O idealismo não é para as grandes potências


Claudio Téllez *

No dia 08 de janeiro de 1918, Thomas Woodrow Wilson, democrata, eleito presidente dos Estados Unidos da América em 1912 e reeleito em 1916 com uma retórica pacifista, apresentou ao congresso seus famosos Quatorze Pontos, nos quais delineou os princípios que deveriam orientar as relações internacionais para que todas as nações livres pudessem usufruir das vantagens da cooperação e da harmonização de interesses. Dentre esses pontos, podemos destacar a proposta de criação de uma sociedade de nações destinada a garantir a segurança da coletividade internacional, a independência política e a integridade territorial de todos os Estados.

Os Quatorze Pontos de Wilson, erigidos a partir dos valores da liberdade, da democracia, da auto-determinação dos povos e de um novo conceito de segurança – a segurança coletiva – representaram uma tentativa de institucionalização da paz para que, dentro desse marco institucional, as atividades comerciais e financeiras pudessem florescer livres do fantasma da guerra e os princípios fundamentais do liberalismo pudessem ser transplantados do interior das sociedades para as relações interestatais.

Apesar da Liga das Nações ter resultado do internacionalismo idealista do presidente Wilson, a própria sociedade norte-americana, representada pelo Senado, rejeitou a idéia de fazer parte de uma organização internacional destinada à institucionalização da paz e à resolução dos conflitos internacionais através da mediação. Devido à oposição do Senado dos Estados Unidos, o país não ingressou na Liga das Nações.

Já no final do século XIX os Estados Unidos eram a maior potência no âmbito regional das Américas. A sua intervenção militar na Europa foi decisiva para o resultado da Primeira Guerra Mundial e o país emergiu desse conflito com o status de maior credor líquido do mundo (posição ocupada, atualmente, pelo Japão). A nova situação dos Estados Unidos, no início do mundo moderno, significava, de imediato, que o país encontrava-se diante de novas responsabilidades para com o sistema internacional.

A partir do momento em que um Estado se torna uma grande potência, passa a ser um dos principais ordenadores do sistema internacional. Os Estados Unidos, no momento histórico do pós-Primeira Guerra Mundial, afirmavam-se perante o mundo como uma nova grande potência e não podiam, portanto, sacrificar parte de sua soberania abraçando um projeto idealista como a Liga das Nações. O idealismo não é para as grandes potências. Contudo, se os Estados Unidos não levaram adiante os ímpetos idealistas do presidente Wilson, tampouco assumiram plenamente a sua condição de grande potência e recusaram-se a tomar as rédeas do mundo.

Algumas lições aprendidas durante as turbulentas décadas do período compreendido entre as duas guerras mundiais conduziram a uma nova efervescência idealista no imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Desta vez, os Estados Unidos tomaram a dianteira na reconstrução da ordem mundial. A Liga das Nações foi oficialmente dissolvida e a Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada para facilitar a cooperação em temas de interesse multilateral e promover a manutenção da paz e da segurança internacional. Com o início das operações, logo após a Segunda Guerra Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD), instituições do sistema de Bretton Woods para o gerenciamento econômico internacional, os Estados Unidos assumiram também o papel de estabilizador hegemônico da economia mundial (para usar a definição de Charles P. Kindleberger) através da instituição do padrão-ouro dólar.

A ONU, entretanto, não foi um projeto totalmente idealista. Devemos destacar uma significativa diferença estrutural entre a Liga das Nações e o sistema das Nações Unidas no tema da preservação da segurança internacional. Na Liga das Nações, a agressão foi considerada ilegal e os Estados concordavam com a arbitragem para a solução de seus conflitos, comprometendo-se a não recorrerem à guerra antes de três meses após o fracasso da arbitragem. Na ONU, a configuração do Conselho de Segurança não deixa de envolver o conceito de segurança coletiva que já estava presente nas propostas de Wilson, porém o Conselho também adota, através de seus membros permanentes, um modelo de equilíbrio de poder semelhante ao que funcionava no Concerto Europeu (1815 – 1914).

Após a Segunda Guerra Mundial, portanto, as grandes potências participaram de um empreendimento de caráter idealista, porém não abriram mão de uma orientação realista nas questões mais sensíveis da segurança internacional. Esse tempero realista, na configuração de uma instituição imaginada para representar a concretização de diversos sonhos idealistas, revela que as grandes potências não podem entregar-se ingenuamente à construção de utopias, fechando os olhos aos elementos que permeiam as relações e interações dentro do sistema internacional tal como percebidos pelo menos desde os tempos de Tucídides e a Guerra do Peloponeso, no século V a.C.

É claro que as relações comerciais e financeiras, e os intercâmbios científicos e culturais, visíveis na superfície das relações internacionais, podem realizar-se dentro de um marco institucional desenhado para promover o desenvolvimento multilateral e a cooperação. Intercâmbios, afinal de contas, são motivados pela possibilidade de ganhos mútuos e não seguem uma lógica de soma zero. Porém os interesses mais fundamentais das unidades políticas no sistema internacional, relacionados a questões como a segurança, a integridade territorial e a preservação da soberania e da independência, definem-se essencialmente em termos de poder, onde a desconfiança fala mais alto do que o desejo de cooperação e a lógica é de soma zero.

Todos os Estados lidam cotidianamente com interesses de diversas naturezas, porém as grandes potências detêm capacidades econômicas e militares que podem alterar a conformação do sistema internacional como um todo. Motivadas primordialmente pela sua necessidade de sobrevivência e como não podem ter certeza acerca das intenções dos outros Estados, suas ações no sistema internacional oscilam entre o impulso revisionista, que as motiva à luta pela posição hegemônica (benevolente ou não) e a necessidade de preservar a estabilidade do sistema.

Enquanto as pequenas e médias potências podem concentrar seus esforços nas práticas cooperativas, na busca da harmonia de interesses e no diálogo multilateral, as grandes potências devem manter-se na lógica da competição pelo poder e não se podem dar ao luxo de dedicar-se, em primeiro lugar, à construção de uma ordem internacional pacífica e cooperativa, por mais que a paz seja um valor ou objetivo universal. As ações das grandes potências devem partir do cálculo racional das conseqüências e não de princípios morais (ainda que eles sejam úteis para trabalhar com a opinião pública). A primazia da ética sobre a política não é para as grandes potências.

No cerne do idealismo, está a crença na capacidade da racionalidade humana para superar a armadilha do dilema da segurança. No cerne do realismo, temos a constante percepção da ameaça e a necessidade de lutar pela sobrevivência. Iniciativas idealistas possuem caráter prescritivo, priorizando a transformação ou adequação do real de acordo com princípios que têm fundamentação última axiológica e procurando transportar para as relações interestatais os princípios morais e os valores que inspiram e orientam as ações humanas no interior das sociedades. Já o realista pauta-se pelo referencial último, dado pela realidade, para identificar as linhas de ação mais adequadas para a preservação da integridade territorial e da soberania do Estado, o que em última instância garantirá a continuidade das interações sociais em seu interior.

Para as próximas décadas do século XXI, prevê-se a ascensão da Índia e da China ao status de grandes potências mundiais (nos âmbitos econômico e militar). Por mais que a sua força propulsora tenha sido principalmente a integração econômica mundial, acelerada a partir da intensificação do processo de globalização econômica desde o fim do sistema de Bretton Woods, elas terão que assumir a sua nova identidade e optar entre a tentativa de revisão da atual ordem internacional para a imposição de seus interesses particulares, ou a manutenção do equilíbrio internacional e do estado de coisas a partir do qual fortaleceram suas potencialidades. Quanto aos Estados Unidos, terão que lidar com uma realidade multipolar na qual a existência de hegemons potenciais será uma constante ameaça aos seus próprios interesses e à sua sobrevivência.

Quaisquer que sejam as escolhas das grandes potências do século XXI, o idealismo não será uma opção para elas.

* Claudio Téllez, Analista Internacional, Matemático Aplicado, atualmente, cursa o MBA em Gestão de Comércio Exterior e Negócios Internacionais e desempenha as funções de Vice-Presidente de Formação e Projetos no Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista – CIEEP

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