A esquerda anti-sionista e o mito da ocupação


Franklin Goldgrub*

A mais recente versão do mito da ocupação, ao contrário da primeira, elaborada pelos regimes monárquicos do Oriente Médio e pelo clero islâmico, desenvolveu-se a partir da criação da Organização de Libertação da Palestina, fundada em 1964 sob os auspícios do Egito e da Liga Árabe com base no modelo estabelecido pelo movimento terceiro-mundista surgido na década de 60. A adesão da esquerda à nova versão foi paulatina e tomou impulso quando a crise da União Soviética entrou em sua fase mais aguda, culminando com a dissolução do regime comunista em 1991. Da década de 80 em diante, e principalmente a partir dos anos 90, o “problema palestino” transformou-se na mais importante causa internacional para o vasto espectro de organizações em que a concepção ideológica de inspiração marxista havia-se dividido.

A instalação da OLP na margem ocidental e em Gaza (1994), conseqüente aos acordos de Oslo (1993) e, antes disso, o desencadeamento da primeira intifada (1987), apresentada pela mídia internacional como a luta desigual entre um Davi armado com pedras e o Golias israelense, deu início ao processo que alcança hoje o nível do paroxismo. O novo Santo Graal da esquerda magnetizou as atenções, com forte presença na mídia, nas associações profissionais (sindicatos e conselhos), na rede de organizações não governamentais (pacifistas, de direitos humanos, feministas, anti-racistas), nas universidades, em partidos políticos, fóruns, simpósios, reuniões de escritores e onde quer que o anti-americanismo suscite a participação entusiasta de uma platéia ansiosa por manifestar a sua profissão de fé progressista. Ao lado do liberal “bem pensante”, alvo da ironia esquerdista nos anos 60, e da figura do “bom burguês”, apareceu um novo personagem, o “politicamente correto”, que reserva parte de seu tempo livre para a indignação com a injustiça. Seletivamente, isto é, desde que não praticada por governos que se auto-proclamam marxistas e “companheiros de viagem”.

A categoria “companheiro de viagem” cai como uma luva para explicar a relação entre a esquerda e o islamismo militante, que preconiza a jihad. A esquerda evita qualquer pronunciamento sobre os 200 mil mortos e os dois milhões de deslocados de Darfur, em que genocídio e limpeza étnica se combinam. A omissão é facilmente explicável. A ditadura sudanesa é islâmica e suas vítimas pertencem a etnias cristãs e animistas. Na medida em que o fundamentalismo islâmico substituiu o comunismo soviético como contrapeso ao poder americano, a esquerda o considera um aliado. Já o cristianismo constitui uma “religião imperialista” e o animismo é politicamente irrelevante. As preocupações humanitárias do campo progressista seguem estritamente uma norma inconfessa: não se aplicam aos que se situam no lado errado do mapa ideológico.

Nas últimas décadas do século XX a esquerda tornou-se a grande caixa de ressonância do anti-sionismo, exercendo um papel similar ao que os partidos políticos de direita haviam tido na difusão da peculiar modalidade de anti-semitismo produzida pelo 3º. Reich. Desse ponto de vista, a esquerda aceita o tratamento discriminatório dado a cristãos e judeus nos países muçulmanos e não raro seus expoentes justificam os atentados terroristas contra civis desarmados como única forma de resistência possível contra a “ocupação” — da margem ocidental, Gaza, Afganistão, Iraque. De maneira geral, a jihad é interpretada enquanto reação contra a secular opressão ocidental, portanto plenamente justificada. Uma espécie de racismo pelo avesso considera os “brancos” — o “primeiro mundo” — digno(s) de toda e qualquer punição.

Mas como no léxico esquimó, o branco tem gradações. Orwell dizia que há os iguais e os mais iguais. Cinqüenta anos depois do Holocausto, Israel passou a ser responsabilizada pelo “sofrimento do povo palestino”, exatamente como os judeus haviam sido acusados pelo “sofrimento do povo alemão”. O dedo acusador é agora apontado pela outra mão.

O nazismo elaborou a sua versão peculiar de anti-semitismo responsabilizando inicialmente os judeus alemães pelas dificuldades germânicas—derrota militar, crise econômica, degeneração moral. Na seqüência, ampliou a tese, atribuindo à raça inferior, equiparada aos ratos [1], os males padecidos pela humanidade. Finalmente, estendeu o conceito de raça inferior aos não arianos. No plano político, capitalismo e comunismo foram regimes especialmente visados pelo nazismo, que os associou eletivamente aos judeus. O conceito de espaço vital (“Lebensraum”) inicialmente reservou a Europa para os arianos, mas os ideólogos da eugenia ampliaram a jurisdição da sua supremacia racial ao restante do planeta.

O fundamentalismo islâmico começou responsabilizando o sionismo pelo sofrimento árabe em geral. Depois de 1964, quando a OLP foi criada, a vítima por excelência de Israel passou a ser o “povo palestino”. Na seqüência, os oradores das mesquitas se comprouveram em chamar os judeus de “porcos e macacos”, atribuindo-lhes os males padecidos pela humanidade. Seguiu-se a proclamação da jihad por parte de milícias criadas, amparadas e financiadas pelos regimes do Oriente Médio: o dever de todo muçulmano é converter os infiéis, matar os renitentes e destruir as outras formas de fé e sociedade — o judaísmo, Israel, o cristianismo (“os cruzados”) e os regimes políticos ocidentais, nos quais a separação entre estado e religião representa um princípio firmemente estabelecido. Oficialmente, as ditaduras do Crescente consideram que o espaço destinado ao Islã é em princípio o Oriente Médio, mas os imãs o estendem ao restante do mundo.

Os ideólogos da supremacia ariana foram obrigados a admitir certas exceções. O 3º. Reich estabeleceu alianças explícitas ou implícitas com representantes de raças menos puras, como o regime fascista de Benito Mussolini, o islamismo (representado pelo Mufti de Jerusalém, Haj Amin El-Husseini, com quem Hitler encontrou-se pessoalmente em 1941) e o Império Japonês (Pacto Anti-Komintern de 1936).

O Irã e a Síria consolidam laços com a Rússia e a China, cujos governos combatem e/ou oprimem minorias muçulmanas, assim como os regimes militares do Egito e da Síria haviam celebrado acordos com a então União Soviética nos anos 50 e 60, sem por isso deixar (até pelo contrário) de proibir qualquer atividade política de oposição, inclusive (e principalmente) de esquerda.

A segunda guerra mundial foi precedida pela invasão da Tchecoslováquia (1938), a pretexto de defender os direitos da minoria alemã da região dos Sudetos. O Estado de Israel foi invadido em 1948 a mando da Liga Árabe (fundada em 1945 no Cairo, sob a inspiração da Grã-Bretanha), a pretexto de proteger os árabes da então Palestina.

Ao contrário dos alemães governados por Hitler, a minoria germânica dos Sudetos gozava de todos os direitos civis garantidos aos demais cidadãos tchecoslovacos. Ao contrário da população dos demais países do Oriente Médio (e dos demais povos muçulmanos, como o iraniano, o paquistanês, o sudanês), os cidadãos árabes de Israel gozam de todos os direitos civis garantidos aos demais cidadãos israelenses, assim como acontecia com os árabes que residiam na região prevista pela Partilha para o estado judeu.

Os governos europeus do período entre guerras, principalmente França e Grã-Bretanha, fizeram vistas grossas ao rearmamento alemão, proibido pelo Tratado de Versalhes, devido ao discurso anti-comunista do partido nacional-socialista. Tendo fracassado nas sucessivas tentativas de depor o governo comunista nos anos seguintes à tomada de poder pelos bolcheviques, o liberalismo nem por isso desistiu de livrar-se da ameaça. Quando chegou a ocasião, entendeu que a máquina de guerra nazista teria motivação e força suficientes para fazê-lo. Nem as evidências de uma perseguição inaudita aos judeus nem a invasão da Tchecoslováquia interferiram na “Realpolitik” das potências ocidentais. O fim justifica os meios.

A esquerda entende que as violações dos direitos humanos, as ameaças de genocídio, o terrorismo, o caráter abertamente reacionário dos regimes do Oriente Médio, o massacre e a limpeza étnica cometidos em Darfur não devem interferir na sua “Realpolitik”, orientada em primeiro lugar para o combate aos interesses americanos, principalmente a globalização. O preço do apoio ao fundamentalismo islâmico, ou seja, a destruição de Israel, torna-se aceitável. É preciso previamente demonizar o sionismo. Que entre Israel e Estados Unidos haja uma aliança ajuda a retratar o estado judeu com tridente, rabo e chifres; que o velho mote anti-semita associando judeu e dinheiro alimente como uma fonte subterrânea o santimonioso reservatório progressista, fortalecendo a sinonímia entre Israel e capitalismo, melhor ainda. O fim justifica os meios.

A similaridade entre o ideário e a práxis do hitlerismo e do jihadismo é tão evidente que se torna difícil imaginar como a imputação de nazismo possa ser dirigida a Israel. Entretanto, o uso desse qualificativo para designar o sionismo é extremamente freqüente por parte da esquerda, que faz coro com organizações terroristas cujas ações e proclamações oficiais não deixam a menor dúvida quanto à intenção de destruir o estado judeu e eliminar 80% de sua população — coincidentemente, a não árabe. O discurso oficial da esquerda em relação ao conflito do Oriente Médio difere do proferido pelo Hamas e pelo Hezbollah apenas por conter um número menor de pontos de exclamação e não fazer referências a Allah.

Nas versões não “maximalistas”, às quais a esquerda moderada (minoritária) declara aderir, a aniquilação dos judeus é substituída pela idéia de um “estado bi-nacional. O modelo mais próximo de um “estado bi-nacional” no Oriente Médio é o Líbano — cuja população, quase cem por cento árabe, divide-se aproximadamente entre muçulmanos e cristãos. A beligerância entre ambos os grupos já causou uma guerra civil cruenta (1975-1990) [2], responsável por cem mil mortes, e se exacerba freqüentemente. A sociedade libanesa é desestabilizada constantemente por assassinatos políticos, escaramuças entre milícias, distúrbios eleitorais, crises econômicas, restrições ao poder governamental e estabelecimento de enclaves autônomos. A referida guerra civil abriu caminho para a intervenção da Síria, que durou 29 anos e ainda permanece de forma velada, embora oficialmente tenha sido encerrada em 2005. Na seqüência da saída das tropas sírias do território libanês, imposta pela ONU, líderes cristãos proeminentes, como o ex-primeiro ministro Rafic Hariri, foram assassinados.

Um dos resultados mais palpáveis da situação do estado bi-confessional do Líbano é a constante emigração dos cidadãos maronitas (cristãos). Trata-se de um processo de limpeza étnica, praticado pelos muçulmanos, pouco comentado pelos mesmos motivos que explicam a invisibilidade midiática do genocídio de Darfur. A expulsão da população cristã do Líbano acontece a um ritmo mais lento do que a maioria dos processos de limpeza étnica em virtude da intervenção esporádica da França e dos Estados Unidos, o que ajuda a compreender porque as preocupações humanitárias da esquerda estão ausentes do cenário libanês — incluindo o silêncio sobre a ocupação síria.

A esquerda, que participou com veemência da condenação ao massacre dos campos de refugiados de Sabra e Chatila (comandado por Elie Hobeika, chefe da milícia cristã falangista, mas atribuído a Sharon), jamais protestou contra o morticínio de civis cristãos cometido por milícias muçulmanas.

Os principais motivos da adesão entusiasta da esquerda ao anti-sionismo podem ser discernidos sem grande dificuldade.

O anti-americanismo ocupa um lugar de destaque. A implosão da União Soviética levou a uma modificação nas concepções professadas pela esquerda, ainda pouco estudada, em que o ódio aos Estados Unidos tomou o lugar da crítica marxista ao capitalismo. O declínio do marxismo teórico e sua destituição do papel orientador que exercia em relação à práxis das organizações de esquerda devem-se em grande medida à falha de uma previsão célebre — segundo a qual a economia de mercado seria atingida por uma crise fatal em virtude de suas contradições internas, a partir do antagonismo entre a maximização da taxa de lucro e a correspondente pauperização da população.

A guerra fria, iniciada imediatamente após a capitulação do exército alemão, e cujo marco inicial foi a discussão sobre o desenho do novo mapa europeu [3], representou simultaneamente um confronto entre ideologias e estados.

A estratégia do Kremlin, a curto prazo, foi impedir que a supremacia militar ocidental do pós-guerra chegasse ao ponto de ocasionar um desequilíbrio na relação de forças. O poderio americano, baseado no notável desenvolvimento econômico em decorrência do esforço bélico e na incolumidade à devastação, intensificou-se com o desenvolvimento da bomba atômica, resultando numa vantagem considerável já no início da chamada corrida armamentista.

Garantida a estabilidade no terreno militar graças ao equilíbrio nuclear, a certeza de que a economia não planificada sucumbiria às suas contradições internas assegurava que o comunismo venceria a competição com o capitalismo.

Assim, a “convivência pacífica”, famosa expressão cunhada por Kruschev em 1959, traduzia o interesse em acomodar os interesses de estado das grandes potências, enquanto a médio ou longo prazo estimava-se que o conflito já tinha um vencedor. No campo da esquerda não havia a menor dúvida de que as férreas leis da economia agiriam de maneira implacável, castigando os desajustes da produção anárquica fundada no princípio da mais valia e da exploração da classe trabalhadora.

O “kruschevismo” substituía o embate direto preconizado por Stalin por uma competição moderada, em que os conflitos não ultrapassariam certos limites e sobretudo o arsenal nuclear permaneceria estritamente controlado. Eventualmente posta à prova em crises como a dos mísseis cubanos (1962), a convivência pacífica constituiu a pedra angular da relação entre as duas grandes potências durante as quatro décadas da guerra fria.

No terreno econômico-ideológico, porém, o embate não cessou. Kruschev aceitou o desafio no campo menos favorável ao regime soviético, competindo na esfera da produtividade e do desenvolvimento científico e tecnológico, associados ao consumo de bens e à corrida espacial. Os novos rumos tomados pelo comunismo soviético acentuaram a crise da esquerda na medida em que questionaram sua escala de valores, culminando com um conflito aberto entre o Kremlin e a China de Mao Tsé Tung. Os partidos comunistas ocidentais dividiram-se segundo as mesmas linhas da cisão ideológica entre as grandes potências comunistas. O maoísmo inspirou diversos grupos dissidentes, de natureza extra-parlamentar, iniciando um movimento que não se deteve antes de gerar concepções mais “puras” e radicais (a linha albanesa, o Khmer Vermelho cambodjano e as guerrilhas nos países do chamado terceiro mundo).

Por essa via, setores da esquerda optaram pela luta armada, adotando posições de vanguarda. Outra tendência seguiu o caminho exatamente oposto. Surgiram assim partidos cujos programas não eram mais tributários de modelos externos, fundamentalmente ideológicos, mas expressavam uma atitude pragmática voltada para a defesa dos interesses imediatos das classes trabalhadoras locais. Esses movimentos, geralmente de origem sindical e associados aos partidos comunistas da linha russa, acataram as regras do jogo político prevalecentes nas democracias liberais.

O fim do regime soviético, após quase oito décadas de vigência, aprofundou as divergências ideológicas da esquerda. Antes disso, tanto os excessos como o esvaziamento da Revolução Cultural desencadeada em 1966, a morte de Mao Tsé Tung em 1976, a ascensão de Deng Xiaoping e o novo rumo tomado pela China na direção da economia de mercado já haviam acrescentado mais elementos à crise ideológica. O regime comunista albanês, última cidadela do modelo stalinista que sobreviveu às guinadas soviética e chinesa, desfez-se após a morte de Enver Hoxha (1985), que permanecera no poder durante quarenta anos. Na seqüência, uma séria crise econômica levou a Albânia a um princípio de guerra civil.

O conflito armado e os confrontos políticos sempre fizeram parte da tradição militante. A entrada do Exército Vermelho em Berlim (1945), a vitória de Mao Tsé-Tung e expulsão de Chiang Kai Chek para Taiwan (1949), o êxito da guerrilha vietnamita no longo conflito do sudeste asiático (1959-1975), a Revolução Cubana (1959) e o fim do Apartheid sul-africano (1991/1994) [4] constituem marcos heróicos na trajetória histórica da esquerda revolucionária. Entretanto, também houve vitórias de Pirro.

Nos países africanos, a eclosão da violência interna —tribal, étnica, religiosa — eclipsou a tomada de poder pelos movimentos nacionalistas de inspiração marxista. As ditaduras militares decorrentes desses conflitos exerceram (exercem) o poder com a crueldade típica do período colonial — sem qualquer tipo de intervenção inibidora por parte da URSS e da China, freqüentes patrocinadores e inspiradores desses regimes.

A cisão ideológica e o conflito de interesses entre os gigantes do mundo socialista, que marcaram a última metade do século, representam apenas parcialmente uma crise muito mais vasta, cujos efeitos permitem compreender o papel assumido pelo conflito do Oriente Médio na concepção “progressista”. As denúncias sobre o horror dos campos de trabalhos forçados stalinistas [5], a crise entre a União Soviética e a República Popular da China, o massacre da Praça Celestial (1989), a agonia do comunismo russo, o progressivo fechamento político e a burocratização da revolução cubana, as guerras civis nos países africanos e asiáticos emancipados do domínio colonial, a derrota dos movimentos revolucionários latino-americanos inspirados em Sierra Maestra, o desmantelamento dos grupos terroristas europeus (as Brigadas Vermelhas italianas, a gang ou facção Baader-Meinhof), a impopularidade crescente dos partidos comunistas da Europa Ocidental, cada vez menos votados, a queda dos regimes da Europa Oriental e da Albânia, a eclosão da guerra civil iugoslava após a morte de Tito e os massacres do Khmer Vermelho no Cambodja também constituem marcos, mas desta vez de uma crise ideológica que impactou fortemente a esquerda, até não deixar pedra sobre pedra das antigas certezas.

Uma grande causa internacional tem tudo para promover a união esfacelada, desviar a atenção de crimes nefastos, afastar a dúvida, recuperar os desgarrados, instilar confiança nas crenças abaladas, angariar adesões, retomar a iniciativa e sobretudo vislumbrar a possibilidade de uma vitória capaz de restaurar a fé no ideal. Desse ponto de vista, o triunfo das forças de Ho Chi Min no Vietnã cumpriu um papel exemplar.

A guerra fria, situando Israel no campo americano e os regimes militares do Oriente Médio na esfera de influência soviética, preparou o terreno. O nome fetiche “Organização de Libertação da Palestina”, adotado segundo os moldes da onomástica terceiro-mundista, destinado a evocar em conjunto o nacionalismo e a revolução, obliterou convenientemente o patrocínio da Liga Árabe (que congrega as ditaduras do Oriente Médio). Mas a fragmentação e a deterioração do ideal socialista, ou a Grande Desilusão, constituiu o fator fundamental que mobilizou ao extremo os corações e as mentes do “campo progressista”.

Da mesma forma que a derrota na primeira guerra mundial instalou uma séria crise na Alemanha, favorecendo o surgimento do patriotismo destinado a recuperar o orgulho nacional, cujo primeiro grande êxito foi a culpabilização, discriminação e eliminação de uma minoria desarmada, a esquerda, fragilizada por sucessivas derrotas e sobretudo pelo dogmatismo que as provocou, elege Israel como alvo propício para representar todos os males do capitalismo — consubstanciados no colonialismo, no racismo e na ocupação. Assim como a vulnerabilidade dos judeus encorajou o sadismo nazista, Israel atrai a belicosidade de uma esquerda que se sente humilhada. Na concepção progressista, o diminuto país representa o aspecto frágil do poder americano, uma ilhota de 7 milhões de pessoas no conturbado oceano muçulmano de 200 milhões de habitantes (apenas no Oriente Médio). A destruição do estado judeu torna-se imprescindível para assegurar uma vitória simbólica capaz de restaurar a fé na vulgata marxista, após o insucesso da economia de estado no embate contra o modelo baseado no mercado.

Embora se trate de situações bem diferentes, é possível detectar uma semelhança entre as decorrências da derrota germânica na primeira guerra mundial (1914-1918) e do fracasso do regime comunista russo (1917-1991). A classe dominante alemã e as lideranças da esquerda depararam-se diante de duas possibilidades: mudança ou manutenção das concepções anteriores (militaristas e ideológicas, respectivamente). Em ambos os casos optou-se pela segunda alternativa.

O autoritarismo recorre à desinformação para evitar mudanças tidas como inaceitáveis. O mesmo processo está acontecendo atualmente em relação ao Oriente Médio, colocando em jogo interesses diversos mas convergentes: o das ditaduras locais (manutenção do status quo), o da esquerda (oposição principista aos EUA) e o do liberalismo, associado a interesses de estado (petróleo e petrodólares) [6]. O anti-sionismo corresponde a uma somatória de fatores pragmáticos e ideológicos.

A morte de Stalin, reativando os conflitos internos do Partido Comunista da União Soviética, bem como a crise econômica no leste europeu, desencadearam um processo que revelou o real estado de coisas nos países socialistas, impactando profundamente o campo progressista. Os crimes praticados pelas ditaduras do proletariado, finalmente expostos graças à destituição dos respectivos governos, os privilégios dos membros do partido (a “Nomenklatura”), cuidadosamente escondidos durante décadas, as decisões no campo das relações internacionais, correspondentes à busca de hegemonia, vieram à tona simultaneamente e produziram um efeito devastador.

Na medida em que a crise ideológica da esquerda aconteceu em concomitância com uma atenuação considerável nas práticas intervencionistas da política externa norte-americana, expressa sobretudo pela mudança de atitude em relação às ditaduras latino-americanas, tradicionalmente respaldadas por Washington, a militância esquerdista viu o mundo virado do avesso. A nova política norte-americana deveu-se menos a uma transformação ideológica do capitalismo do que à eficácia dos novos mecanismos econômicos internacionais, expressos no processo de globalização, em que a interdependência comercial e tecnológica transforma os países em parceiros obrigatórios, deslocando os conflitos para as mesas de negociação.

As acusações feitas a Israel têm o caráter de uma gigantesca projeção. Na medida em que Israel e Estados Unidos são aliados e a comunidade judaica norte-americana, organizada em lobbies, possui uma parcela de influência no Congresso[7], todas as acusações que puderem ser feitas a Israel repercutem automática e diretamente sobre a Casa Branca, responsabilizada pelos “desmandos da entidade sionista”, e vice-versa. A satanização de Israel serve, entre outras, também à finalidade de colocar os Estados Unidos no banco dos réus e cumpre a função suplementar de desviar a atenção das repetidas violações dos direitos humanos praticadas durante a vigência dos regimes comunistas da Europa Oriental e atualmente em Cuba. Ao mesmo tempo, oblitera as gravíssimas práticas repressivas dos regimes do Oriente Médio — inclusive as da Autoridade Palestina.

Para o conjunto organizado de partidos políticos e movimentos da esquerda, o efeito da demonização de Israel não é desprezível. Restaura as certezas perdidas e insufla alguma sobrevida ao ideal moribundo. Desse ponto de vista, o anti-sionismo torna-se imprescindível para todos os que não aceitam examinar os fatores e processos que fizeram do socialismo real uma caricatura cruel do socialismo teórico. Evita-se assim questionar crenças e valores tidos por sagrados.

A equação “sionismo = racismo, genocídio, colonialismo”ressuscita a fé cambaleante, beneficiando desde o militante convicto, para quem a vida só tem sentido na perspectiva da luta sem quartel contra a direita, passando pelo simpatizante moderado, interessado em manter sua visão de mundo em compasso com o humanismo pasteurizado do multiculturalismo anti-ocidental, até o neófito em busca de uma posição ideológica que lhe permita ingressar no grupo dos “politicamente corretos”. Se o socialismo real foi decepcionante do ponto de vista ético, social e econômico, ainda assim seus erros seriam insignificantes e venais quando comparados com os pecados capitais da globalização, encarnada perfeitamente por Israel [8], que será responsabilizada nada menos do que por crimes da magnitude do colonialismo, do racismo e do genocídio.

Explica-se assim a participação da esquerda israelense, afinal um ramo do campo progressista como outro qualquer, na satanização do sionismo, embora os adversários do estado judeu considerem seu testemunho particularmente valioso — mais ou menos como os inquisidores se regozijavam com as confissões dos cristãos novos.

A esquerda, como o capitalismo, não conhece fronteiras e tem a sua própria definição do que constitui o certo e o errado em termos de nacionalismo e internacionalismo. O sionismo peca ainda mais porque o sistema produtivo israelense, “além de tudo”, está integrado à economia internacional e suas pesquisas impulsionam a tecnologia, base do processo de globalização. Longe de pertencer ao terceiro mundo, Israel é um país que prospera numa região tida como subdesenvolvida por culpa do capitalismo (apesar da renda incomensurável proveniente do petróleo). O progresso israelense é tão desconfortável para a esquerda como foi a comparação entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental — afinal, as ditaduras do Oriente Médio também primam pelo controle irrestrito do estado sobre a sociedade, com as devidas conseqüências.

Os regimes militares árabes revelam uma grande semelhança (ideologia à parte), com os regimes comunistas europeus. Afinidades eletivas insuspeitadas operam na atual aliança entre a esquerda e o fundamentalismo islâmico [9]. A esquerda despreza a “classe média” (herdeira da pequena burguesia tão ironizada por Marx), representada no Oriente Médio por Israel, a quem responsabiliza pela miséria da população governada pela autoridade palestina, equiparada ao proletariado explorado e desapropriado. Não entra em conta, nessa concepção, que o montante da ajuda internacional concedida a Arafat e a seu atual sucessor supera qualquer outra forma de financiamento internacional feita a fundo perdido — quer atualmente, quer no passado. As estatísticas comprovam que as doações européias e americanas ultrapassam consideravelmente as efetuadas a países devastados, inclusive a Europa do pós–guerra (plano Marshall).

Assim como a caricatura do judeu elaborada pelo anti-semitismo clássico permitiu ao militante nazista ou neo-nazista e ao racista em geral projetar no outro o que considera inaceitável em si, as acusações feitas a Israel transpõem diretamente o conteúdo das denúncias mais do que comprovadas em relação às práticas governamentais da esquerda. Ou seja, não apenas são acusações falsas, mas refletem o que as ditaduras do proletariado efetivamente fizeram no desempenho do poder. As declarações do escritor José Saramago, conhecido membro do partido comunista português, fiel arauto da linha stalinista, representam por excelência a aplicação da novilíngua, que George Orwell descreveu em sua novela“1984”, ao conflito do Oriente Médio.

O mesmo pode ser dito dos regimes muçulmanos. Assim como foram atribuídas aos judeus as atrocidades cometidas pelas SA e pelas SS e na seqüência pelas tropas alemãs contra as populações dos países ocupados, o fundamentalismo islâmico responsabiliza Israel pelas ações praticadas ou incessantemente tentadas pelos exércitos e as milícias terroristas das ditaduras do Oriente Médio.

O genocídio está sendo levado a cabo em Darfur, pela ditadura islâmica sudanesa; foi tentado pelo Mufti de Jerusalém durante a segunda guerra mundial, quando organizou com Hitler um plano para a liquidação dos judeus da então Palestina; prosseguiu como objetivo das quatro guerras movidas pelas ditaduras do Oriente Médio contra Israel, de 1948 até 1973; continua inspirando as ações terroristas, dirigidas principalmente contra civis israelenses; foi praticado por Pol Pot durante o período em que o seu regime “revolucionário”, inspirado e patrocinado pela China Comunista, governou o Cambodja (1975-1979) e é agora o objetivo declarado da política externa do regime dos aiatolás.

A matança dos “kulaks”, proprietários agrícolas, durante o primeiro período do poder stalinista, alcançou cifras inacreditáveis; nos campos de trabalhos forçados soviéticos (Gulag) morreram centenas de milhares; a República Popular da China é responsável por uma considerável quota de assassinatos políticos e mais recentemente tem executado prisioneiros para comerciar seus órgãos. De todos os regimes comunistas que governaram o leste da Europa pode-se dizer que exterminaram adversários políticos impiedosamente sem qualquer base legal, mesmo quando os dissidentes pertenciam aos quadros do partido. O recurso à prisão e à execução sumária constitui mais uma das afinidades eletivas entre os regimes do Oriente Médio e as ditaduras do proletariado.

Mas apesar dessas constatações, fartamente documentadas, a esquerda, em uníssono com os regimes ditatoriais do Oriente Médio, acusa Israel de genocídio. Não há como deixar de suspeitar que, no caso, “apesar” só pode significar “por causa de”.

Algo mais do que o prazer da companhia de viagem anti-americana une o fundamentalismo islâmico (ou “ditadura do califado”) e a ditadura do proletariado. Trata-se respectivamente de uma crença religiosa e de uma concepção ideológica fundadas na convicção absoluta acerca da retidão das próprias metas e valores — quer de natureza teológica ou revolucionária. Não poucos teóricos interpretaram o comunismo soviético como uma religião de estado. O camarada Stalin e o aiatollah Khomeini usaram o culto à personalidade para angariar mais a veneração do que propriamente o apoio popular; atingiram o status de figuras semi-divinas, inquestionáveis. Por outro lado, a esquerda responsabiliza o desenvolvimento tecnológico e a globalização da economia pela dissolução da URSS, da mesma forma que as ditaduras do Oriente Médio entendem que o mesmo processo é a principal ameaça que enfrentam.

A esquerda ocidental tem evitado entrar em contato com a imagem refletida por um espelho tão cruel. O capitalismo, principalmente durante o período da acumulação primitiva (expressão cunhada por Marx), cometeu os crimes quase inexcedíveis do colonialismo e do racismo. Permanece funcionando com base na exploração da força de trabalho, na injustiça social, na influência do poder financeiro sobre todas as esferas da vida, no consumismo, na massificação e na agressão irresponsável ao meio ambiente em nome do lucro. Por mais graves que sejam essas práticas ligadas à iniciativa privada e ao “laissez faire, laissez passer”, as mesmas não justificam os crimes dos estados totalitários comunistas e islâmicos, cuja verdadeira motivação está longe de ser a restauração da justiça.

Foi no afã de recuperar a bandeira da ética, absolutamente incompatível com a história dos regimes auto-denominados socialistas, que a esquerda oficial [10] redigiu a última variante do mito da ocupação, dando à versão da OLP o verniz ideológico e a terminologia convenientes, de molde a complementar e corrigir a narrativa original, fortemente marcada pela retórica das elites locais.

O resultado final desse processo é a re-elaboração da história do Oriente Médio. A forma completa do mito da ocupação incorpora o enunciado original, que reflete a reação oficial das monarquias árabes e do clero diante dos primeiros indícios significativos de arraigamento da comunidade judaica na Palestina Britânica (décadas de 20 e 30), bem como os acréscimos e ênfases aduzidos pelas posições supostamente terceiro-mundistas da OLP [11] (a partir de 1964), e culmina com a tradução da formulação original para o discurso ideológico destinado a enfrentar a grande crise esquerdista do final do século XX.

A Inglaterra participa do mito da ocupação como Pilatos do credo. A Declaração Balfour de 1917, em que o Governo de Sua Majestade proclama sua posição favorável ao estabelecimento de um Lar Judeu na “Palestina”, é considerada pelos fiéis anti-sionistas como o pecado original do Mandato. Entretanto, a verdadeira “culpa” de Albion foi ter administrado racionalmente uma região até então sujeita às mais caóticas formas de governo — a última das quais exercida pelo Império Otomano. Bastou isso para que um esforço organizado como o da empresa sionista frutificasse, apesar de todos os obstáculos opostos pela administração britânica da década de 20 em diante, ou seja, a partir da constatação de que o petróleo seria a mais importante das matérias primas e não convinha inimizar a aristocracia local, muito pelo contrário. Sem a derrota turca na primeira guerra mundial tudo indica que quaisquer tentativas de assentamento seriam inviabilizadas tanto pela ausência de governabilidade como pela rapinagem dos funcionários e as razzias das populações nômades da região — ou seja, o mesmo quadro que perdurou durante séculos.

Que a comunidade judaica tenha construído o essencial da sua infra-estrutura social e econômica durante o Mandato também serve à imputação de colonialismo, freqüentemente feita a Israel. Entretanto… pode-se dizer que mais uma vez as evidências contrariam a asserção anti-sionista. A presença do colonialismo no Oriente Médio está associada à criação artificial de várias entidades políticas — mas não Israel. O Iraque é um país quase inviável, criado em 1930, que reúne três populações beligerantes em torno de lençóis petrolíferos divididos entre as grandes companhias do ocidente, cujos royalties sustentam a respectiva economia. A Jordânia (1946) foi concebida para ser a base militar britânica da região e o Líbano (cuja independência também data de 1946) representa a herança da influência francesa, tanto econômica como politicamente. O Canal de Suez, construído por um consórcio franco-britânico, provê o Egito (1922) das divisas que apenas o turismo das pirâmides e o cultivo do algodão são incapazes de fornecer.

Em todos os países do Oriente Médio regidos por monarquias absolutistas e seus descendentes castrenses, a presença dos antigos colonizadores se fez sentir na exata medida de seus interesses econômicos e políticos, até que a emergência das novas potências mundiais alterou a proveniência das influências externas.

Em Israel aconteceu o contrário. Tanto do ponto de vista econômico como politico, o sionismo foi (e é) um empecilho considerável para as potências ocidentais (leia-se valor econômico e estratégico do petróleo e dos petrodólares) — a tal ponto que, em alguns momentos, angariou o apoio soviético. Desde a época do “Lar Judeu” a nova sociedade desenvolveu características extremamente originais, combinando experiências socialistas (fazendas coletivas ou “kibutzim”, sindicalismo extremamente forte) com a economia de mercado desenvolvida nas regiões urbanas. Em sua fase inicial, o país acelerou a recuperação de terras inférteis, construiu cidades em regiões abandonadas há séculos, iniciou o povoamento do deserto do Neguev, modernizou a agricultura, otimizou a irrigação e o aproveitamento da energia solar. Atualmente, as pesquisas progridem no campo da tecnologia de ponta, principalmente em informática e medicina. O número de cientistas israelenses reconhecidos internacionalmente é surpreendente se forem consideradas as pequenas dimensões e a ínfima população do país.

Do ponto de vista político, trata-se do único regime democrático do Oriente Médio. Enquanto as minorias religiosas e étnicas, bem como as mulheres, conhecem graus extremos de discriminação e opressão por parte das ditaduras da região, na “entidade sionista” há uma proliferação de partidos políticos, representando os interesses dos seus atuais sete milhões de habitantes. Israel foi governada ininterruptamente por uma coalizão trabalhista desde sua fundação até 1973 (um quarto de século) e depois desse período alternou coalizões governamentais de centro direita e centro esquerda. A esquerda israelense é representada por vários partidos, inclusive o comunista. Jamais algum agrupação política foi declarada ilegal e precisou passar à clandestinidade — mesmo as que se declaram abertamente anti-sionistas. Não há termo de comparação entre a vida política israelense e a dos países governados pelas ditaduras do Oriente Médio, aos quais as milícias terroristas ditas palestinas se reportam.

Que a esquerda consiga interpretar o conflito do Oriente Médio de acordo com a camisa de força ideológica “esquerda vs direita” ou “colonialismo vs nacionalismo” constitui uma façanha do ponto de vista lógico. Já em termos dos aspectos subjetivos envolvidos, não é tão difícil de entender.

Os sucessivos fracassos do socialismo real fizeram com que os militantes de esquerda perdessem a inocência. Para quem guiou a sua vida de acordo com a esperança de um mundo melhor, prometido pela teoria marxista e fundado na crença de que o partido comunista e suas variantes constituíam a única alternativa válida para a barbárie capitalista, entrar em contato com o perfil menos fotogênico dos regimes ditos socialistas, como a indústria de vendas de órgãos para transplante da República Popular da China, o Gulag soviético, a corrupção do governo romeno, e uma infinidade de etcéteras, sem falar da falta de segurança das usinas nucleares, da industrialização selvagem e poluidora, da necessidade de construir um muro para impedir a fuga da RDA em direção a Berlim ocidental, deve ter representado uma crise pessoal sem precedentes— algo como perder o chão sob os pés.

Enquanto isso, nos EUA ocorria um movimento liberalizante, marcado pela vitória da luta contra a discriminação racial, a oposição à guerra do Vietnam e a crítica interna ao apoio oficial dado pelo governo às ditaduras militares latino-americanas.

Em um espaço de tempo muito curto, os atores deixaram de representar os papéis tradicionalmente previstos pela cartilha do militante.

Nesse contexto, Israel é uma tábua de salvação para as vítimas do naufrágio ideológico. O colossal iceberg das decepções promovidas pelo socialismo real produziu um estrago considerável nas convicções da esquerda. O anti-sionismo é convocado para ressuscitar a fé despedaçada. Objeto de uma operação estética pelo avesso, o estado judeu é deformado com o fim de dar-lhe o “physique du rôle” adequado para representar todos os demônios da esquerda. Em decorrência, uma nova crença, ardentemente professada, fará da “luta contra a ocupação israelense” a causa por excelência na época das ilusões perdidas.

Israel é estigmatizada como “braço do imperialismo norte-americano”, herdeira do colonialismo; Sharon fez as vezes de caudilho latino-americano transplantado para o Oriente Médio, misto de Trujillo, Batista, Somoza, Strossner, Videla, Pinochet; invoca-se a matança de Sabra e Chatila, perpetrada por Elie Hobeika, líder da milícia falangista cristã, para justificar a acusação de genocídio; a barreira de defesa contra o terrorismo é equiparada ao muro de Berlim [12], embora sua função seja exatamente a oposta [13]; Arafat foi travestido de herói combatente do movimento de libertação nacional, embora jamais tenha participado de uma escaramuça sequer. (Correspondentemente, os “progressistas” não fazem qualquer referência à imensa fortuna reunida pelo presidente da Autoridade Palestina, objeto de uma disputa acirrada entre a sua viúva e o primeiro escalão da OLP).

A esquerda fecha os olhos diante das evidências mais do que palpáveis de que a estratégia dos “militantes” (nome dado aos terroristas, remunerados por produção) é simultaneamente atingir os civis israelenses e usar os civis árabes como escudo, para multiplicar as baixas que, na peculiar contabilidade dos politicamente corretos, serão finalmente debitadas a Israel [14]. A mídia anti-sionista repete invariavelmente o mesmo clichê, comentando que a reação israelense aos atentados é contraproducente porque gera mais mortes. Passa rapidamente do argumento capcioso da equivalência moral (“agressão é agressão, venha de onde vier”) para a responsabilização de Israel pelo que costuma chamar “ciclo de violência”. É impossível não pensar que se trata da versão atualizada do famoso “líbelo de sangue”, a acusação que imputava aos judeus a utilização do sangue de crianças cristãs para fazer o pão ázimo da Páscoa. Efetivamente, e para não deixar a relação no plano da mera sutileza, em um concurso de cartoons realizado na Inglaterra, o desenho vencedor, inspirado no conhecido quadro de Goya, retrata Sharon como Saturno (Cronos), devorando uma criança palestina [15].

Os três momentos constitutivos do mito da ocupação já alcançaram o estatuto do ponto pacífico, ilustrando assim a famosa tese de Goebbels de que uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade. Atribui-se a Abraham Lincoln a afirmação oposta: “Pode-se enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas não enganar todas as pessoas o tempo todo”.

O primeiro enunciado do mito —que os judeus compraram e/ou tomaram as terras dos fellahin (camponeses) árabes durante as décadas que antecederam a Partilha — não somente é demonstravelmente falso como constitui a inversão exata dos acontecimentos. Ainda que a administração britânica tenha evitado registrar o movimento da população árabe que habitava as regiões vizinhas à do Mandato (1920-1948) em direção à região beneficiada pela infra-estrutura criada pelos imigrantes judeus, as evidências disponíveis são insofismáveis [16]. O atual território do Estado de Israel foi objeto de um duplo processo migratório, o dos próprios judeus europeus (em conjunto com uma pequena quantidade de judeus procedentes de países árabes) e o de contingentes populacionais árabes provenientes do Líbano, Síria, Jordânia e Egito. Embora o número exato dessa migração interna não tenha sido registrada, há dados suficientes para afirmar que a quantidade de habitantes árabes da então Palestina foi multiplicado por cinco no período que vai do começo do século XX até 1948, quando chega a aproximadamente um milhão de habitantes. Apenas a alta taxa de nascimentos, auxiliada pela infra-estrutura sanitária criada pelos judeus, que diminuiu significativamente a mortalidade infantil, não explicaria um aumento tão exponencial.

O crescimento da população árabe obedeceu às mesmas razões atualmente responsáveis pelo movimento populacional de Gaza e da Margem Ocidental em direção a Israel. Uma das primeiras e mais óbvias leis da ciência demográfica estabelece que o desenvolvimento econômico gera deslocamentos populacionais de regiões próximas em comparativo estado de estagnação. A atração exercida por melhores condições de vida metaforiza a gravidade newtoniana. É extremamente provável que, visto a permissividade das autoridades do Mandato em relação à imigração árabe pari passu com a correspondente restrição à imigração judaica, a quantidade de trabalhadores das regiões vizinhas que ingressou na Palestina Britânica em busca de melhores condições de vida tenha superado a de judeus, cuja absorção foi submetida a quotas rígidas. Além da duplicidade da administração inglesa, crescentemente influenciada pela pressão das lideranças árabes a partir da década de 20, é muito mais fácil vigiar as costas e o desembarque de navios do que fronteiras terrestres. O Mandato Britânico, apesar de ter sido encarregado pela Liga das Nações da implementação do Lar Judeu, condicionou a entrada dos imigrantes à existência de uma estrutura econômica capaz de garantir sua absorção, apesar de que o investimento financeiro estável e a sólida infra-estrutura criada pela comunidade judaica ofereciam trabalho e moradia para os recém chegados [17]. Em relação à imigração das regiões vizinhas, nenhuma medida limitativa foi tomada, o que explica inclusive o caráter deliberado da política de não controlar o movimento populacional nas fronteiras.

A política britânica em relação à imigração judaica é diretamente responsável por centenas de milhares de mortes. A Comissão Peel, que em 1937 foi encarregada de investigar as razões da chamada revolta árabe, recomendou que durante os anos de 1939 a 1943 a taxa de imigrantes judeus fosse reduzida a 12 mil por ano, justamente na época em que a “solução final” nazista foi posta em marcha. Os distúrbios anti-judaicos de 1920/1921 já haviam levado a uma decisão semelhante. Em 1922, o primeiro dos “White Papers”, expedido por sir Winston Churchill, então titular do Foreign Office [18], formulou a restrição inicial à imigração judaica, a pretexto das limitações referentes à capacidade econômica de absorção. Mais significativamente ainda, o documento separou da então Palestina, em princípio acessível aos assentamentos judaicos, toda a região da margem oriental do Rio Jordão, com a finalidade de estabelecer o Reino da Jordânia, outorgado a um dos filhos [19] do aliado na guerra contra o Império Otomano, o ‘sherif’ Hussein, da dinastia Hachemita. O território jordaniano foi proibido ao assentamento judaico, antecipando a mesma decisão por parte da Autoridade Palestina.

Todas as alegações da versão inicial do mito cedem diante do mais elementar exame das evidências. Ao invés de tomar a terra dos camponeses árabes, os imigrantes judeus criaram condições que possibilitaram um considerável afluxo das regiões vizinhas para a Palestina Britânica, enquanto a própria imigração judaica sofria restrições. Ao invés de prejudicar os árabes da região, o estabelecimento da infra-estrutura econômica e sanitária favoreceu consideravelmente tanto a população já estabelecida como os recém chegados. Isso é comprovado pela diminuição significativa da mortalidade infantil [20] e a correspondente elevação do padrão de vida, expresso pelo aumento de segurança, mercado de trabalho e de comércio. Os únicos prejudicados com as notáveis transformações geradas pela presença judaica foram os beneficiários do status quo, ou seja, a classe dominante local, cuja relação com os fellahin sempre se caracterizou pela opressão e a exploração econômica. Essa conclusão é tão válida para descrever a época em pauta como a situação atual. A oposição à existência de Israel contempla os interesses da camada dominante de uma sociedade cuja disparidade de renda dificilmente encontra paralelo.

O segundo enunciado do mito é ainda mais frágil. A afirmação de que os judeus expulsaram a população árabe em 1948 criando o problema dos refugiados, somente solucionável quando puderem retornar a seus lares, omite as causas e as conseqüências do referido deslocamento populacional — ou seja, a declaração de guerra a Israel e a correspondente invasão por parte dos exércitos das monarquias árabes. A intenção abertamente proclamada de exterminar a população judaica, concretizada em cada povoado tomado e com relação a cada prisioneiro — combatente ou civil —capturado, já seriam suficientes para desautorizar qualquer alegação do gênero.

Em acréscimo, é preciso considerar que nas poucas ocasiões em que combatentes judeus forçaram a população árabe a deixar suas aldeias, esse gesto, por lamentável que seja, obedeceu a um imperativo militar e só pode ser julgado com isenção se forem levadas em conta as circunstâncias. Para os judeus, tratava-se de uma questão de sobrevivência, o que é demonstrado pelos assassinatos a sangue frio, seguidos de mutilação de cadáveres, cometidos pelos soldados dos exércitos invasores. Do ponto de vista ético, mais uma vez, não há como deixar de constatar que o comportamento das tropas judaicas foi incomparavelmente mais civilizado do que o de seus inimigos. Poucas manifestações de hipocrisia podem ser comparadas à acusação da expulsão da população árabe de Israel justamente por parte daqueles cuja intenção de extermínio jamais foi escondida — nem na ocasião, nem atualmente.

Mesmo que se quisesse dar um mínimo de crédito ao argumento da expulsão, é inevitável concluir que entre expulsar e assassinar há uma diferença incomensurável. Mais importante ainda é a constatação de que jamais houve uma política de expulsão da população árabe por parte do estado judeu, nem na ocasião, nem atualmente. Um quinto da população de Israel é árabe. Por outro lado, a alegação central da segunda versão do mito transgride mais uma lei demográfica bem conhecida. A população civil abandona regiões conflagradas, desde que tenha meios para fazê-lo. Era justamente o que estava ao alcance dos árabes residentes nas áreas designadas para constituir o estado judeu, cuja maioria era constituída por imigrantes recentes ou descendentes de imigrantes provenientes das regiões vizinhas e que, portanto, tinham como refugiar-se durante a vigência da luta. Ainda é preciso considerar que, segundo os costumes da região, os vencidos são exterminados — exatamente o que os atacantes pretendiam fazer com os judeus. O temor de sofrer esse destino caso os exércitos invasores fossem derrotados também influenciou o deslocamento de parte da população árabe. Finalmente, há vários registros de que os comandantes militares pediram à população árabe que deixasse o terreno livre para o ingresso de suas forças.

Como se não bastasse, também com relação a esse aspecto do conflito evidencia-se o uso da estratégia de acusar Israel por aquilo que é efetivamente praticado pelos seus detratores. Durante a década de 50 aproximadamente 1 milhão de judeus foram expulsos dos países árabes —Marrocos, Tunísia, Egito, Iêmen, Iraque, Síria, Líbia, Emiratos — e tiveram os seus bens confiscados. As comunidades judaicas desses países estavam estabelecidas há vários séculos, em certos casos há mais de um milênio. Os judeus viviam sob um regime especial — a “dhimitude” [21], segundo o qual a permissão para que o infiel resida em um país muçulmano implica em aceitar a condição de cidadão de segunda classe. Durante o processo de expulsão, que representou a punição dos judeus pela criação do Estado de Israel, prisões, torturas, assassinatos e condenações sumárias aconteceram em abundância [22]. Tampouco há qualquer menção desses fatos, mais do que comprovados, por parte da esquerda anti-sionista.

A re-escritura da guerra de 1948 é em tudo e por tudo semelhante à negação do Holocausto. Tem-se aqui uma notável conjunção entre as concepções da direita e da esquerda. A direita recusa as inegáveis evidências da solução final, como as leis raciais, os campos de concentração, as câmaras de gás, as valas repletas de cadáveres, os guetos; a esquerda omite os ataques a judeus na Palestina Britânica perpetrados em 1920, 21, 29, 30, 36, 39, tanto quanto a declaração de guerra das monarquias árabes em 1948. Muito menos menciona a sua finalidade, proclamada aos quatro ventos: a destruição de Israel e o extermínio dos judeus. As motivações da direita anti-semita e da esquerda anti-sionista combinam-se harmoniosamente. Trata-se de culpar a minoria judaica da diáspora pelas crises nacionais e responsabilizar a existência de um país minúsculo, Israel, pelas internacionais. Assim ficam plenamente justificadas tanto a discriminação e as perseguições contra os judeus, que visam seu extermínio, como o terrorismo e as guerras contra Israel, que visam destruí-la. O encontro entre Haj Amin El Husseini e Adolf Hitler, em 1941, representa a conjunção perfeita entre o anti-sionismo e o anti-semitismo. Não há como deixar de constatar que o substituto de Hitler, nessa parceria, é a esquerda anti-sionista.

Correspondentemente, o Mufti de Jerusalém tem como sucessor Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, que representa a mesma ligação intrínseca entre anti-semitismo e anti-sionismo. Arauto mor da negação do Holocausto concretizado e defensor mor do Holocausto pretendido, propõe-se aniquilar os seis milhões — número emblemático — de judeus israelenses. É também o paladino do anti-americanismo, e nessa condição está a salvo de qualquer crítica ou questionamento por parte da esquerda oficial, a esquerda anti-sionista.

Da mesma forma que a segunda versão do mito anti-sionista omite as causas da guerra de 1948, atribuindo o confronto à intenção de expulsar os árabes residentes nas regiões de soberania judaica, alegação que encobre simultaneamente as causas do conflito e do deslocamento populacional, a terceira versão apresenta a guerra de 1967 como exemplo máximo do expansionismo sionista. Nesse intuito, os historiadores revisionistas que se proclamam de esquerda, numa operação em tudo e por tudo paralela à dos negadores do Holocausto, omitem e distorcem as evidências mais insofismáveis, principalmente a finalidade das ditaduras militares egípcia e síria que iniciaram as hostilidades— ou seja, mais uma vez a destruição de Israel e o aniquilamento de seus cidadãos.

No relato do revisionismo histórico, não se menciona a decisão de Nasser de asfixiar Israel impedindo a passagem de navios pelo Estreito de Tiran, rota pela qual o país era abastecido de petróleo, nem sua ordem de que o contingente da ONU sediado no Sinai fosse retirado. Os revisionistas tampouco se referem ao avanço das tropas egípcias sobre a península, a aliança com a Síria, a entrada em prontidão dos respectivos exércitos e os discursos diários augurando a iminente destruição da “entidade sionista”. O pedido de Levi Eshkol, primeiro ministro de Israel, ao Rei Hussein, da Jordânia, para que não se aliasse à coligação sírio-egípcia, é ignorado em todas as descrições assinadas pelo anti-sionismo. Tampouco consta da respectiva narrativa que Hussein recusou a proposta; Israel foi atacada pelas forças jordanianas justamente em sua região mais vulnerável, a central, “cintura” estreita do país, abrindo uma terceira frente.

A razão pela qual a chamada Guerra dos Seis Dias é relatada pela esquerda de maneira tão peculiar não chega a constituir um enigma indecifrável. Tanto a Síria como o Egito eram clientes militares e aliados da União Soviética. O revisionismo histórico segue fielmente o modus operandi clássico dos regimes em que não existe qualquer ponto de vista a não ser o do governo. A esquerda oficial inverte os fatos e recorre a uma semântica inusitada para que o papel de agressor seja atribuído a Israel. Reconhecer que a pátria do socialismo, em nome de seus interesses de estado, armou e instou Gamal Abdel Nasser e Hafez Assad, líderes de governos ditatoriais, a destruir um país democrático, integrante da ONU [23], implica examinar os fatos de maneira isenta, algo aparentemente inacessível para a esquerda oficial.

Entretanto, a aliança com a Síria e o Egito, feita sem a menor consideração pelos militantes comunistas e socialistas desses países, aprisionados, torturados e mortos, obedeceu a uma decisão estratégica nada irrelevante do Kremlin. A eventual derrota e destruição de Israel outorgaria às ditaduras egípcia e síria prestígio suficiente para promover, nos países petrolíferos (Iraque, Irã, Arábia Saudita, Emiratos) uma intensa mobilização, nos quartéis e nas ruas, capaz de ocasionar, a curto ou médio prazo, a derrocada dos regimes pró-ocidentais. Aconteceu justamente o contrário. A Guerra dos Seis Dias deu início ao processo que levou o fundamentalismo islâmico ao poder no Irã e a constituir a força popular mais marcante nos países árabes.

A atitude atual da esquerda em relação a Israel é exatamente igual à das potências européias face à Tchecoslováquia em 1938. Quando, um ano depois do Acordo de Munique, a Polônia, com quem Inglaterra e França haviam celebrado um pacto de defesa, foi invadida, Chamberlain e Daladier finalmente compreenderam que o nazismo não se limitaria a atacar a União Soviética mas tinha por primeiro objetivo a hegemonia no continente. Para a esquerda, desde 1967, Israel tornou-se sacrificável em nome do mesmo princípio — a necessidade de golpear os EUA. Levando em conta que parte importante do armamento israelense provinha do Ocidente, principalmente França e Estados Unidos, o conflito do Oriente Médio adquiriu o contorno de uma guerra entre o capitalismo e o socialismo, em que o pacto de Varsóvia e a NATO testavam seu arsenal por procuração.

Para a esquerda, a situação do povo sob os regimes ditatoriais das nações árabes e o contraste com a vida política israelense, incluindo a condição dos cidadãos árabes israelenses, era e permanece totalmente negligenciável, já que o objetivo prioritário se resume à vitória sobre o capitalismo — representado pelos Estados Unidos. Desse ponto de vista, o Oriente Médio é considerado como cenário de um conflito localizado cujo resultado ajudará a decidir o embate entre o Bem (socialista) e o Mal (capitalista) — uma continuação da guerra do Vietnã.

Se em 1967 e 1973 [24] o campo progressista foi capaz de desconsiderar até mesmo o dever de solidariedade para com os militantes de esquerda trancafiados nas prisões sírias e egípcias, a nova estratégia dos regimes ditatoriais do Oriente Médio, representados pela Liga Árabe, teria tudo para ser bem sucedida. Após a quarta derrota militar consecutiva o confronto entre exércitos foi substituído pelo terror, que antes disso constituía um meio auxiliar. Apresentado como “resistência face à ocupação”, o terrorismo receberia o apoio explícito ou implícito da esquerda, conforme a moderação ou o radicalismo da corrente, principalmente após a dissolução da União Soviética, cuja função de oposição aos EUA o establishment progressista passou a desempenhar.

É incomum que a massa crítica de uma potência possa ser substituída dessa maneira, mas não convém desprezar a importância da vasta rede de ideólogos, militantes e simpatizantes estrategicamente situados em postos-chave na mídia e nos partidos, sindicatos e associações acadêmicas. A partir dessa base, o anti-sionismo alastrou-se rapidamente e conquistou espaço junto a parlamentares dos blocos do centro e da direita democrática, principalmente nos países europeus dotados de minoria muçulmana com peso eleitoral. A importância do petróleo e dos petrodólares somou-se enquanto fator aliciador, arregimentando para o anti-sionismo um setor influente do mundo empresarial.

O encerramento da guerra fria retirou o conflito do âmbito dos interesses nacionais e das “reuniões de cúpula”, transferindo o embate ideológico para o terreno da opinião pública, em que a mídia ocupa um lugar central, principalmente numa época em que a leitura limita-se geralmente às manchetes, algumas frases adjacentes e as legendas sob as fotografias. A grande maioria dos intelectuais entendeu que seu papel consistia em criticar a política internacional da Casa Branca, para diminuir o imenso poder que a desestruturação da União Soviética concentrara em mãos americanas. Israel teria um papel central a desempenhar, desde que sua imagem fosse associada à África do Sul, ao Vietnã do Sul e ao nazismo. Daí as equiparações entre sionismo, racismo, imperialismo e genocídio, seguida pela “caudilhização” de Sharon, travestido de ditador latino-americano.

Para tanto, foi necessário estender e aprofundar as omissões e distorções anteriores, elaboradas no âmbito das duas primeiras formulações da narrativa anti-sionista. A esquerda acompanhou passo a passo a nova estratégia das ditaduras do Oriente Médio, que haviam sido fortalecidas consideravelmente pela revolução islâmica iraniana (1979). A dissolução da União Soviética colocou a esquerda sob a tutela do fundamentalismo islâmico. Formulou-se o conceito de multiculturalismo para justificar práticas e costumes muçulmanos contra minorias e a jihad passou a ser interpretada como reação merecida pelos antigos colonizadores.

A Organização de Libertação da Palestina, pouco depois da guerra de 1967, que resultou no fim do domínio egípcio sobre Gaza, base operacional importante para o terror, perdeu igualmente o território jordaniano após confronto com o Rei Hussein [25]. O comando e as forças da OLP instalaram-se no Sul do Líbano, que foi transformado em enclave soberano. Os constantes ataques ao norte de Israel culminaram na invasão israelense (1982), que teria levado ao aprisionamento da liderança da OLP, inclusive Arafat, não fosse a intervenção norte-americana, no âmbito de uma política de apaziguamento. O acordo que interrompeu as hostilidades resultou na retirada da OLP e no exílio da sua liderança na Tunísia.

Um dos aspectos mais significativos do conflito entre o exército israelense e a OLP em Beirute (1982) foi a utilização da população libanesa como escudo. Estratégia deliberada ou recurso ao qual se lançou mão devido às circunstâncias, seja como for o terrorismo descobriu a eficácia desse gesto, cujos dividendos revelaram-se inexcedíveis. Daí em diante, as organizações humanitárias [26], verdadeiro hard core da esquerda, nunca deixaram de apontar o exército israelense como responsável pela morte de civis sempre que estes eram atingidos enquanto cumpriam involuntariamente a função de reféns. Correspondentemente, as ações terroristas, deliberadamente dirigidas contra cidadãos israelenses em suas atividades quotidianas, beneficiavam-se de um total silêncio [27]. O êxito da tática, interpretada como aplicação da conhecida metáfora de Ho Chi Min ao conflito do Oriente Médio (“o revolucionário deve ser como um peixe no mar do povo”), angariou ainda mais o apoio da esquerda anti-sionista, que jamais revelou a menor propensão em diferenciar a luta entre combatentes armados do assassinato de civis, seja diretamente, seja através da sua utilização como reféns — desde que interesses maiores o exigissem.

Esse foi o ponto de inflexão que selou a aliança entre a corrente majoritária da esquerda ocidental e as milícias terroristas do Oriente Médio. A defesa dos interesses de estado e sua sobreposição a considerações ideológicas, por parte do Kremlin, afastou os ideólogos mais conseqüentes da esquerda, que defenderam a alternativa da luta armada. Nasceu assim a “camaradagem de armas”, unindo IRA, ETA, Sendero Luminoso, Tupamaros, Montoneros, Brigadas Vermelhas e a Facção Baader-Meinhof. As milícias palestinas foram integradas ao grupo. Por outro lado, a morte de civis usados como escudo permitia dissimular sob uma capa humanista o verdadeiro motivo da adesão da esquerda ao terror anti-sionista: o anti-americanismo. Surgia o critério “dois pesos, duas medidas”, que seria aplicado pela mídia com todo o rigor possível. As suas regras, mais tácitas do que explícitas, mas nem por isso menos eficazes, estipulavam que o assassinato de civis israelenses receberia um tratamento miniaturizado, a expressão “ataque terrorista” seria precedida pelo adjetivo “suposto” e o substantivo “militante” substituiria “terrorista”, mesmo quando as vítimas fossem pessoas desarmadas.

Compensatoriamente, a descrição das ações militares israelenses prescindiria dos respectivos motivos e as informações sobre baixas, se fornecidas por fontes ligadas às milícias, seriam consideradas verossímeis. Além disso, ganhariam todo o destaque possível; eventuais desmentidos e retratações, pelo contrário, raramente seriam dados a conhecer e, quando não fosse possível evitá-lo, confinados a espaços mínimos nas páginas internas. Há inúmeros exemplos que podem ilustrar a referida prática, e um dos mais marcantes é a notícia sobre o massacre de Jenin. Durante a operação Escudo Defensivo, desencadeada em resposta a uma das campanhas terroristas mais mortíferas [28], o exército israelense teria causado a morte de cinco mil pessoas, a grande maioria civis, entrincheirados nessa cidade, conhecida como principal sede do terror. As manchetes alardearam o morticínio sem qualquer verificação. Depois de uma semana, os números se alteraram: as vítimas dos carrascos sionistas passaram de cinco mil a quinhentas. Duas semanas depois, observadores internacionais, ciosos de documentar a matança, puderam enfim examinar o local dos acontecimentos e constataram que cinqüenta e duas pessoas haviam morrido na ação israelense: vinte e nove combatentes palestinos e vinte e três soldados.

Assim, frustrou-se a tentativa de realimentar a seção genocídio do mito da ocupação, inaugurada com a atribuição das mortes de Sabra e Chatila a Israel. Mas, de fato, a população local foi usada como escudo e não fosse o cuidado do exército e o sacrifício de 23 soldados e oficiais para evitar que civis corressem riscos, o número de baixas corresponderia ao que havia sido planejado por Arafat e ansiosamente esperado pela esquerda. Desnecessário dizer que a retratação, quando ocorreu, limitou-se a pequenos textos dos quais a maioria dos leitores jamais tomou conhecimento.

Trata-se do procedimento habitual da “grande imprensa” em relação a Israel. A “retratação” em questão constitui por sua vez o melhor auto-retrato possível dos editores e da respectiva ética jornalística.

A mortandade causada pela campanha terrorista da OLP a partir do sul do Líbano, entre 1970 e 1978, também mostrou a eficácia da estratégia de ocupar as fronteiras de Israel, subtraindo-as à soberania libanesa, jordaniana e egípcia, graças ao que as células terroristas, localizadas em meio à população, tornavam a ação do exército israelense extremamente difícil e sempre sujeita à condenação internacional, preparada de antemão e orquestrada pela mídia.

A estratégia foi usada mais uma vez no Líbano, em 2006, desta vez de forma superlativa. A substituição da OLP pelo Hezbollah deu origem a uma segunda versão da guerra de 1982. Os acordos internacionais e as tropas da ONU não impediram os ataques do grupo financiado e armado pelo Irã, via Síria, e a conflagração mobilizou novamente o coro humanista, cuja partitura tampouco se alterou: a responsabilidade pelo conflito foi pouco a pouco sendo transferida para Israel, apesar de todas as provas em contrário. Os bombardeios indiscriminados de cidades israelenses foram ignorados bem como o fato de que as plataformas de onde eram lançados os foguetes se localizavam em áreas de grande densidade populacional, preferentemente escolas, moradias e locais comerciais. Fotos maquiadas e utilização de cadáveres para fins de propaganda, em cenas montadas, ganharam espaço nas primeiras páginas da grande imprensa e nas reportagens de televisão. Os desmentidos e ressalvas aconteceram muito tempo depois, em espaço e tempo ínfimos, como de costume.

A estratégia de sacrificar a população civil árabe, usando-a como escudo, é mais do que patente, mas a esquerda oficial desconsidera absolutamente todas as evidências. A razão dessa atitude jaz em que a finalidade de justificar a equação “sionismo = imperialismo = nazismo” constitui, para o campo progressista, um ponto de extrema importância em sua luta contra os EUA. Assim, atribui-se a Israel exatamente o que é praticado pelas milícias terroristas. O confronto entre forças armadas não propiciava essa possibilidade. Pelo contrário; nesse caso, Israel aparece como uma nação de 7 milhões de habitantes defendendo-se do mundo muçulmano, imensamente maior e dotado do poder conferido pelo petróleo. A nova estratégia permite à esquerda enfatizar a aliança entre EUA e Israel, ao mesmo tempo em que apresenta as milícias como representantes do povo árabe — escamoteando os seus patrocinadores, ou seja, o Irã, a Liga Árabe e agora, novamente, a Rússia de Putin, cujos interesses de estado são idênticos aos da URSS, o que mostra talvez como a questão ideológica, ao longo da guerra fria, caiu a um plano irrelevante.

Na perspectiva de seus críticos, Israel somente poderia evitar essa imagem de agressor desde que aceitasse os ataques sem defender-se, atitude interpretada, por sua vez, como metáfora de que “o próprio sionismo admite sua culpa e sabe que não tem defesa”…

A mídia, cujos editores, redatores, âncoras, fotógrafos, cartunistas e comentaristas pertencem em esmagadora maioria à coalizão que reúne a esquerda e os que buscam a aprovação da opinião pública (ou seja, os politicamente corretos), já está mais do que convencida da culpa de Israel. A escolha e o ângulo das fotografias, o tom consternado dos apresentadores, o espaço concedido às matérias, a posição política e ideológica dos comentaristas e “experts” convidados para entrevistas e debates, enfim, tudo o que tipifica a concepção responsável pelo enquadramento do conflito, adquire um aspecto quase cômico para o observador dotado de senso de humor. A solenidade santimoniosa do ritual incriminatório lembra um processo inquisitorial sem fogueira, até mesmo no que se refere ao depoimento dos judeus anti-sionistas. Que costumam, aliás, ser os críticos mais impiedosos de Israel, como convém aos que precisam convencer os algozes de sua inocência.

Mas o grande argumento da terceira versão do mito da ocupação é a acusação de que Israel apropriou-se de terras palestinas, após 1967. Trata-se da tese do expansionismo sionista.

Para sustentar esse enfoque é preciso, em primeiro lugar, recorrer à amnésia. A guerra dos Seis Dias confere a pior das imagens possíveis à União Soviética, tanto no sentido de apoiar ditaduras reacionárias em benefício de seus interesses de estado, como no que se refere à péssima avaliação da inteligência russa em relação à capacidade de combate das forças armadas dos estados clientes. A derrota síria, egípcia e jordaniana constituiu também uma derrota soviética, mas nesse caso tanto militar como moral.

Portanto, a origem da presença israelense na margem ocidental [29] e em Gaza é absolutamente desconsiderada pela esquerda, que segue fielmente o procedimento stalinista de alterar os fatos históricos, sempre que necessário [30]. Trata-se de uma liberdade menos poética do que política em relação às evidências históricas, mas a esquerda oficial não tem qualquer problema em usar esse recurso.

A segunda omissão refere-se à situação de Gaza e da Cisjordânia após 1948. Na Partilha decidida pela ONU em 1947, esses territórios haviam sido adjudicados quase totalmente ao estado árabe que deveria formar-se com a divisão do que restara do Mandato Britânico, após a outorga de 77% de sua extensão ao Emir Abdullah, da dinastia Hachemita, para a formação do Reino da Jordânia.

Após a guerra, o Egito apossou-se da Faixa de Gaza e a Jordânia da margem ocidental e do setor oriental de Jerusalém, a cidade velha. De 1948 a 1967 não houve qualquer protesto, nem das lideranças locais de Gaza e da margem ocidental, nem dos países da Liga Árabe, em relação à ocupação egípcia e jordaniana. Nesse período, tanto Gaza como a margem ocidental do Jordão foram utilizadas como base das milícias terroristas que realizavam incursões em território israelense.

O movimento pela “libertação” dos “territórios ocupados” representa a reação da Liga Árabe à assinatura de tratados de paz entre Israel e Egito (1979) e Israel e Jordânia (1994).

A campanha pela criação de um estado palestino em Gaza e na margem ocidental foi a maneira encontrada pelas ditaduras do Oriente Médio para devolver a essas regiões a função de fustigar Israel incessantemente. Em 1988 a Transjordânia voltou a transformar-se em Jordânia, renunciando à soberania sobre a margem ocidental. Durante as negociações com Israel, o Egito recusou a devolução da Faixa de Gaza.

Criaram-se assim as condições para desencadear a campanha pelo estabelecimento de um estado palestino, cujo único representante, segundo determinação da Liga Árabe em 1974, um ano após a última derrota militar, seria a Organização de Libertação da Palestina, liderada por Arafat.

Daí em diante, tratava-se de fazer com que Israel aceitasse negociar com a OLP e transferisse a Cisjordânia e Gaza à organização presidida por Arafat.

A decisão da Liga Árabe mostra que o povo palestino não desempenhou qualquer papel em relação à escolha de sua liderança, nem, portanto, das diretrizes políticas. Por outro lado, fica evidente o motivo pelo qual o Egito e a Jordânia repassaram o território fronteiriço para uma organização de cujo estatuto constava o objetivo de destruir Israel. Com uma das mãos assinaram a paz, com a outra criaram as condições para que a guerra continuasse – como guerra de atrito, agora a cargo das milícias terroristas com liberdade de ação sob a Autoridade Palestina.

A terceira grande omissão da esquerda, freqüentemente acompanhada de distorções, refere-se às ofertas israelenses durante as negociações de paz em Camp David e Taba (2000 e 2001), precedidas pelo encontro de Madrid (1991) e o acordo de Oslo (1993), em que Israel reconhecia a OLP como representante do povo palestino, prosseguidas por negociações mediadas por Clinton, nas quais houve o famoso aperto de mão entre Itzhak Rabin e Yasser Arafat, na Casa Branca (1994) e a concessão do Prêmio Nobel da Paz a Arafat, Rabin e Peres, nesse mesmo ano. A pré-condição estipulada por Rabin consistiu na retirada da cláusula referente à destruição de Israel dos estatutos da OLP, enquanto a da OLP revestiu-se de conseqüências práticas muito mais concretas e significativas: o reconhecimento de que a Faixa de Gaza e a Margem Ocidental abrigariam um estado palestino e seriam imediatamente entregues por Israel ao movimento liderado por Arafat.

Arafat e Ehud Barak, então primeiro ministro de Israel [31], reuniram-se em 2000 e 2001, em Camp David e Taba (Egito). O primeiro ministro israelense ofereceu a entrega de 94% a 96% dos territórios da margem ocidental, bem como 100% da Faixa de Gaza, além de soberania sobre Jerusalém Oriental (desde que os judeus tivessem direito de acesso ao Muro das Lamentações), mais uma compensação territorial pela diminuta percentagem (4 a 6%) que Israel manteria em seu poder por razões de segurança. Arafat recusou, exigindo o direito de retorno para os refugiados da guerra de 1948 e seus descendentes (aproximadamente 4 milhões de pessoas, segundo a ONU, ou 6 milhões, de acordo com as estatísticas da OLP e da Liga Árabe).

Diante de tais evidências, faz-se preciso um esforço considerável para permanecer acusando Israel de expansionismo e belicismo, mas o revisionismo histórico mostrou-se à altura da tarefa. A imagem que as correntes hegemônicas da esquerda desenvolveram em relação a Israel só pode ser modificada ao preço de um questionamento evitado a todo custo. De nada adiantou, nesse sentido, a devolução do Sinai, cujas dimensões excedem a do próprio estado judeu e que fora conquistado em guerra de defesa diante de uma ameaça de extermínio. Trata-se do único caso na história em que o vencedor abdicou das vantagens legitimamente obtidas num conflito em que a derrota teria significado sua destruição.

A paz no Oriente Médio não convém absolutamente à esquerda oficial, em cuja concepção o conflito preenche uma função essencial, a de reassegurar os militantes da importância da guerra sem quartel contra o inimigo de classe, retratado com todos os paramentos que o tornam execrável: colonialismo, imperialismo, opressão, racismo e genocídio. Se para manter a militância mobilizada for necessário demonizar o sionismo e o Estado de Israel, como os nazistas haviam feito com os judeus, a esquerda, em nome de seus interesses ideológicos, aceita o preço sem hesitar.

A recusa de Arafat e a subseqüente retomada do terrorismo, travestido de luta de libertação nacional, conferem à esquerda anti-sionista o pretexto necessário para interpretar o conflito do Oriente Médio como decorrente da ocupação militar de territórios terceiro-mundistas por parte de um país pertencente ao assim chamado primeiro mundo. O discurso pretensamente ético destina-se a tornar invisível o interesse da esquerda na manutenção da beligerância e a razão de seu apoio ao terror. Conseqüentemente, Israel deverá ser responsabilizada pelo fracasso das negociações, mesmo que seja necessário, mais uma vez, alterar todas as evidências.

Os atuais mecanismos econômicos substituíram o colonialismo e o imperialismo clássicos pela globalização, cuja crítica exige a elaboração de análises capazes de descrever as características do mundo contemporâneo bem como as novas formas assumidas pela hegemonia das potências industriais, mas a esquerda tradicional não está preparada para re-examinar suas concepções e formular as críticas pertinentes às novas formas de desigualdade nas relações entre países e blocos. No plano econômico, a importância cada vez menor da mão de obra e cada vez maior da tecnologia retira da esquerda a sua base tradicional, o que acentua a crise ideológica.

Para as ditaduras do Oriente Médio a paz também é uma ameaça, mas por outros motivos. A manutenção do status quo nas sociedades que governam ditatorialmente tem como uma de suas principais justificativas a necessidade de manter a coesão interna e a mobilização contra o inimigo sionista.

As ditaduras do Oriente Médio e a esquerda tradicional compartilham uma visão de mundo que têm em comum a interpretação dos desenvolvimentos tecnológicos ocorridos nas últimas décadas e suas conseqüências sócio-econômicas como uma ameaça mortal. Trata-se de concepções eminentemente conservadoras, que não hesitam em recorrer às mais severas formas de opressão, quando detêm o poder, e ao terrorismo, no plano das relações internacionais. Nesse quadro, o papel da esquerda oficial tem sido o de fornecer a respectiva justificação ideológica.

O argumento de que os assentamentos (chamados “colônias”) [32] são empreendimentos colonialistas, que justificam o terrorismo, chamado de “resistência armada”, constitui o cerne do mito da ocupação em sua terceira versão.

O terrorismo, porém, é muito anterior aos assentamentos. Podem-se encontrar suas raízes nos ataques de bandos armados às pequenas comunidades rurais judaicas, no começo do século XX e nos “pogroms” de 21, 22, 29, 36 a 39, em que judeus desarmados foram assassinados por turbas enfurecidas, incitadas por clérigos muçulmanos. Logo após a criação do Estado de Israel, na década de 50, os “fedayin”, provenientes de Gaza, ocupada pelo Egito, assim como grupos sediados na Jordânia, infiltravam-se para matar civis israelenses. Posteriormente, na década de 70, o terror recorreu a seqüestro de aviões e assassinatos no exterior (como o dos atletas olímpicos israelenses em Munique e o atentado contra o embaixador de Israel em Londres). O terror desencadeado pela segunda intifada atacou muito mais em Israel do que nos próprios assentamentos.

A palavra “ocupação” é usada conforme as conveniências e com toda a ambigüidade possível. As guerras movidas pelas monarquias e depois ditaduras militares árabes a Israel aparentemente se enquadravam na prática comum dos conflitos bélicos: o inimigo era representado pelas suas forças armadas. Em 1948, porém, os habitantes das povoações judaicas capturadas foram executados e em todas as guerras posteriores os líderes árabes mencionaram expressamente a intenção de destruir o país e sua população. A substituição das guerras pelo terrorismo acentuou esse procedimento. Os ataques aos judeus que moram nos assentamentos são justificados atualmente como resistência à apropriação de território palestino; os cometidos contra civis israelenses no interior da “linha verde” (fronteiras anteriores a 1967) são inseridos no âmbito da “luta de libertação nacional”, significando que todo Israel é “território ocupado”; os ataques a judeus não israelenses em outros países (algo comum atualmente na França, na Alemanha e na Inglaterra) estendem a concepção de inimigo a um grupo étnico.

Seja como for, os terroristas já estão previamente munidos das justificativas necessárias. Seus alvos se estendem da população dos assentamentos aos habitantes de Israel, e podem incluir, quando julgado necessário, israelenses, judeus e não judeus fora do Oriente Médio [33]. Correspondentemente, a jihad ultrapassou os limites que a confinavam à estrela de Davi, atingindo também outros infiéis, cristãos e budistas, por exemplo, assim como deixou de ter Israel como objetivo exclusivo. Os atentados das Torres Gêmeas, de Madrid, de Londres, os constantes ataques na Índia, na Indonésia, nas Filipinas, em Cachemira, em Moscou, mostram que a palavra “ocupação” pode ser usada em qualquer extensão semântica para justificar o terrorismo em qualquer lugar.

As críticas feitas aos assentamentos invocam sempre o “roubo” de terra. Entretanto, o Estado de Israel não procedeu a qualquer tipo de confisco ou desapropriação. As terras nas quais foram construídos os assentamentos não eram particulares. O seu último estatuto legal está relacionado à época do Império Otomano. Nem o Mandato Britânico, concedido provisoriamente pela Liga das Nações com a finalidade de criar as condições para o estabelecimento de dois estados, um árabe e outro judeu, nem os governos jordanianos e egípcio, que exerceram a soberania de fato na região da margem ocidental e da faixa de Gaza, de 1948 a 1967, realizaram quaisquer levantamentos ou tomaram iniciativas no sentido de dar às terras não particulares o caráter de propriedade de estado. Previamente ao erguimento de cada assentamento, o governo israelense publicava editais convocatórios para que qualquer pessoa com direitos sobre a gleba pudesse reivindicar sua propriedade.

Não por acaso as terras em questão careciam de estatuto legal. No que se refere à sua aridez e abandono, repetiu-se a situação com que os primeiros imigrantes judeus se depararam ao chegar à região, em fins do século XIX e início do século XX. Desse ponto de vista, o processo de construção de assentamentos não foi diferente do procedimento pelo qual os judeus ergueram as primeiras fazendas e povoamentos. Foi necessário, mais uma vez, estabelecer a infra-estrutura, ou seja, redes de abastecimento de água, eletricidade e estradas, que, como acontecera meio século antes, beneficiaram igualmente a população local. Só posteriormente é que o terrorismo levou Israel a pavimentar estradas exclusivas para os habitantes dos assentamentos. As redes de abastecimento de água e eletricidade elevaram substancialmente a qualidade de vida da população árabe. De pleno acordo com a tradicional política de impedir o desenvolvimento econômico e social, os governos egípcio e jordaniano não haviam investido na região.

Em conseqüência, e de acordo com o direito internacional, a margem ocidental e a Faixa de Gaza não têm sua soberania definida. A Partilha havia destinado a maioria da região a um estado árabe, mas esse estado não foi criado. Na guerra de 1948, a Judéia e a Samaria (margem ocidental do Jordão) foram tomadas pela Jordânia e a Faixa de Gaza pelo Egito, sem que, à exceção da Grã-Bretanha em relação à Jordânia, a referida apropriação obtivesse reconhecimento. Portanto, a construção de assentamentos não viola qualquer norma do direito internacional, e muito menos os direitos humanos, já que não houve deslocamento de população. Os assentamentos foram voluntariamente estabelecidos por judeus israelenses, e embora também tenham a função de aumentar a segurança de Israel, na região onde o país é mais vulnerável ao ataque terrestre, constituem estabelecimentos civis que se mantêm graças a atividade econômica não prejudicial à população árabe. E, principalmente, algo sempre escamoteado nas acusações feitas pela esquerda oficial, a construção dos assentamentos não implicou na remoção de um único habitante da Cisjordânia.

A recomendação da ONU é que sejam estabelecidas negociações entre as partes para estabelecer um estatuto legal. Foi o que aconteceu em 2000 e 2001, quando o governo Barak repetiu a proposta que Beguin havia feito no final dos anos 70 em relação ao Sinai, e que culminou com o tratado de paz entre Egito e Israel. No âmbito da estratégia “terra por paz”, Barak ofereceu o reconhecimento da soberania da Autoridade Palestina sobre toda a Judéia, Samaria (a margem ocidental do Jordão) e Gaza, com o fim de estabelecer um estado nacional, menos uma pequena porcentagem territorial (de 4% a 6%), que seria compensada com o equivalente em território israelense, bem como a soberania compartilhada sobre Jerusalém. Em troca, Arafat deveria reconhecer o Estado de Israel e comprometer-se definitivamente com o fim da beligerância, a qualquer pretexto que fosse. O resultado seria a paz, mas Arafat recusou a oferta, exigindo o retorno dos assim chamados refugiados a Israel.

Independentemente do fracasso das negociações, todas as evidências mostram que os assentamentos não prejudicam a população local, muito pelo contrário, e ainda menos constituem um obstáculo à paz. Do final da Guerra dos Seis Dias até a entrega do território à OLP, prevaleceu a cooperação entre israelenses e árabes da Cisjordânia. A esquerda oficial, no intuito de caracterizar Israel como potência colonialista, acusa o estado judeu da apropriação de terras e recursos hídricos. Entretanto, a partir de 1967 as cidades da margem ocidental e Gaza passaram por um surto de desenvolvimento inédito. Nesse período deu-se a instalação da rede de água, esgotos e eletricidade, anteriormente inferior a 30%, em praticamente todas as residências. A criação dessa infra-estrutura foi responsável por uma diminuição dramática da taxa de mortalidade infantil e promoveu, através do conseqüente incremento da produtividade, a elevação da renda per capita e do produto nacional bruto, que ultrapassaram os da Síria, Egito e demais países do Oriente Médio, somente permanecendo inferior aos das potências petrolíferas, cuja desigualdade social, porém, impede uma distribuição minimamente justa de tais benefícios. Contrastando com a situação anterior, em que não havia uma única instituição de ensino superior, foram criadas sete universidades, antes proibidas pelo governo jordaniano. A administração israelense limitou-se a cuidar da segurança das fronteiras israelenses, deixando todos os outros aspectos da vida civil a cargo das lideranças locais. O intercâmbio econômico com Israel, tanto em termos de comércio como de mercado de trabalho, elevou ainda mais os índices de desenvolvimento e qualidade de vida.

O processo em questão alarmou os regimes do Oriente Médio, similarmente ao que acontecera meio século antes em decorrência do estabelecimento do Lar Judeu. As iniciativas de paz se intensificaram, com a finalidade de impor a Israel a aceitação da OLP como única representante dos habitantes da Cisjordânia e Gaza, a partir de então denominados “palestinos”. Correspondentemente, em virtude de pressões semelhantes, a Jordânia renunciou à sua soberania sobre a região em 1988. Similarmente o Egito recusou, no âmbito das negociações de paz, retomar a soberania na Faixa de Gaza, oferecida por Israel juntamente com a devolução do Sinai. Na seqüência, a liderança da OLP, com Arafat à frente, pôde retornar da Tunísia, com a promessa de renunciar a qualquer ação armada contra Israel.

A Autoridade Palestina restaurou na margem ocidental e em Gaza o status quo característico das sociedades do Oriente Médio. A burocracia governamental assumiu o controle da economia e dos investimentos internos, impediu o desenvolvimento de uma liderança empresarial bem como a existência de associações profissionais e sindicatos autônomos, impondo o predomínio do estado sobre a sociedade nos mesmos moldes dos demais regimes autoritários da região. O desemprego resultante da queda da atividade econômica, acentuada pelo desencadeamento da campanha terrorista e o confronto com o exército israelense, aumentou a oferta da mão de obra para as milícias terroristas. As medidas tomadas por Israel para conter o terror, como bloqueios de estrada, foram então acusadas de promover a crise econômica gerada pelo governo da OLP — mediante o terrorismo e a corrupção. Os críticos de Israel, por sua vez, capitaneados pela esquerda anti-sionista, não tiveram qualquer dificuldade em atribuir o desemprego e a crise econômica à “potência ocupante”.

Outro argumento repetido pelos críticos dos assentamentos é que os mesmos inviabilizam o estabelecimento do estado palestino. Entretanto, o seu impacto territorial não excede 6% do território da margem ocidental. Os críticos assinalam que somadas as regiões previstas para a sua expansão, bem como as estradas exclusivas para os judeus, essa porcentagem subiria para mais de 10%. Mas as referidas rodovias tornaram-se imprescindíveis, visto os freqüentes ataques contra veículos com placas de Israel. Os mesmos argumentos e contra-argumentos se defrontam no caso dos bloqueios erigidos nas estradas. Israel é acusado de afetar a atividade econômica da região, estrangulando a circulação de pessoas e mercadorias. Mas todas as estatísticas referentes à relação entre bloqueios e prevenção de ataques terroristas comprovam que os bloqueios existem em resposta à atividade terrorista, impedindo com notável eficácia que homens-bomba e mensageiros com explosivos cheguem a Israel. Com referência a esse ponto, observa-se mais uma vez a inversão das evidências; Israel é acusado de obstaculizar a atividade econômica das cidades palestinas, quando é o terror que tem entre seus objetivos provocar uma crise econômica em Israel— o que efetivamente chegou a ocorrer durante a segunda intifada, causa de um decréscimo acentuado no nível dos investimentos.

Mais surpreendente ainda é que jamais tenha ocorrido à esquerda que um acordo de paz poderia resultar na manutenção dos assentamentos, sob soberania palestina. Tudo se passa como se os críticos de Israel entendessem que os governos árabes têm o direito de expulsar os judeus de seu território, como já acontecera na década de 50, da Tunísia ao Iêmen. Novamente pode observar-se a estratégia da “inversão de fatos”. Israel é acusado da “limpeza étnica” efetivamente praticada pelas ditaduras do Oriente Médio e a mesma exigência de expulsão dos judeus volta a ser feita em relação aos habitantes dos assentamentos. Tampouco consta do ideário da esquerda a denúncia do estatuto de dhimmi imposto aos não muçulmanos nas sociedades islâmicas. Verifica-se que as acusações de racismo e discriminação, dirigidas a Israel, caracterizam na verdade o estado de coisas sob as ditaduras regionais. Que a esquerda anti-sionista concorde tacitamente com tais práticas revela plenamente o teor do seu humanismo.

Em Israel, 20% da população, mais um milhão de pessoas, é de origem árabe; já a permanência dos 250 mil habitantes judeus dos assentamentos, em meio a quase 3 milhões de palestinos (ou seja, menos de 10%), é considerada inaceitável. Na peculiar concepção da esquerda e dos “politicamente corretos”, Israel, onde convivem judeus de todos os continentes, árabes muçulmanos e cristãos, drusos, circassianos bem como trabalhadores estrangeiros de várias proveniências (filipinos, chineses, tailandeses), pode ser acusada de práticas de “limpeza étnica” e “deslocamento de população”. O “multiculturalismo” da esquerda oficial consegue a façanha notável de não perceber as diretrizes políticas israelenses em relação a minorias e a proeza ainda maior de ignorar o tratamento da mesma questão por parte das ditaduras do Oriente Médio, inclusive a Autoridade Palestina. A aplicação do rótulo de “ocupantes” aos habitantes dos assentamentos, que vivem de seu trabalho e ajudaram a criar uma infra-estrutura benéfica para todos, mostra que os fatos mais evidentes podem ser facilmente distorcidos por uma concepção ideológica que se julga acima de qualquer compromisso com a realidade.

O anti-sionismo professado pelo islamismo e pelo liberalismo não constitui uma novidade.

O primeiro se insere nas políticas conservadoras de sociedades com profundas diferenças sociais que canalizam a sua aversão à mudança para a minoria judaica, perseguida enquanto representante do “estrangeiro”, metáfora por sua vez do “novo”, do “diferente”. O mesmo processo que aconteceu na Espanha feudal da Reconquista e na Rússia imperial às vésperas da revolução, motivando a Inquisição e os pogroms, repete-se no Oriente Médio. O lugar concedido aos judeus nos países muçulmanos retrata a necessidade de limitar a modernização. A violência anti-semita expressa as restrições que de tempos em tempos as sociedades conservadoras aplicam ao desenvolvimento econômico e político. A criação do Estado de Israel numa região considerada como exclusivamente islâmica, ou seja, em que apenas determinado tipo de organização sócio-econômica teria direito à existência, faz com que o estado sionista receba o mesmo tratamento dado aos judeus nas sociedades muçulmanas.

O anti-sionismo islâmico representa assim a continuação da concepção de que os judeus são dhimmis, ou seja, cidadãos de segunda classe — metáfora de que a modernização deve manter-se em plano secundário para não ameaçar a modalidade de organização hierárquica prevalecente nas sociedades muçulmanas. Nessa perspectiva, que os judeus construam uma nação e que esse país tenha características sociais, econômicas e políticas avançadas é absolutamente inaceitável. De um lado, porque se torna patente que as formações sociais concebidas segundo o modelo do feudalismo médio-oriental não são as únicas possíveis; de outro, porque a mera existência de Israel denuncia a inoperância dos governos ditatoriais da região bem como o caráter ultrapassado e ineficaz da estrutura econômica em que se apóiam. Conseqüentemente, o exemplo israelense tem como contaminar populações submetidas a condições sócio-econômicas injustas e desnecessárias, sobretudo levando em conta que a população árabe de Israel, mais de um milhão de pessoas, vive em condições incomparavelmente melhores do que os cidadãos sem direitos políticos das outras nações do Oriente Médio. Não é surpreendente, portanto, que o anti-sionismo islâmico se combine com uma forte tendência anti-semita. O tratamento dado à minoria judaica nas sociedades muçulmanas expressava uma reação diante da ameaça de transformação, que se repete em relação ao estado sionista. A classe (seria melhor dizer: a casta) dominante das sociedades islâmicas, como todo tipo de poder constituído, não aceita ser destituído.

O anti-sionismo professado pelo liberalismo tampouco difere do modelo clássico de anti-semitismo fundado na competição. A adesão de boa parte da população européia a medidas anti-semitas, principalmente as que restringiam a participação dos judeus nas atividades econômicas e nos cargos públicos, além dos obstáculos colocados à formação profissional (quotas limitadas para ingresso no ensino superior), decorriam das vantagens materiais auferidas. Similarmente, no plano das relações internacionais, a competição pela exploração, refino e distribuição de petróleo, assim como o interesse em obter os benefícios decorrentes da aplicação de petrodólares nas economias nacionais, faz com que a União Européia, os Estados Unidos, o Japão, a Rússia e a China tendam a fazer concessões crescentes às potências petrolíferas, cujas lideranças sentem-se ameaçadas pela existência de Israel.

Conseqüentemente, são constantes, praticamente ininterruptas, as pressões para que Israel abdique de medidas de segurança essenciais para impedir ações terroristas contra sua população, enquanto nada semelhante é exigido da Autoridade Palestina, totalmente desresponsabilizada pela existência das várias e proliferantes organizações terroristas existentes em seu território. Tais pressões decorrem da competição entre as potências e grupos econômicos influentes, que rivalizam pelas vantagens associadas ao petróleo e aos petrodólares. Cria-se assim uma situação inteiramente favorável à política anti-sionista das ditaduras do Oriente Médio, que mantém Israel em xeque, isolada devido aos boicotes e submetida a uma guerra de atrito constante. Dessa maneira, o perigo de contaminação é diminuído e Israel acaba sendo útil enquanto justificativa para a manutenção dos regimes ditatoriais. Nesse sentido, a destruição do estado sionista poderia ser menos interessante do que a sua permanência enquanto inimigo demonizado que justifica a permanente militarização das sociedades islâmicas.

Diferentemente, o anti-sionismo da esquerda tem bases muito mais psicológicas do que materiais. Não se descarta que, em certos casos, universidades, sindicatos e ONGs recebam generosas doações, principalmente da Arábia Saudita, como se revelou no caso da fundação dirigida por Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, cujo livro, a partir do próprio título, associa Israel ao apartheid. Mas, essencialmente, a utilidade do anti-sionismo para a esquerda é de outra natureza.

Numa época em que o fracasso dos regimes comunistas do Leste Europeu e as respectivas violações dos direitos humanos abalam fortemente as concepções econômicas e políticas associadas à economia planificada e à ditadura do proletariado, além da crescente importância auferida pela tecnologia em relação à mão de obra, a esquerda oficial transforma o seu velho adversário, o capitalismo, de modo de produção encarregado de criar as condições para a emergência do socialismo em bode expiatório pela crise moral e intelectual do marxismo tradicional. Da crítica teórica, necessariamente abstrata, passa-se à mobilização da militância contra o inimigo de classe. Assim como o “estrangeiro”, o “diferente”, a “modernidade” foram consubstanciados pelas sociedades européias conservadoras ameaçadas de transformação na figura do judeu, a esquerda tradicionalista procura conjurar o fantasma do colapso da União Soviética e de todas as questões envolvidas no fracasso do socialismo real.

Em outras palavras, como aconteceu com a direita dos estados militaristas europeus no começo do século XX, o conservadorismo da esquerda tradicionalista na era posterior à dissolução da União Soviética recorre a um bode expiatório.

A esquerda serve-se de Israel para demonstrar que o capitalismo não mudou e permanece colonialista, imperialista, belicista, racista e genocida, características que efetivamente deram o tom da expansão européia na época da “acumulação primitiva” e da intervenção americana na América Latina, que culminou com a disseminação das ditaduras militares por praticamente todos os países da região, com raras exceções — Costa Rica, por exemplo.

Para a direita nacionalista européia, a culpabilização de Israel é um bálsamo em relação ao passado colonialista do continente e ao anti-semitismo praticado pelos colaboracionistas, atitude nada rara por parte da população dos países ocupados durante a segunda grande guerra.

Em uma palavra, o anti-sionismo responde a muitos e variados interesses, abrangendo um leque que vai da esquerda à direita.

O processo de descolonização na Ásia, África e Oceania e o crescente distanciamento das administrações americanas em relação ao modelo da intervenção militar, possibilitado pela sofisticação dos mecanismos econômicos representativos da globalização, o que alimenta o debate interno relacionado às exceções representadas pelo conflito com o fundamentalismo islâmico (guerras do Afganistão e do Iraque), faz com que os Estados Unidos deixem de ser um alvo tão perfeito. Mas, principalmente, é o poder americano que dissuade a esquerda, pouco convicta que o outrora tigre de papel possa ser derrotado tão facilmente.

Em compensação, a sobrevivência de Israel assemelha-se a um milagre que não poderia repetir-se indefinidamente. A fragilidade de Israel e sua associação com os Estados Unidos representam um convite permanente para a mobilização da militância e a catequese dos neófitos, além de oferecer uma parcela significativa do botim aos politicamente corretos. A derrocada do “império americano” parece um objetivo utópico, mas a destruição do estado tido como seu procurador no Oriente Médio afigura-se não só plausível como iminente.

A esquerda tradicionalista torna-se então radicalmente anti-sionista. É preciso a todo custo fazer esquecer os crimes cometidos pelas ditaduras do proletariado e o fracasso do socialismo real, recuperar a bandeira da ética e atribuir ao inimigo de classe a exclusividade do exercício do mal. Nada melhor do que uma vitória retumbante, como a da guerra do Vietnã. Desse ponto de vista, a esperada retirada americana do Iraque é considerada um aperitivo.

O mito da ocupação, em sua terceira versão, destina-se a justificar o anti-sionismo da esquerda. Contra todas as evidências, Israel é acusado de roubar terras palestinas, explorar seus recursos naturais, impedir a formação do respectivo estado e exterminar sua população, sempre a serviço dos interesses imperialistas, leia-se americanos, na região.

A satanização do sionismo é a pré-condição para que se aceite a destruição do Estado de Israel, imediatamente ou a médio prazo, conforme o plano B, o do estado bi-nacional.

Similarmente à função cumprida pelo anti-semitismo, o anti-sionismo canaliza contra Israel a poderosa coalizão das forças conservadoras. Nada há no fundamentalismo islâmico que se oponha ao anti-sionismo e ao anti-semitismo, muito pelo contrário. Ambos combinam-se às mil maravilhas com a concepção de mundo professada pelas sociedades ultra conservadoras do Oriente Médio. Já o liberalismo é anti-sionista apenas na medida das conveniências, mas, compensatoriamente, as conveniências constituem um critério inabalável, não sujeito a qualquer interferência relacionada à ética. Na medida em que anti-sionismo e anti-semitismo mantém grande proximidade, apesar dos freqüentes protestos em contrário, o pragmatismo inerente ao pensamento liberal está disposto a aceitar as devidas conseqüências, ainda que a discriminação racial atualmente não constitua uma característica intrínseca de seu ideário. Para o liberalismo, os interesses econômicos, associados aos interesses de estado, base da “Realpolitik”, têm total e completa precedência em relação a qualquer outra preocupação. A Grã-Bretanha, na época do Mandato, manifestou essa atitude até as últimas conseqüências consentindo com o extermínio de judeus europeus, impedidos de desembarcar nas costas do futuro Estado de Israel para não ofender a suscetibilidade da aristocracia local. Trata-se de uma posição plenamente coerente com a primazia do lucro e a busca de hegemonia no plano das relações internacionais. As jazidas de petróleo eram muito mais importantes.

Em relação à esquerda, porém, a resistência à transformação representa uma contradição notável. As decorrências do conservadorismo marxista conduzem a uma série de incongruências, cada vez mais graves. O anti-sionismo da esquerda é a melhor representação possível do pântano ético e ideológico em que se debate atualmente o militante.

Uma das conseqüências da opção anti-sionista da esquerda é sua associação com o revisionismo histórico de direita responsável pela negação do Holocausto. No discurso da esquerda o Holocausto existiu, mas é explorado pelos judeus para autorizar Israel a cometer crimes de estado. Ahmadinejad pode recorrer tanto à direita como à esquerda para justificar suas pretensões de anjo exterminador. A versão da direita apresenta os sionistas como mentirosos, a da esquerda como chantagistas. A esquerda anti-sionista, por sua vez, acrescenta à negação do Holocausto a sua própria versão da história do conflito do Oriente Médio, consubstanciada na omissão deliberada de todas as ameaças e tentativas de destruição por parte das ditaduras do Oriente Médio contra Israel. Conseqüentemente, o revisionismo histórico da esquerda nega a responsabilidade das monarquias e regimes castrenses pelo conflito, com a finalidade de atribuí-la ao colonialismo, imperialismo, racismo e à política genocida do estado judeu. A estratégia do revisionismo histórico da esquerda é fazer supor que os regimes ditatoriais reunidos na Liga Árabe e o Irã nada têm a ver com a “luta de libertação nacional” conduzida pela OLP. A esquerda anti-sionista encarrega-se de “lavar” o terrorismo, assim como políticos e empresários corruptos desenvolvem estratégias para legalizar o dinheiro obtido através de operações ilícitas.

A esquerda é responsável pela demonização de Israel na mesma medida em que o 3º. Reich foi responsável pela demonização dos judeus. No segundo caso, todos aqueles que tinham interesse na propriedade, nos cargos públicos, na parcela de mercado e outras vantagens econômicas e sociais auferíveis mediante as leis raciais, se valeram da justificativa nazista para participar da prisão, expulsão e eliminação dos judeus. A esquerda, através de sua influência considerável na mídia, na academia, nos sindicatos e nas ONGs, prepara o terreno para a aceitação da eliminação de Israel e o correspondente destino de sua população, que seria entregue a fanáticos manipulados pelos governos mais retrógrados do planeta.

Portanto, em nome do anti-americanismo e para recuperar a boa consciência perdida, a esquerda anti-sionista recorre a uma forma particularmente repugnante de discriminação, enquanto se cala diante do genocídio efetivamente cometido por um regime islâmico contra etnias cristãs e animistas, ao mesmo tempo em que fornece a justificativa antecipada para outro possível genocídio, prometido em relação aos judeus israelenses. Associa-se assim a governos que cometem diariamente crimes contra minorias religiosas e sexuais, além de praticarem as modalidades mais extremas de opressão às mulheres. Desse ponto de vista, a esquerda anti-sionista assinou um pacto em tudo e por tudo semelhante ao de Fausto. Vendeu sua alma (sua ética) para prolongar por algum tempo a crença numa imagem que foi destruída sem piedade pelos regimes socialistas sempre que exerceram o poder. Recusando examinar os motivos pelos quais a prática subverteu a tal ponto a teoria, não encontrou outra solução senão recorrer ao mesmo bode expiatório da direita conservadora, deslocando a satanização do judeu para a satanização do sionismo.

* Franklin Goldgrub, Psicólogo, historiador, professor da Faculdade de Psicologia da PUC/SP, autor de O neurônio tagarela, A metáfora opaca e A máquina do fantasma, entre outros livros.

Notas

[1] – A filmografia do 3º. Reich é bastante ilustrativa a esse respeito. Os ratos são perigosos, contaminam, e devem ser extintos para preservar os humanos. Ninguém precisa sentir-se culpado pelo seu extermínio.

[2] – Precedida por um confronto violento entre cristãos e sunitas já em 1958, em que as milícias muçulmanas foram respaldadas pela Síria, no âmbito da guerra fria.

[3] O bloqueio terrestre de Berlim por parte da URSS (1948-49) e a Guerra da Coréia (1950-1953) são momentos em que a Guerra Fria quase perdeu esse qualificativo. É de notar que ambos os episódios aconteceram durante a vigência do poder stalinista.

[4] – Embora nesse caso a mudança tenha ocorrido por via pacífica e a pressão sobre o regime racista houvesse sido exercida igualmente por americanos e europeus.

[5] – O Arquipiélago Gulag foi publicado por Alexander Solhzenitsyn em 1973. Gulag é a sigla, em russo, de “Administração Central dos Campos de Trabalho Correcional”.

[6] – Neste último caso, gerando uma disputa que envolve principalmente EUA, União Européia, China e Rússia.

[7] – O que dá margem a novas versões dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, como a de Stephen Walt e John Mearsheimer. Por outro lado, é preciso lembrar que as companhias de petróleo, interessadas numa política externa favorável aos regimes ditatoriais do Oriente Médio, estão igualmente representadas por grupos de pressão extremamente fortes, sem falar da presença saudita junto ao governo americano.

[8] – Não é que os judeus estão em toda parte… ? Mais uma vez, e revelando uma versatilidade admirável, prestam-se perfeitamente às exigências atuais do papel de bode expiatório.

[9] – Entre elas, o culto à personalidade, que fez do comunismo russo e chinês uma religião baseada na divinização de Stálin e Mao Tsé-Tung, modelo aliás seguido na Coréia do Norte , Albânia, Romênia, etc…

[10] – Ou seja, as correntes que determinam as diretrizes ideológicas e a práxis de governos, partidos, sindicatos, mídia, universidades, etc. considerados progressistas.

[11] – Entre o movimento terceiro-mundista e a Liga Árabe, fundadora e patrocinadora da OLP, há um abismo ideológico.

[12] – Que jamais foi denunciado em tempo hábil pela esquerda como artifício usado por um governo comunista, mas serve agora enquanto referência desligada de sua origem para desautorizar o esforço de Israel em impedir o assassinato de sua população.

[13] – Ainda não se sabe de qualquer israelense, quer judeu, árabe, druso, circassiano ou pertencente a qualquer outra etnia ou religião, que tenha manifestado o desejo de viver no território governado pela Autoridade Palestina; já o contrário acontece diariamente. A população da margem ocidental do Jordão e de Gaza acorre a Israel em grande número para trabalhar e utiliza o casamento para obter a cidadania israelense.

[14] – Ou seja, a mesma tática utilizada pelo Hezbollah na última guerra do Líbano, em que o papel da esquerda como portavoz das acusações mais unilaterais a Israel alcançou níveis inusitados.

[15] – O cartoon em questão obteve o primeiro lugar no concurso da United Kingdom’s Political Cartoon Society e foi publicado pelo The Independent, em 2003; seu autor é Dave Brown.

[16] – Um livro particularmente notável em virtude do detalhamento e da extensão de sua documentação bem como o rigor da respectiva análise é “From time immemorial – The origins of the Arab-Jewish conflict over Palestine”, de Joan Peters, 1984, JKAP Publications, Chicago.

[17] – Designados como White Papers.

[18] – Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha.

[19] – Abdullah ibn Hussein.

[20] – Talvez o índice mais representativo da qualidade de vida.

[21] – “dhimmi” = acordo.

[22] – Um dos argumentos anti-sionistas mais comuns é que Israel pratica a punição coletiva quando enfrenta os terroristas escudados na população civil. Mais uma vez a estratégia da inversão dos fatos fica patente.

[23] – A própria União Soviética foi um dos primeiros países a votar favoravelmente à Partilha, na medida em que a mesma correspondia a seus interesses, na época.

[24] – Quando ocorreram a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Iom Kippur (dia do perdão).

[25] – O episódio, conhecido pela expressão “Setembro Negro”, ocorreu em 1970 e resultou na expulsão de Arafat e sua milícia, que haviam chegado perto de depor o rei.

[26] – Como o Human Rights Watch e a Amnesty International.

[27] – Um dos ataques terroristas em questão — plenamente assumido pela OLP — consistiu na captura de um ônibus em Israel, a partir do qual os terroristas abriram fogo indiscriminadamente contra motoristas na rodovia, causando a morte de todos os reféns — quase 40 pessoas.

[28] – Mais de cento e trinta mortos apenas em março de 2002. Um dos atentados terroristas mais brutais matou cerca de 30 pessoas que participavam da ceia da Páscoa, na cidade de Natania.

[29] – Ou Judéia e Samaria (Shomron), nomes bíblicos, vigentes até que a Grã-Bretanha legitimasse a conquista, por parte da Jordânia, da margem ocidental do Jordão e do setor oriental de Jerusalém, durante a guerra de 1948. A partir de então o Reino da Jordânia, estabelecido pelo Mandato Britânico, transformou-se em Reino da Transjordânia. A Grã-Bretanha foi a única nação que reconheceu a anexação em questão. A Grã-Bretanha, durante a época do Mandato, também foi responsável pela ressurreição do termo “Palestina”, cunhado pelos romanos após a vitória sobre a rebelião judaica, que resultou na expulsão da população do país (70 D.C.), para apagar qualquer relação entre a região e seus habitantes.

[30] – A prática stalinista de excluir de fotos oficiais do partido a imagem dos líderes caídos em desgraça ficou famosa.

[31] – Rabin foi assassinado em 1995 por um membro da direita israelense, cujos partidos se posicionaram contra o reconhecimento de Arafat como parceiro nas negociações de paz e as concessões que Israel faria.

[32] – A semântica constitui mais um dos cenários do conflito. O termo “colônia’ implica em “colonização”, portanto “colonialismo”.

[33] – A Embaixada de Israel em Buenos Aires (1992) e a Asociación Mutual Israel-Argentina (1994) na mesma capital foram destruídas em ações terroristas que, segundo todos os indícios, foram decididas pelo governo iraniano, causando em conjunto mais de cem mortos e grande número de feridos e mutilados.

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2 Responses to A esquerda anti-sionista e o mito da ocupação

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