Para entender Ahmadinejad, se tal é possível


Por profa. dra. Sonia Bloomfield*

Há cerca de três anos atrás tive um aluno sudanês, islâmico, que apresentou um trabalho cheio de referências negativas a Jerusalém sob o `controle dos judeus, sobre a tirania israelense`, etc. Esperei a aula terminar e pedi para conversar com ele. Após um pouco de conversa perguntei: `Onde você vai viver após terminar seus estudos?` , e a resposta foi `Em Cartum, no Sudão`. A questão seguinte, a que me levou ao assunto, foi: `Qual a diferença concreta que faz para você se Jerusalém for capital de Israel ou da Palestina`. Ele me olhou, pensou um pouco, e respondeu: `Nenhuma`.

Tal qual a pergunta que fiz ao aluno sudanês, onde entra Israel na vida de Ahmadinejad? Ele não pode ter nenhuma queixa concreta contra Israel, que nunca atacou o Irã e sequer faz fronteira com aquele país. No entanto, ele nega o Holocausto e é obcecado pela destruição de Israel, seja por meios nucleares ou através de uma `mudança` para o Alasca, Canadá, ou algum lugar qualquer na Europa. Para ele Israel é uma patologia social, `um insulto à dignidade humana`, que viola `a santidade dos profetas e insulta a dignidade humana e a democracia`. É tragicômico ouvir este homem, que é chefe de um regime extremamente repressivo, anti-democrático, um dos maiores patrocinadores do terrorismo moderno, falar em dignidade humana e democracia. O que será que ele entende por democracia e dignidade humana?

A resposta está tanto em sua visão religiosa, apocalíptica, da seita ultra-radical Hojjatieh, que busca trazer o fim do mundo através da destruição do que já existe, quanto em problemas sócio-econômicos de seu país. No que tange à visão religiosa, em primeiro lugar, na ideologia islâmica radical o mundo divide-se em Dar al-Islam, a Casa do Islã, a Casa da Paz, e o Dar al-Harb, a Casa da Guerra, o mundo não islâmico. E no final dos tempos a Dar al-Islam deve se sobrepor, vencer, destruir a Dar al-Harb. Este é o objetivo final, tornar o mundo a Casa do Islã, seja pela conversão ou pela eliminação daqueles que se recusam a unir-se ao islã.

Em segundo lugar, seu texto religioso básico, o Corão, chama os judeus de `porcos e macacos` (ainda que alguns autores islâmicos digam ser apenas uma alegoria, etc., esta é a forma pela qual os judeus são rotineiramente mencionados pelos fundamentalistas islâmicos), e diz que no final dos tempos as pedras e árvores irão gritar: `Islâmico, corra, atrás de mim se esconde um judeu, venha matá-lo` pois não poderá haver nenhum judeu vivo em um tempo e espaço de pureza.

A visão apocalíptica, milenarista, de Ahmadinejad é bem clara, como se pode deduzir de um discurso proferido para autoridades religiosas iranianas, no dia 16 de novembro de 2006, no qual ele afirmou que sua missão como governante era a de `avimentar o caminho para o glorioso reaparecimento do imã Mahdi`. Este imã, o último descendente masculino em linha direta de Ali, genro de Mohammed, pelo qual esperam os xiitas, desapareceu quando era criança, no ano 941 E.C., e acredita-se que esteja vivo e um dia retornará, mas antes de sua volta o mundo deverá passar por terríveis guerras e muito derramamento de sangue. Ele reinará por toda a Terra durante sete anos, preparando-a para o julgamento final e o fim do mundo. Assim, quando foi prefeito de Teerã, Ahmadinejad preparou uma grande avenida, para que o imã pudesse entrar triunfalmente na cidade, e recentemente o `Christan Science Monitor` afirmou que ele disponibilizou 17 milhões de dólares no orçamento da cidade para a construção da mesquita de Jamkaran, supostamente construída sob as ordens do imã.

Ahmadinejad, líder xiita, também compete pelo domínio do islã com os sunitas, em especial os da Arábia Saudita. Se sua crença fosse restrita apenas a tais atividades arquitetônicas isto seria uma questão interna do Irã, mas sua política nuclear nela se baseia, como ele disse claramente: `O Irã deve se tornar uma potência poderosa, avançada, e um modelo para a sociedade islâmica… os iranianos devem se afastar do pensamento ocidental…`. Ele não só acredita no retorno do imã, mas acredita ser sua missão criar as condições para trazê-lo de volta o mais rapidamente possível, não escondendo sua intenção de `varrer Israel do mapa`.

Em termos religiosos ele acredita ser o iluminado destinado a trazer o imã Mahdi. Isto é claro no teor de suas cartas conclamando os americanos a converterem-se ao islã, e também em seu discurso na Assembléia Geral da ONU em 2005, onde concluiu sua fala orando para o retorno do 12o imã enquanto, em suas próprias palavras, algumas pessoas viram um halo divino azul em volta de sua pessoa que durou enquanto ele discursava.

Em termos mais prosaicos, sabe-se que a situação econômica e social do Irã está bastante conturbada, com a inflação e o desemprego em constante elevação. O governo tem tido confrontos violentos com grupos dissidentes, trabalhadores, e estudantis que protestam contra a falta de liberdade e de condições adequadas de vida, gritando `morte ao ditador` e `presidente fascista`. Neste contexto, ele faz o que todos os ditadores fazem: encontram um bode-expiatório para distrair a população enquanto levam a cabo seus projetos pessoais às expensas de todos.

Resta a todos nós buscar entender este fenômeno do terrorismo moderno e a ele resistir, tal qual fez o governo brasileiro quando criticou oficialmente a negação da existência do Holocausto feita por Ahmadinejad. Compete a todos fazer frente ao projeto ahmadenajiano de impor através do terror e da guerra a Dar al-Islam a todo o mundo, eliminando à aceitação das diferenças pessoais, sociais, e culturais que a humanidade levou tantos séculos para construir.

* Sonia Bloomfield , PhD em Antropologia Cultural e membro da B´nai B´rith do Brasil

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