Calvinistas islâmicos


Gerald Knaus*

 

 

Algumas atitudes religiosas promovem o desenvolvimento econômico? Ou é o contrário? O desenvolvimento leva as pessoas a adotar interpretações de sua fé que a tornam compatível com o enriquecimento? A questão é um antigo dilema da teoria social, e o debate continuará inconcluso.

Em 2000, o historiador de Harvard David Landes publicou um ensaio sobre desenvolvimento intitulado “Cultura faz quase toda a diferença”, tomando como ponto de referência Max Weber. Landes defende a tese de Weber da ética do trabalho protestante e do espírito do capitalismo contra seus muitos críticos. Ele afirma ser um fato que no norte da Europa no início da era moderna “a religião incentivou o aparecimento em grande número de um tipo de personalidade que antes havia sido excepcional e acidental, e que esse tipo criou uma nova economia que conhecemos como capitalismo industrial”.

Para ilustrar a relevância do argumento hoje, Landes refere-se à história contemporânea: “Poderíamos ter previsto o sucesso econômico do Japão e da Alemanha no pós-guerra levando em conta a cultura. O mesmo vale para a Coréia do Sul versus Turquia”.

O argumento não é novo. Arthur Lewis, um importante economista do desenvolvimento do século 20, afirmou que alguns códigos religiosos são mais compatíveis com o crescimento econômico do que outros. Discutindo os muçulmanos na Índia, Lewis sugeriu que a maneira como se praticava o islamismo era inimiga do desenvolvimento, encorajando o fatalismo e reprimindo a inovação. Na Turquia, os secularistas foram mais longe e disseram que o desenvolvimento bem-sucedido exigia a retirada do islã.

Em setembro de 2005, o grupo de pensadores European Stability Initiative (ESI) publicou um relatório intitulado “Calvinistas islâmicos – Mudança e conservadorismo na Anatólia central”. O estudo conta a história da transformação a partir do início dos anos 1980 das cidades comerciais e economias rurais da Anatólia para prósperos centros manufatureiros.

Trata-se da ascensão de uma nova classe média urbana e do surgimento de bairros industriais muçulmanos no coração da Turquia. Também busca responder a uma pergunta que muitos observadores fizeram nos últimos anos: o governo Erdogan (no poder desde 2002), que tem raízes no islamismo político, busca as reformas de mercado e a integração européia com o apoio da população da Anatólia central?

Descrevemos uma Anatólia central onde o sucesso econômico e o desenvolvimento social criaram um ambiente em que o islã e a modernidade coexistem confortavelmente. A prática do islamismo na Turquia, dissemos, na verdade sofreu a reforma silenciosa que muitos consideravam impossível. Descrevemos diversos empresários da Anatólia central que acreditam que “abrir uma fábrica é uma espécie de oração”.

O relatório criou uma tempestade na mídia da Turquia, e alguns arqui-secularistas o reprovaram veementemente. O ministro das Relações Exteriores Abdullah Gul declarou-se um calvinista islâmico em várias entrevistas. Enquanto as tensões entre a União Européia e a Turquia voltam a crescer – e ressurgem rumores de um golpe militar -, a questão da incompatibilidade do islamismo com a modernidade na Turquia continua polêmica.

Os calvinistas islâmicos da Anatólia não devem passar despercebidos…

 

*Gerald Knaus é diretor fundador do ESI, um grupo de pensadores baseado em Berlim

 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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