O Livro da Vida – Por que Morremos


By Nilton Bonder*

No período de dez dias que vai do Ano Novo Judaico até o Dia do Perdão os judeus oram intensamente para serem inscritos no Livro da Vida. Rege a tradição que um grande Livro do Destino se abre neste período e nele se inscrevem os acontecimentos: quem viverá e quem morrerá; quem pela água, quem pelo fogo; quem pela espada, quem pela fome; quem pela tempestade, quem pela epidemia.

Mas vai aqui um grande mal-entendido universal: a vida nada tem a ver com destino. Ficamos fascinados pelo destino achando que ele é a nossa história. Muito pelo contrário: qualquer destino já decretado não é a nossa história, mas uma história. A nossa história tem a ver com escolhas. E é dessa responsabilidade que fala o tal Livro que se abre para todos e que expressam em rito os judeus neste momento de seu calendário.

Esse não é um livro das limitações (da Morte), mas das competências e incompetências (da Vida). Nele se registram as capacidades e incapacidades de viver nossas próprias vidas. E quando não vivemos nossa própria história, quando vivemos destinos, então experimentamos uma imagem de nós e do mundo distorcida. São os ditos fantasmas. São assombros de nós mesmos provenientes do mundo dos mortos – da vida não assumida, das oportunidades evadidas.

Infelizmente, poucas são as mortes por destino. A maioria das mortes é por escolha. Ou seja, raras são as mortes ditas por causas naturais.

Conta o Talmude que o sábio Rav resolveu fazer uma análise estatística de como as pessoas morrem. Há 18 séculos, empreendeu então uma visita ao cemitério, e através de sonhos descobriu a causa da morte dos que lá estavam enterrados. Sua conclusão foi surpreendente. Segundo Rav, 99 entre cada 100 dos entrevistados morreram por conta de “Mau-Olhado” e apenas 1 em 100 por causas naturais.

Talvez devêssemos entender melhor esse responsável número um pela mortalidade humana. Normalmente pensamos no mau-olhado como um olhar invejoso do outro, mas essa é uma compreensão pequena do mau-olhado. O mau-olhado é olhar mal. Acho que Rav se referia a uma “má percepção” ou uma forma inapropriada de olhar para a vida.

Afinal, é mais fácil fazer da vida um destino do que olhá-la como uma infindável possibilidade de escolhas. Sim, porque se a vida for destino, fico livre da responsabilidade de ter que vivê-la eu, bastando entrar nos trilhos do que já foi traçado. Com o mau-olhado, explico meus fracassos e decepções por meio de limites – o outro me impede de viver ou eu não posso viver. Mas este é em si o mau-olhado. Não há verdadeiros limites na vida – o que não se pode abre tantas ou inúmeras possibilidades como o que se pode. O limite na vida nunca é um beco sem saída, mas, como a definição de vida pressupõe, novas variáveis, novas possibilidades.

Por isso não existe destino na vida. Porque mesmo que um caminho tenha que ser a única opção, mesmo que esta condição seja a única possibilidade, ainda assim podemos fazer essa opção de infinitas maneiras.

Inscrever-se no Livro da Vida não é garantia de estabilidade no emprego da existência. É pedir pela grande bênção da vida que é a morte por causa natural. Quem morre por causa natural é aquele que não fugiu da vida e de suas escolhas – sua morte jamais será prematura.

É só isso que se pede nesses dias: pede-se por um “bom olhar”. Um olhar que esteja sempre desconfiado dos destinos, um olhar que se fixe nas opções que sempre existem na vida, por definição ou por “bom olhado”.



*Nilton Bonder, escritor e rabino da Congregação Judaica do Brasil.

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