Uma Visão a Partir do Olho da Tempestade


Por Haim Harari *

O Cenário

“Eu poderia dividir com vocês alguns fatos fascinantes e também alguns pensamentos pessoais acerca do conflito árabe-israelense. No entanto, farei isto apenas de passagem. Prefiro dedicar a maioria de meus comentários ao cenário mais amplo da região e sua relação com outros eventos que ocorrem no mundo. Eu me refiro a uma área entre o Paquistão e o Marrocos, predominantemente árabe e muçulmana, mas que também inclui um número significativo de minorias não-árabes e não-muçulmanas.

Por que eu devo me afastar de Israel e sua vizinhança imediata? Porque Israel e qualquer problema relacionado a ele, a despeito daquilo que se lê ou que se ouve na mídia, não é e nunca foi a questão central na revolta desta região. Sim, há um conflito entre Israel e o mundo árabe, mas que não corresponde à atração principal. As milhões de pessoas que morreram na guerra entre o Irã e o Iraque não têm nada a ver com Israel. O assassinato em massa que está acontecendo agora no Sudão, onde o regime árabe muçulmano está massacrando seus cidadãos negros cristãos, não tem nada a ver com Israel. As notícias freqüentes da Argélia a respeito dos assassinatos de centenas de civis numa vila pelos próprios Argelianos tampouco têm a ver com Israel. Saddam Hussein não invadiu o Kuwait ou colocou em risco a Arábia Saudita matando seu próprio povo por causa de Israel.

O Egito não usou gás venenoso contra o Yêmen nos anos 60 por causa de Israel. Assad, o pai, não matou milhares de seus cidadãos em uma semana em El Hamma na Síria por causa de Israel. O controle do Afeganistão por parte do Taliban e a guerra civil que se deu não têm qualquer relação com Israel, e eu poderia prosseguir indefinidamente. A raiz do problema é que toda esta região muçulmana é completamente disfuncional, em todos os sentidos da palavra, e assim continuaria sendo, ainda que Israel tivesse se unido à Liga Árabe e uma Palestina independente tivesse existido por cem anos. Os 22 países membros da Liga Árabe, desde a Mauritânia até os Estados do Golfo, possuem uma população total de 300 milhões, maior que a dos Estados Unidos e quase tão grande quanto a da União Européia antes da sua expansão. Eles possuem um território maior que o dos Estados Unidos e de toda a Europa. Estes 22 países, com todo seu petróleo e recursos naturais, têm, juntos, um PIB menor que o da Holanda e a Bélgica juntas, e igual à metade do PIB da Califórnia. O abismo entre os ricos e os pobres é inacreditável e muitos ricos obtiveram seu dinheiro, não através do sucesso nos negócios, mas como líderes corruptos. O status social da mulher está muito abaixo daquilo que já foi no mundo ocidental há 150 anos atrás. Os direitos humanos estão abaixo de qualquer padrão razoável, apesar do fato grotesco da Líbia ter sido eleita Presidente da comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. De acordo com um relatório preparado por um comitê de intelectuais árabes e publicado sob a vigilância das Nações Unidas, o número de livros traduzidos pelo mundo árabe inteiro é muito menor do que aquele que a pequena Grécia sozinha traduz. O número total de publicações científicas dos 300 milhões de árabes é menor do que o dos 6 milhões de israelitas. A taxa de natalidade da região é muito alta, o que contribui para a pobreza, a lacuna social e o declínio cultural. Tudo isso acontece numa região que há apenas 30 anos atrás era tida como a futura parte rica do mundo e numa área muçulmana que desenvolveu, em algum momento da História, uma das culturas mais avançadas do mundo.

Não seria exagero afirmar que este cenário socio-econômico-social criou um território fértil para ditadores cruéis, redes de terrorismo, fanatismo, assassinatos suicidas e um declínio geral. Também é fato que quase todos os habitantes da região culpam os EUA, o Cristianismo, Israel, o Judaísmo, ou a Civilização Ocidental por esta situação. Culpam tudo e todos, menos eles mesmos.

Será que digo isto com a satisfação de alguém que discute o fracasso dos seus inimigos? Pelo contrário, eu acredito firmemente que o mundo teria sido um lugar muito melhor e minha própria vizinhança fosse um lugar muito mais agradável e se as coisas tivessem sido diferentes.

Eu devo dizer também uma palavra sobre as milhões de pessoas boas, decentes e honestas que são muçulmanas devotas ou não tão religiosas, mas que cresceram em famílias muçulmanas. São elas duplas vítimas de um mundo exterior que agora desenvolve uma “islamofobia” do seu próprio ambiente, sendo absolutamente disfuncional e partindo o coração deles. O problema é que a maioria silenciosa desses muçulmanos não faz parte do terror, mas tampouco lutam contra ele. Tornam-se cúmplices por omissão, e isso se aplica a líderes políticos, intelectuais, pessoas de negócios e muitos outros. Muitos certamente sabem a diferença entre o certo e o errado, mas temem expressar suas opiniões.

Pilares do conflito mundial

Os eventos destes últimos anos têm ampliado quatro questões que sempre existiram, mas nunca foram tão cruciais como no presente momento. São os quatro pilares principais do atual Conflito Mundial ou, talvez já possamos nos referir a ele como “a Terceira Guerra Mundial não declarada”. Eu não tenho um nome melhor para a presente situação. Talvez mais alguns anos se passem antes que todos reconheçam que isto é de fato uma guerra mundial, mas já está bem encaminhada.

O primeiro elemento é o assassinato suicida. Assassinatos suicidas não constituem uma nova invenção, mas se tornaram populares, se me permitem a expressão, apenas recentemente. Mesmo depois do 11 de setembro, parece que a maioria do mundo ocidental ainda não compreendeu esta arma. É uma arma psicológica muito potente. Seu impacto real direto é relativamente pequeno. O número total de vítimas das centenas de assassinatos suicidas em Israel nos últimos 3 anos é menor que o número de vítimas de acidentes de automóveis. O 11 de setembro foi quantitativamente muito menos letal do que muitos terremotos. Mais pessoas morrem de AIDS em um dia na África do que todos os russos que morreram nas mãos dos assassinos suicidas muçulmanos da Chechenia desde que o conflito começou. Saddam matou mais pessoas a cada mês do que todos aqueles que morreram nos assassinatos suicidas desde a ocupação do Iraque pela Coalizão.

Então, por que tanto alvoroço em torno desses assassinatos suicidas? Porque viram notícia. São espetaculares. São assustadores. São mortes muito cruéis com corpos desmembrados e horríveis ferimentos que podem permanecer ao longo do resto da vida das vítimas. Sempre são mostrados na TV detalhadamente. Um tal assassinato, com a ajuda histérica da mídia, pode destruir a indústria de turismo de um país por muito tempo, como aconteceu em Bali e na Turquia.

Mas o medo real vem do fato indiscutível de que nenhuma defesa ou medida preventiva pode funcionar contra um assassino suicida determinado. Isto ainda não penetrou o pensamento ocidental. Os EUA e a Europa estão constantemente aprimorando seus sistemas de defesa contra o último atentado, mas não contra o próximo. Podemos ter a melhor segurança nos aeroportos… mas, se você quiser cometer um assassinato suicida, não é preciso entrar num avião para matar muitas pessoas.  Quem poderia impedir um assassinato no meio de uma fila cheia de pessoas esperando par serem revistadas? E as filas nos balcões de “check in” num período de viagens mais conturbado? Coloque um detector de metais na frente de cada estação de trem da Espanha e os terroristas andarão de ônibus.

Proteja os ônibus e eles explodirão cinemas, salas de concertos, supermercados, shoppings, escolas e hospitais. Ponha guardas em frente de cada sala de concerto e haverá uma fila de pessoas a serem checadas por guardas e essa fila será o alvo, sem falar da morte dos próprios guardas. Você pode, de alguma maneira, reduzir sua vulnerabilidade com medidas preventivas e defensivas e com rígidos controles de fronteira, mas não a eliminará e definitivamente não vencerá a guerra de maneira defensiva. E é uma guerra!

O que está por trás dos assassinos suicidas? Dinheiro, poder e incitamento a assassinatos a sangue frio, nada mais. Não tem nada a ver com verdadeiras crenças fanático-religiosas. Nenhum pregador muçulmano jamais explodiu a si mesmo! Nenhum filho de politico árabe ou líder religioso jamais se explodiu. Nenhum parente de alguém importante já o fez. Você não esperaria que algum líder religioso fizesse isso ele mesmo, ou que seus filhos o fizessem, se isso fosse um supremo ato de fervor religioso? Não estariam eles interessados nos benefícios oferecidos no céu? Ao invés disso, eles enviam mulheres rejeitadas, crianças ingênuas, pessoas retardadas e jovens com a cabeça quente. Prometem a eles mil maravilhas, a maioria delas de ordem sexual, no próximo mundo, e pagam generosas somas às suas famílias após o ato supremo ter sido realizado e quando um número suficiente de inocentes tiver sido morto.

Arma psicológica e publicitária

Assassinatos suicidas tampouco estão relacionados com pobreza ou desespero. A região mais pobre do mundo é de longe a África. Eles nunca acontecem lá.

Há inúmeras pessoas desesperadas no mundo, de diferentes culturas, países e continentes. O desespero não fornece a ninguém explosivos, reconhecimento ou transporte. Certamente havia mais desespero no Iraque de Saddam do que no de Paul Bremmer e ninguém se explodiu. Um assassinato suicida é apenas uma arma terrível utilizada por terroristas cínicos, cruéis e desumanos, sem qualquer consideração pela vida humana, incluindo aquela dos seus próprios compatriotas, mas  com muita consideração por seu próprio bem estar e sede de poder.

A única maneira de combater esta arma “popular”, de efeito mais psicológico e publicitária do que militar, é idêntica à única maneira de combater o crime organizado ou piratas em alto mar: de modo ofensivo. No caso do crime organizado, é crucial que as forças ofensivas sejam unidas e que alcancem o topo da pirâmide do crime. Não se pode eliminar o crime organizado prendendo o pequeno traficante de esquina. É preciso ir atrás do líder da “família”. Se parte do público apoiam-no, outros o toleram, muitos o temem e outras ainda o justificam com explicações relacionadas à pobreza e a infâncias miseráveis, o crime organizado assim como o terrorismo irão prosperar. Depois do 11 de setembro, os EUA compreenderam isso. A Rússia está começando a entendê-lo. A Turquia o entende bem. Temo que a maioria da Europa ainda não compreenda bem. Infelizmente, parece que a Europa só entenderá depois de muitos outros episódios deste tipo. Na minha humilde opinião, muitos outros ainda acontecerão. Os trens na Espanha e as bombas em Istambul são apenas o começo.

Necessária União

A união do mundo civilizado na luta contra o horror é absolutamente indispensável. Enquanto a Europa não acordar, essa união não se dará.

O segundo ingrediente são palavras, mais precisamente, mentiras. Palavras podem ser letais. Elas matam pessoas. Diz-se freqüentemente que políticos, diplomatas e talvez advogados e pessoas de negócios também mintam como parte de suas vidas profissionais. Mas as normas da diplomacia e da política são infantis se comparadas com o nível de incitação e de absoluta fabricação deliberada que tem atingido a região da qual falamos. Um incrível número de pessoas do mundo árabe acredita que o 11 de setembro nunca aconteceu, ou foi apenas uma provocação americana, ou, melhor ainda, um plano dos judeus.

A mentira como arma

Todos vocês se lembram do Ministro da Informação iraquiano, o Sr. Mouhamad Said al-Sahaf e suas conferências para a imprensa, quando as tropas norte americanas já estavam dentro de Bagdá. A desinformação numa época de guerra é uma forma aceita de tática. Mas fazer afirmações tão absurdas, dia após dia, mentiras descaradas, sem sequer ser ridicularizado em seu próprio meio, poderia acontecer apenas nessa região. O Sr. Shaf eventualmente se tornou um ícone popular como um bobo da corte, mas isto não impediu que alguns jornais supostamente respeitáveis dessem a ele bastante oportunidades para se expressar. Também não impediu que a imprensa ocidental desse crédito, todos os dias, até hoje, a muitas destas mentiras. Afinal de contas, se alguém quiser ser um anti-semita, há maneiras sutis de fazê-lo. Não é necessário alegar que o holocausto nunca aconteceu e que o templo judeu em Jerusalém nunca existiu. Mas milhões de muçulmanos ouvem exatamente isso de seus líderes. Quando os mesmos líderes fazem outras afirmações, a mídia ocidental nos dá a entender que pode ser verdade.

Diariamente, as mesmas pessoas que financiam, fornecem as armas e encaminham os assassinos suicidas, também condenam tais atos em inglês na frente das câmeras ocidentais, falando a um público mundial, uma parte da qual realmente acredita neles.  É uma rotina diária ouvir o mesmo líder fazendo afirmações contraditórias em árabe para o seu povo e em inglês para o resto do mundo. A incitação por parte da TV da Arábia, acompanhada por cenas horrorosas de corpos mutilados, se tornou uma arma poderosa daqueles que mentem, distorcem e querem destruir tudo. Crianças pequenas são nutridas com ódio profundo e muita admiração pelos tais mártires, e o mundo ocidental não repara nisso, porque suas próprias televisões costumam estar ligadas em telenovelas ou shows. Eu recomendo a vocês, apesar de a maioria não entender árabe, que assistam Al Jazeera de tempos em tempos. Vocês não acreditarão em seus próprios olhos.

Mas palavras também funcionam de maneiras mais sutis. Uma demonstração em Berlim, com bandeiras que apóiam o regime de Saddam e bebês de três anos vestidos como assassinos suicidas, é definida pela mídia e por líderes políticos como sendo uma “demonstração pacífica”. Pode-se apoiar ou não a guerra do Iraque, mas se referir aos fans de Saddam, Arafat ou Bin Laden como ativistas pacíficos é um pouco demais. Uma mulher entra em um restaurante israelense ao meio dia, come, observa famílias com idosos e crianças almoçando nas mesas ao lado e paga a conta. Depois ela se explode matando 20 pessoas, incluindo muitas crianças, com cabeças e braços rolando pelo restaurante. É chamada de “mártir” por líderes árabes e de “ativista” pela imprensa européia. Alguns dignatários condenam o ato, mas visitam sua família desolada e o dinheiro corre. Há um novo jogo na cidade. O verdadeiro assassino é chamado de “ala militar”, e quem o paga, fornece os equipamentos e o envia é agora chamado de “ala política”, e o chefe de tudo é chamado de “líder espiritual”. Há inúmeros outros exemplos de tais nomenclaturas orwellianas, usadas todos os dias não apenas por chefes do terror, mas também pela mídia ocidental. As palavras são muito mais perigosas do que muitos supõem. Elas fornecem uma infra-estrutura emocional para atrocidades.  Foi Joseph Goebels quem disse que se uma mentira é repetida suficientemente as pessoas acabarão acreditando. Ele agora está sendo superado pelos seus sucessores.

O terceiro aspecto é o dinheiro. Quantidades enormes de dinheiro, que poderiam ter resolvido muitos problemas sociais nesta parte disfuncional do mundo, são canalizadas rumo a três esferas concêntricas que apóiam os assassinatos e as mortes. No círculo de dentro há os terroristas propriamente ditos. O dinheiro financia suas viagens, explosivos, esconderijos e procura permanente por alvos macios e vulneráveis. Em volta deles há um círculo maior daqueles que apóiam, planejam e comandam diretamente, todos tirando seu sustento, que é normalmente bem abundante, servindo à infra-estrutura do terror.

Terceiro círculo

Finalmente, encontramos o terceiro círculo das assim chamadas organizações religiosas, educacionais e beneficentes, que fazem de fato algum bem, alimentam os que estão com fome e fornecem algum tipo de escola, mas realizam uma lavagem cerebral na nova geração, enchendo-a de ódio, mentiras e ignorância. Esse círculo opera normalmente através de mesquitas e outros estabelecimentos religiosos, mas também através da mídia escrita e eletrônica. É este círculo que garante que as mulheres permaneçam inferiores, que dizem a democracia ser impensável e que não permitem qualquer exposição ao mundo exterior. É este círculo também que culpa a todos fora do mundo muçulmano pelas misérias da região.

Falando de modo figurado, este círculo de fora é o guardião que garante que as pessoas vejam e ouçam o primeiro círculo do terror, ao invés do mundo lá de fora. Algumas partes deste mesmo terceiro círculo, na verdade, operam como resultado do medo ou de chantagens vindas dos outros dois círculos. Outro fator horrível a ser acrescentado é a alta taxa de natalidade. Metade da população do mundo árabe está abaixo de 20 anos de idade, a idade mais receptiva à incitação, o que garante mais duas gerações de ódio cego.

Dos três círculos descritos acima, os primeiros são financiados principalmente por estados terroristas como o Iran e a Síria, e até recentemente, pelo Iraque e pela Líbia também, como também por alguns regimes comunistas. Estes estados, bem como as autoridades palestinas, são a segurança dos assassinos. O último círculo é financiado principalmente pela Arábia Saudita, mas também recebem doações de certas comunidades muçulmanas, dos EUA e da Europa, e , em menor grau, doações européias para várias ONGs e por certas organizações das Nações Unidas, cujos objetivos podem até ser nobres, mas são infestados e explorados por agentes do terceiro círculo. O regime da Arábia Saudita, é claro, será a próxima vítima do terror, quando o primeiro círculo explodir no terceiro. Os sauditas estão começando a entendê-lo, mas lutam contra os primeiros círculos, ainda financiando a infra-estrutura do terceiro.

Alguns dos líderes desses círculos vivem muito confortavelmente graças a eles. Encontramos seus filhos nas melhores escolas privadas da Europa, e não nos campos de treinamento dos assassinos suicidas. Os soldados do “Jihad”se envolvem com passeios de morte ao Iraque e a outros destinos enquanto alguns de seus líderes estão esquiando na Suíça. A viúva de Arafat que vive em Paris com sua filha, ainda recebe milhares de dólares por mês da autoridade palestina supostamente falida, enquanto que um típico líder do Al-Aksa, recebe apenas um pagamento de algumas centenas de dólares por praticar seus assassinatos.

O quarto fator

O quarto elemento do atual conflito mundial é a total quebra de toda e qualquer lei. O mundo civilizado acredita na democracia, nas leis, incluindo as internacionais, direitos humanos, liberdade de expressão e de imprensa, entre outras. Há alguns hábitos que apesar de corretos, jutos e éticos para os ocidentais, são considerados militarmente ingênuos e antiquados pelos comandos árabes, como por exemplo respeitar certos símbolos e locais religiosos, não utilizar ambulâncias ou hospitais para atos de guerra, evitar a mutilação de corpos mortos e não usar crianças como escudos ou bombas humanas. Nunca, ao longo da história, nem no período nazista, houve tanto desrespeito a tais hábitos como vemos agora. Hoje todo aluno de Ciências Políticas debate como é possível prevenir que uma força anti-democrática ganhe uma eleição democrática para depois abolir a democracia. Outros aspectos de uma sociedade civilizada também precisam de limites. Um policial pode atirar contra alguém que está tentando matá-lo? O governo pode ouvir a conversa por telefone de terroristas e traficantes de drogas? O direito à liberdade de expressão o protege quando você grita “fogo” em um cinema lotado? Deveria haver pena de morte para múltiplos assassinatos deliberados? Estes dilemas são antiquados. Mas temos agora um novo grupo deles.

É correto invadir uma mesquita que serve como local de armazenamento de munição de terroristas? Pode-se contra-atacar tiros vindos de um hospital? Pode-se invadir uma igreja dominada por terroristas que fizeram dos padres reféns? Revista-se cada ambulância depois que alguns assassinos suicidas as utilizaram para atingir seus alvos? Despe-se e revista-se cada mulher porque uma delas fingiu que estava grávida enquanto carregava uma bomba em sua barriga? Atira-se em alguém que está tentando te matar e que se posiciona intencionalmente em frente a um grupo de crianças? Invadem-se sedes terroristas escondidas em hospitais psiquiátricos? Atira-se em um arquiassassino que deliberadamente se move de um a outro local sempre cercado por crianças? Tudo isso acontece diariamente no Iraque e em áreas palestinas. O que deve ser feito? Bem, ninguém quer encarar este dilema. Mas ele não pode ser evitado e se nada for feito em breve elas estarão sendo realizadas na Europa, Estados Unidos e outras regiões do mundo.

Suponhamos, somente a título de discussão, que alguém ficaria em um endereço bem conhecido em Teerã, hospedado pelo governo iraniano e também financiado por ele, executando uma atrocidade após outra na Espanha ou na França, matando centenas de pessoas inocentes, aceitando a responsabilidade pelos crimes, prometendo cometer mais dos mesmos atos em entrevistas públicas na TV, enquanto o governo iraniano condena tais atos publicamente, mas continua a hospedá-lo, convidá-lo para cumprir funções oficiais e o tratam como um grande dignatário. Deixo como vocês essa pertinente pergunta (dado às características desta guerra) para que avaliem em suas casas o que a Espanha ou a França fariam em tais situações.

Ilusões do Ociedente

O problema é que o mundo civilizado ainda tem ilusões com relação à obediência às leis em um ambiente totalmente sem lei alguma. Estão tentando jogar hockey no gelo enviando uma bailarina patinadora no rinque ou nocautear um boxeador peso pesado com um jogador de xadrez.

Da mesma maneira que nenhum país tem leis contra canibais comerem o primeiro ministro, pois tal ato é impensável, leis internacionais não dizem nada a respeito de assassinos que atiram dos hospitais, mesquitas e ambulâncias, enquanto são protegidos por seus governo e sociedade. A lei internacional não sabe como lidar com alguém que manda crianças atirarem pedras, fica atrás delas enquanto atira com imunidade e que não pode ser preso porque está protegido pelo seu governo. A lei internacional não sabe como lidar com um líder de assassinos que está confortavelmente hospedado por um país que publicamente diz condenar seus atos ou alega não poder prendê-lo. O mais impressionante é que alguns desses impostores exigem proteção sob a lei internacional e definem todos aqueles que os atacam como criminosos de guerra ou terroristas de estado, enquanto a mídia ocidental repete e torna públicas tais declarações. A boa notícia é que tudo isso é temporário, porque a evolução da lei internacional sempre se adaptou à realidade. A punição por um assassinato suicida deveria ser a morte ou prisão antes que o crime fosse cometido, não durante ou depois. Após cada guerra mundial, as leis internacionais mudam e o mesmo acontecerá agora. Mas, enquanto isso, muitos danos será causados.

O cenário que descrevo aqui não é nada bonito. O que pode ser feito?

A curto prazo, apenas lutar e vencer. A longo prazo? Apenas educar a próxima geração e abri-la para o mundo. Os primeiros círculos podem e devem ser destruídos pela força. O último não pode ser eliminado por ela. Neste caso, precisamos privar a elite organizadora de seus recursos financeiros, dar mais poder às mulheres, mais educação, fazer contra-propaganda e criar um acesso à mídia ocidental e ao cenário internacional. Sobretudo, precisamos de uma absoluta unidade e determinação do mundo civilizado contra os três círculos do mal.

Permitam-me, por um momento, sair do meu papel de motorista de taxi e voltar à ciência. Quando se tem um tumor maligno, é possível removê-lo cirurgicamente. Também é possível desnutri-lo, impedindo que sangue novo chegue até ele e, portanto, impedindo que ele possa se expandir. Se quiser garantir, é melhor fazer ambas as coisas.

Estamos em guerra e poucos se apreceberam

Mas antes que se lute e que se ganhe, pela força ou da maneira que for, é preciso perceber que se está em Guerra. Os Estados Unidos já está começando a perceber isto, mas a Europa ainda precisará de algum tempo. Para ganhar, é necessário, primeiro, eliminar os regimes terroristas de tal modo que nenhum governo no mundo dê abrigo a estas pessoas. Eu não quero comentar se o ataque liderado pelos norteamericanos ao Iraque é justificável por causa das armas de destruição em massa ou qualquer outro argumento pré-guerra. Mas posso dar uma olhada no mapa pós-guerra da Ásia ocidental. Agora que o Afeganistão, a Líbia e o Iraque estão fora, dois estados e meio terroristas ainda restam: o Irã, a Síria e o Líbano, o último sendo uma colônia da Síria. Talvez o Sudão deva ser acrescentado à lista. Como resultado da conquista do Afeganistão e do Iraque, tanto o Irã quanto a Síria estão agora cercados por territórios não amigos. O Irã está cercado pelo Afeganistão, os Estados do Golfo, o Iraque e as repúblicas muçulmanas da ex-União Soviética. A Síria está cercada pela Turquia, Iraque, Jordânia e Israel. Esta é uma mudança estratégica significativa e promove uma forte pressão nos países terroristas. Não é de se estranhar que o Irã procure tanto incitar uma revolta xiita no Iraque. Não sei se o plano americano era realmente o de cercar tanto o Irã quanto a Síria, mas esta é a situação resultante.

Na minha humilde opinião, o perigo número um do mundo hoje é o Irã e seu regime. Há definitivamente uma ambição de dominar vastas áreas e de expandir seu território. Há uma ideologia que alega supremacia sobre a cultura ocidental. É desumana. Este país já deu provas de que pode executar atos terroristas elaborados sem deixar muitas pistas, utilizando embaixadas do Irã. Está claramente tentando desenvolver armas nucleares. Seus assim chamados moderados e conservadores jogam sua própria versão virtuosa do jogo de “bons policiais” versus “maus policias”. O Irã financia o terrorismo sírio, está certamente por trás de muitas ações do Iraque, financia totalmente o Hezbolah, e através dele, o Hamas da Palestina e o Jihad islâmico, pratica atos de terror pela Europa e América do Sul, como provavelmente também no Uzbequistão e na Arábia Saudita. Lidera também um verdadeiro consórcio multinacional do terror, que inclui, como jogadores menores a Síria, o Líbano e alguns elementos xiitas no Iraque. Ainda assim, a maioria dos países europeus ainda faz comércio com o Irã, tenta minimizar a situação e ainda não teve capacidade para ler esses sinais tão claros.

Para ganhar esta guerra também é necessário secar os recursos financeiros do conglomerado do terror. É inútil tentar entender as diferenças sutis entre o terror do Sunni, da Al Qaeda e do Hamas e o terror xiita do Hesbolah,  Sadr e outros negócios iranianos. Quando é do interesse de qualquer um deles, todos colaboram entre si maravilhosamente.

É crucial impedir qualquer apoio financeiro ao último círculo, que é o terreno fértil do terror. É importante monitorar qualquer doação por parte do mundo ocidental às organizações islâmicas, monitorar as finanças de organizações internacionais de ajuda e reagir com medidas econômicas brutais no caso de qualquer sinal de ajuda financeira a qualquer um dos círculos do terrorismo. É também importante agir decisivamente contra a campanha de mentiras e fabricações e monitorar a mídia ocidental que colabora com tais mentiras por motivos ingênuos, interesse financeiro. Ignorância, alienação ou motivos políticos inconfessáveis.

Jamais ceder

Sobretudo, precisamos não ceder ao terror. Ninguém jamais saberá se as últimas eleições da Espanha teriam tido um resultado diferente não fossem as bombas que explodiram no trem alguns dias antes. Mas isso realmente não importa. O que importa é que os terroristas acreditam que causaram tal resultado e que venceram ao afastar a Espanha do Iraque. O resto da europa, principalmente a França, pagará um alto preço pelo exemplo da Espanha. Porém, a longo prazo, será a própria Espanha que pagará a conta mais alta.

A solução seria, então, um mundo árabe democratizado? Se por democracia entendemos eleições livres, imprensa livre, liberdades de expressão, religião e políticas, um sistema judicial que funcione, liberdades civis, igualdade para as mulheres, viagens internacionais livres, exposição a idéias e à mídia internacional, leis contra a incitação racial e difamação e a não permissão de comportamentos que infringem a lei – em relação a hospitais, lugares de veneração e crianças, então sim, a democracia é a solução. Se entendemos por democracia apenas eleições livres, o mais provável é que o regime mais fanático será eleito, aquele cujas incitações e fabricações sejam as mais inflamadas. Já vimos isso na Argélia e, até certo ponto, na Turquia. Acontecerá de novo, se o chão não for cuidadosamente preparado. Por outro lado, uma certa democracia transitória, como a da Jordânia, pode ser uma solução temporária melhor, abrindo caminho para a verdadeira mudança, do mesmo modo que uma democracia imediata não funcionou na Rússia e não teria funcionado na China.

Quanto custará esta vitória?

Não tenho nenhuma dúvida de que o mundo civilizado irá permanecer. Mas quanto mais demorarmos para entender o novo cenário desta guerra, mais custosa e dolorosa será nossa vitória. A Europa, mais do que qualquer outra região, é a chave. Seu recolhimento compreensível face à guerra, depois dos horrores da Segunda guerra, pode custar mais milhões de vidas inocentes antes da virada da maré.

* Haim Harari, físico teórico, membro do Instituto de Ciências Davidson e ex-prediente (1988-2001) do Instituto Weizmann de Ciências – período no qual consegui mais de um bilhão de dólares em recursos filantrópicos que transformaram esse Instituto de Pesquisas em uma das organizações acadêmicas mais conceituados do mundo.

Nota

Este texto é um resumo de Palestra proferida pelo professor Haim Harari no Conselho Consultivo Internacional de uma grande corporação multinacional, em abril de 2004

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