. Para os poucos indivíduos envolvidos nessa iniciativa apressada e extremamente secreta, aquele foi um momento excepcionalmente emotivo. Israel cruzou a fronteira nuclear em meio a uma crise que evocava para os israelenses um senso coletivo de cerco e de solidão associado às memórias do Holocausto. A atividade significou um compromisso solene do tipo “Nunca Mais”. Mas houve duas diferenças básicas entre aquilo que os Estados Unidos fizeram em 1945 e o que Israel fez em 1967. A primeira: os Estados Unidos testaram o seu primeiro artefato atômico. Israel jamais realizou tal teste. A segunda, e a mais importante: subseqüentemente os Estados Unidos usaram as suas primeiras armas atômicas em estado de fúria. Israel nunca fez tal coisa. Em 1967 Israel conquistou uma grande vitória convencional contra três exércitos em seis dias. Assim que a guerra terminou, não havia obviamente necessidade de artefatos atômicos.

Quando uma autoridade de alto escalão sugeriu que talvez aquele fosse o momento de Israel testar o dispositivo, a sua sugestão foi categoricamente rejeitada. Israel manteve a sua palavra de que não seria o primeiro país a introduzir armas nucleares na região. A narrativa israelense da guerra de 1967 jamais sequer mencionou o episódio nuclear secreto, como se este jamais tivesse ocorrido. Esse foi o legado nuclear da guerra de 1967. Israel foi sempre uma espécie diferente de agente de proliferação nuclear – um agente relutante. Desde o início, Israel fez progressos rápidos no campo da tecnologia, mas permaneceu ambivalente quanto ao aspecto político. Os líderes militares israelenses da década de 1960, incluindo o chefe do Estado Maior, Yitzhak Rabin, não viram nenhuma utilidade militar nítida nas armas nucleares. E tampouco acreditaram que seria possível que algum dia Israel necessitasse de tais armamentos, pelo menos enquanto o conflito árabe-israelense permanecesse convencional. O poderio nuclear do país foi tratado como uma apólice nacional de seguro secreta. Existem indicações de que antes da guerra de 1967, Eshkol e outros avaliaram a possibilidade de a opção nuclear de Israel servir como moeda de troca para a obtenção da paz. Mas essas avaliações não foram muito longe, já que desde o início elas foram ambivalentes. Mesmo após a vitória de 1967, Eshkol não abandonou a sua cautelosa política nuclear.

Até o final dos seus dias ele relutou em rejeitar diretamente o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Eshkol morreu no cargo no início de 1969 sem ter tomado uma decisão final quanto ao tratado de não-proliferação. Certas decisões necessárias e funestas, incluindo a de não assinar o tratado, tiveram que ser tomadas pela sucessora de Eshkol, Golda Meir. Mas a decisão de Meir só ressaltou e fortaleceu a natureza proliferativa relutante de Israel. Atualmente Israel se distingue de forma única entre todos os Estados que possuem capacidade militar atômica pelo seu legado de extrema cautela nuclear, mantendo as questões nucleares em estado de discrição, quase invisíveis e desvinculadas da política. Um motivo a mais pelo qual a ascensão nuclear do Irã é tão perigosa é o fato de ela ameaçar modificar as sutis regras não oficiais no Oriente Médio, regras estas embasadas no legado nuclear da guerra de 1967. Esse legado constitui-se em um lembrete do motivo pelo qual se deve prevenir um Irã nuclear. Caso o Irã adquira capacidade atômica, o estilo nuclear relutante de Israel será, sem dúvida, substituído por uma grande corrida de armas nucleares em todo o Oriente Médio.

*Avner Cohen, pesquisador da Universidade de Maryland e autor do livro “Israel and the Bomb” (“Israel e a Bomba”)

Nota

Artigo originalmente publicado pelo Jornal Heraldo Tribune, em 01/06/07

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