D’us não morreu em Auschwitz


Por Rabino Adin Even Israel Steinsaltz

A primeira Guerra Mundial estourou em Tish’á Beav. A primeira motivou a segunda, e a segunda trouxe consigo uma série de episódios tristes, marcantes e inesquecíveis de nossa história que ficarão para sempre registrados nos braços de nossos avós e no coração de nossos filhos. Marcas que o tempo jamais apagará, mas certamente terão como resposta a verdadeira teshuvá, de centenas de milhares de judeus, especialmente de jovens, que hoje retornam cada dia mais à D’us e ao cumprimento de Seus preceitos. Ele sempre esteve, sempre está e sempre se encontrará ao nosso lado.

Elie Wiesel, reconhecido universalmente como o escriba do Holocausto, resumiu nossa singularidade com estas palavras: “Somos a mais amaldiçoada de todas as gerações e somos a mais abençoada de todas as gerações. Somos as gerações de Job, mas somos também a geração de Jerusalém.”

Os historiadores podem bem registrar o genocídio tentado contra nosso povo e o subseqüente retorno à nossa prometida terra natal como os dois maiores eventos de significado religioso do século XX. Mesmo assim há outra realidade da vida judaica, sustentando-se na esteira do Holocausto e o nascimento do Estado de Israel, o que poderia provar como tendo significado ainda maior. O inenarrável assassinato de seis milhões de inocentes – que pereceram apenas por ser judeus – levou os sobreviventes a buscar um melhor entendimento de sua tradição e legado, que havia quase sido apagado.

A suprema ironia da era pós-nazista é que a “Solução Final” foi na verdade seguida por um renascimento religioso, um movimento de ba’alei teshuvá – pessoas retornando à fé – nunca antes testemunhado em toda a história judaica, tanto em intensidade como em quantidade.

D’us não morreu em Auschwitz. Aquilo que foi declarado claramente a Moshê por meio de uma metáfora no seu primeiro encontro com o Todo Poderoso, tornou-se milagrosamente manifesto quando contemplamos o fracasso de Hitler – o Haman do nosso século, que buscou a total destruição de nosso povo. Por que D’us apareceu a princípio ao homem selecionado para a liderança numa “sarça ardendo com fogo, e o arbusto não foi consumido”? Claramente, a intenção não era demonstrar que D’us podia realizar um milagre. Qualquer um, de um número infinito de assombrosos feitos mágicos, poderia ter sido escolhido. Mas o seneh – a palavra hebraica para arbusto, e o local mais tarde designado como Sinai, onde a Torá foi outorgada – era uma planta cuja indestrutibilidade serviria como um paradigma para o poder único do povo judeu através da história.

Contra todas as leis da natureza, indo em sentido contrário aos princípios da história como codificado por Toynbee, bem como o exemplo de todas as outras nações antes ou depois, os judeus foram oferecidos ao fogo dos crematórios e às tochas de inimigos imemoriais e mesmo assim “não foram consumidos”. Nosso povo e nossa fé desafiaram toda a lógica para ilustrar o milagre da sobrevivência; Israel e a mensagem do Sinai compartilham com o arbusto, o notável feito da indestrutibilidade.

Sobreviventes contemporâneos poderiam ser perdoados se sua resposta teológica à perda de aproximadamente dois terços de nosso povo fosse uma rejeição ao D’us de seus pais. De fato, alguns escolheram a trilha da negação religiosa. Porém, muitos outros viram aqueles eventos irracionais como um desafio espiritual. Talvez não tenha sido D’us nos céus que tenha falhado com Seus filhos, mas os seres humanos abaixo que provaram quão bárbaro poderia ser seu comportamento quando guiados apenas por padrões e valores seculares. Até mesmo quando homens, mulheres e crianças eram transformados em barras de sabão, e uma auto-proclamada raça superior incorporava uma crueldade demoníaca, uma ânsia despertou nos corações daqueles que aprenderam com estes atos a compreender o propósito de vida da espécie humana, criada “à imagem de D’us.”

Os alemães nos deixaram com algumas perguntas – seis milhões no mínimo. Tornou-se a suprema tarefa da geração pós-Holocausto procurar e sondar, perguntar e refletir, tentar compreender uma fé que passou pelo teste do tempo, mas pareceu falhar à confrontação com a razão e uma crença contínua em D’us, tanto onipotente como benevolente.

Milhares de anos atrás, no primeiro Holocausto da história judaica, acontecido no Egito, o grito de batalha foi: “Deixe meu povo ir!” Em nosso tempo, na esteira de um período de incompreensibilidade, nasce um novo slogan: “Deixe meu povo saber.”

Conhecimento é mais que poder. Como escreveu Salomão no Livro dos Provérbios: “Se você não tem conhecimento, do que precisa?” Os sobreviventes tiveram que entender o objetivo de sua sobrevivência. E a resposta poderia ser mais que uma referência banal à “tradição” ou a “um violinista no telhado.”

“Deixe meu povo saber” – e dezenas de milhares de judeus procuraram as respostas nas sinagogas, cursos de educação para adultos, programas de estudos judaicos, grupos de estudos de chavruta [método de aprendizado quando dois a três alunos sentam em yeshivot para estudarem e debaterem determina Mishná, Guemará, ou outros textos sagrados], e nas centenas de novas escolas que brotaram para prover o sustento para os pesquisadores espirituais de nossa geração.

De onde vêm todos estes ba’alei teshuvá? Os místicos sugerem uma resposta fascinante. Seis milhões de pessoas do nosso povo pereceram. Dentre esses, aproximadamente dois milhões de crianças – bebês, crianças e adolescentes – foram impedidos de realizar seu potencial de vida. Seria possível que D’us permitisse a estas almas uma “segunda chance,” que de fato a magnitude do movimento de ba’al teshuvá reflita a profusão destas almas reincarnadas, espalhadas pelo mundo todo? Talvez uma sugestão ultrajante, mas não mais artificial que qualquer outra, para explicar a preponderância, bem como o fervor destes “que retornaram”, cuja existência não pode ser contabilizada de nenhuma maneira racional.

Mas como alguém poderia acelerar o processo? O que seria feito para todos aqueles que quisessem, como na época de Hilel aprender “tudo num pé só?” Ao pagão que pediu para aprender toda a Torá de uma só vez, Hilel respondeu: “O que lhe é odioso, não o faça ao seu próximo,” e então completou: “e o restante, vá e estude.”

Mas o tempo necessário para dominar o assunto é longo demais para nos permitirmos o luxo de refrear uma resposta mínima para o presente. Os judeus hoje ficam “num pé só” e pedem informação suficiente para permitir-lhes funcionar neste ínterim, bem como a serem inspirados a continuar sua pesquisa intelectual no futuro.

O incidente que lembro com mais carinho, entretanto, diz respeito a um cavalheiro obviamente bem mais velho que os outros estudantes, e que recebera permissão da universidade para sentar-se junto aos calouros para um curso que preparei com inúmeras palestras baseadas em perguntas levantadas por centenas de pessoas que passaram por elas e que originaram meu livro “Entendendo o Judaísmo”. Como era meu hábito, sempre que notava alguém que não estava assistindo a aula para receber créditos, pedi ao visitante que me encontrasse após a aula, para que eu soubesse mais sobre sua identidade e seu desejo para uma educação judaica mais completa.

Aquilo que ele me disse permanece comigo até hoje. “Sou um médico” – e assim que falou seu nome, o reconheci imediatamente como um cirurgião mundialmente famoso com um consultório extremamente bem-sucedido em Park Avenue. “Permita-lhe que lhe diga porque estou aqui,” adicionou ele. “Cheguei a um ponto na minha vida em que percebi conhecer muito sobre o corpo humano, mas muito pouco sobre a alma. Quanto mais velho fico, mais entendo sobre os seres humanos, e reconheço que a alma é bem mais importante que o corpo. Está na hora de reorganizar minhas prioridades. Pretendo arrumar um tempo para descobrir mais sobre mim mesmo, minhas raízes, meu povo e meu D’us. Espero que isto me transforme não apenas num ser humano melhor, mas também num melhor médico.”

Por um ano inteiro, este famoso e destacado profissional assistiu às aulas, sem perder uma sequer. Eu pensava freqüentemente de como deve ter sido difícil para ele organizar seus compromissos. Mesmo assim ele o fez, infalivelmente. Senti que havíamos criado um vínculo especial, tanto de amizade como de aluno-professor. Imagine como fiquei surpreso ao ouvir de seus lábios, em nossa última aula juntos, o que pareciam palavras de repreensão:

“Há apenas uma coisa pela qual não posso perdoá-lo, Rabi,” disse-me ele. “Aprendi muito consigo. Como ousa privar aqueles que não podem comparecer fisicamente a esta aula de suas palestras? Não o perdoarei até que este curso, que mudou minha vida, torne-se um livro ao alcance de todos.”

Posso apenas rezar para que esta obra faça os reparos necessários. Possam aqueles que estudarem este livro [1] ser tão iluminados, inspirados e enriquecidos como o foram os incontáveis estudantes cujos comentários e perguntas ajudaram a criá-lo.

[1] Entendendo o Judaísmo, Steisaltz, Adin Even Israel

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