Complexo de inferioridade


Por Artur Salles Lisboa de Oliveira *

O fato é que, grande parte da população brasileira, já se acostumou com os problemas nacionais a ponto não de esquecê-los – mesmo porque os percebemos diariamente nas ruas das grandes cidades -, mas de repousar nossas consciências em uma percepção extremamente equivocada: a de que a responsabilidade é inteiramente da classe política nacional. Com a evidente desmoralização dos políticos brasileiros, a sociedade está se utilizando, cada vez mais, de falácias como “todo político é ladrão” para justificar sua própria acomodação no processo de deterioração das instituições democráticas e, por conseguinte, das relações sociais. Vale destacar as culturas de massa exploradas no Brasil, a exemplo do futebol, carnaval e enlatados como o Big Brother Brasil, que certamente não têm culpabilidade nos gargalos brasileiros, mas com certeza exercem um inquestionável ‘desserviço’ no que concerne à atenção da população em relação aos seus próprios problemas. Ou é possível invalidar a importância de um programa como o BBB, que estimula milhões de pessoas a votarem na manutenção ou saída dos participantes da casa? Se parte desse afã tupiniquim fosse transferido para temas mais relevantes, certamente alguma coisa mudaria nesse País. Mas, todos têm o direito à diversão.

Existe hoje, além do pseudo-patriotismo de quatro em quatro anos, um certo sentimento regional de “Viva a América Latina” devido aos discursos populistas que tomaram o Brasil, a Venezuela e a Bolívia, direcionados ao confronto com o Grande Império. Os brasileiros não torcem apenas para que a seleção derrotada de forma humilhante pela França em 2006 vença, mas sobretudo que a crise nos Estados Unidos se acentue e que Hugo Chávez viabilize o seu projeto socialista para que todos sejamos salvos dos tentáculos do Mal. Apesar da amplitude dos valores capitalistas em nosso País e da penetração do american way of life nas camadas mais jovens, há quem defenda hostilidades aos americanos – como se viu na última visita de George W. Bush. A questão é que, uma capa negativa do New York Times sobre a violência no Brasil repercute no Mundo e nos deixa completamente enfurecidos, apesar de todo realismo; enquanto isso, uma capa da Folha de São Paulo no caderno saúde sobre a obesidade dos jovens americanos nem sequer ultrapassam as fronteiras tupiniquins. O brasileiro não compreende que, a solução de nossos problemas não pode ser justificada com a existência de paralelos em outros lugares, sob pena que a nossa preguiça intelectual impeça o desenvolvimento do gigante adormecido.

O que o senador Marcelo Crivella levou à tribuna da Casa Revisora foi um exemplo isolado de superação; algo que não retrata a realidade educacional do  Brasil, caracterizada por total despreparo dos estudantes posicionados em colocações secundários em rankings internacionais. Isso reflete a fragilidade do ego de um povo, que por ter tão pouco a celebrar se agarra com “unhas e dentes” nas poucas coisas que ainda trazem certa alegria, a exemplo do futebol e do carnaval – nada mais que anestésicos que aliviam a dor de uma população sofrida que se contenta com os farelos lançados ao vento que guia, de forma incerta, o destino de um gigante adormecido, que ainda por gerações e gerações será apenas uma promessa para o futuro. Não por falta de recursos naturais, mas simplesmente porque seu povo prefere vê-lo dessa forma a abdicar de sua diversão para pensar as grandes questões nacionais. Os problemas tupiniquins são, simplesmente, a falta de interesse em mudar, quando o desconfortável ainda oferece algum conforto e a mudança escancara um caminho longo e tortuoso de trabalho.

* Artur Salles Lisboa de Oliveira

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