(Trans) Jordânia é Palestina


Por Sarah Honing *

      Se alguém pode reivindicar uma mestria consumada na popular arte de forjar fatos históricos, a honra deve ser atribuída aos jordanianos. O seu estado como um todo, a sua soberania e a sua própria identidade são artificiais. Se a comunidade internacional não estivesse indulgentemente predisposta a engolir a mentira, certamente a Jordânia não poderia vendê-la tão bem.  Essa produção por atacado depende, para ser consumida, de um mundo que se presta entusiasticamente ao engodo.

      E a fraude, então, vai de vento em popa.

      O último episódio da série é o decreto artificialmente implementado pelo reino no sentido de destituir um enorme número de palestinos da cidadania jordaniana. Aqueles que eram jordanianos há décadas subitamente não são mais. Algo similar às infamantes enciclopédias soviéticas de páginas destacáveis, que eram removidas e substituídas sempre que necessário com as últimas versões oficiais acerca do passado.

      O passado é permanentemente moldável ao sabor dos interesses atuais.

      De acordo com o ministro do interior jordaniano Nayef al-Kadi, a finalidade é impedir antecipadamente qualquer veleidade de lembrar que a Jordânia é parte e parcela do que uma vez foi chamado de Palestina. Na verdade, era a sua maior parte. Sendo esse o caso, os palestinos — quer nascidos a leste ou a este do Rio Jordão — são cidadãos jordanianos nativos (independentemente do nome que quiserem adotar). Kadi, seguindo as ordens de seu monarca, está encarregado de legitimar a idéia falsa de que “a Jordânia não é Palestina assim como a Palestina não é a Jordânia”.

      Conseqüentemente, nenhum futuro acordo de paz poderá portar o carimbo do domicílio jordaniano para os assim chamados palestinos. Em vez disso, eles serão levados a inundar Israel e transformá-lo no terceiro estado árabe criado na jurisdição original do Mandato Britânico sobre a Palestina, mandato estabelecido ao fim da primeira guerra mundial.

      Não fosse assim, a Jordânia fracassaria na tentativa de fazer passar o colossal engodo que elaborou tão arduamente para vendê-lo a um mundo ávido para ser enganado —  forjando as etnias jordaniana e palestina, juntamente com a noção ad-hoc de que essas nacionalidades são diferentes entre si e merecem a auto-determinação em estados nacionais próprios: a Jordânia e a Palestina.

      Essa argumentação surrealista supõe como ponto pacífico a imagem de palestinos destituídos de um estado nacional — habitantes nativos injustiçados, que lutam desesperadamente para livrar-se do jugo da ocupação estrangeira (judaica).

      Até 1948 ‘Palestina’ era sinônimo da expressão hebraica Eretz Yisrael. O epíteto “palestino” era em grande medida reservado para os judeus e usado por eles. Os árabes locais preferiam proclamar sua lealdade à Grande Síria ou ao Iraque.

      Golda Meir costumava dizer: “Eu sou uma palestina, mas não gosto dessa denominação. Palestina é o nome que os romanos deram a Eretz Yisrael com a finalidade expressa de enfurecer os judeus derrotados… porque deveríamos usar um nome infame cuja finalidade é a de humilhar-nos? … A cristandade herdou o nome dos romanos e os ingleses escolheram designar como Palestina a terra cujo mandato lhes foi outorgado. Os árabes locais a adotaram como o nome antigo da sua suposta nação, embora não consigam sequer pronunciar a palavra corretamente, e a transformaram em Filastin, uma entidade fictícia”.

      Palestina/Filastin nunca teve existência independente, unidade cultural, singularidade lingüística ou idiossincrasia religiosa que a diferenciasse do meio árabe circundante.

      Mais ainda, o mandato britânico sobre a Palestina estendia-se sobre ambas as margens do Rio Jordão. Em 1921, 78% do que a Liga das Nações designou como o “lar nacional do povo judeu” foi separado e dado como presente a Abdullah, filho do Sherif (Governador/Protetor) Hussein ibn Ali, o emir Hashemita da Meca.

      No intuito de recompensar seus protegidos hashemitas, os ingleses coroaram Faisal, irmão mais jovem de Abdullah, rei da Grande Síria. Depois que os franceses expulsaram Faisal, Londres inventou para ele um reino de faz-de-conta chamado Iraque. O seu neto Faisal II foi deposto, executado e teve seu cadáver arrastado pelas ruas de Bagdad em 1958, mas a fusão artificial iraquiana criada pela Inglaterra permanece e continua a perturbar o mundo.

      Abdullah desejava o título de emir da Palestina. A Inglaterra fez com que aceitasse a Transjordânia. Nenhuma nação transjordiana aparece nas crônicas da região. Foi concebida em território palestino pela Pérfida Albion. Essa foi a primeira divisão da Palestina.

      Em 1950, a Transjordânia anexou a “Margem Ocidental” (nome que deram ao território ocupado após a invasão árabe do recém nascido Estado de Israel em 1948) e transformou-se no Reino Hashemita da Jordânia. Os seus líderes, incluindo o falecido rei Hussein, reiteraram constantemente em numerosos pronunciamentos que “a Jordânia e a Palestina são uma e a mesma nação”. O mesmo foi confirmado por líderes palestinos, inclusive Yasser Arafat. Os Estatutos Palestinos, de fato, reivindicam a Jordânia inteira — precisamente porque é Palestina.

      Mesmo assim, eventualmente pareceu conveniente, uma boa tática de relações públicas, proclamar que a Palestina existe apenas a oeste do pequeno rio, justificando a campanha para a criação de um segundo estado árabe.

      Temendo que seus súditos palestinos pudessem depor os seus governantes hashemitas importados, Hussein expulsou a OLP no Setembro Negro de 1970. Uma pena. Se ele houvesse falhado, Arafat teria tomado Amã e hoje ninguém poderia negar que a Palestina está dividida entre judeus e árabes, com os árabes possuindo perto de quatro quintos do território.

      Agora, o filho de Hussein, Abdullah II, tenta reescrever a história mais uma vez, seguindo uma tradição jordaniana já consolidada. O seu pai renunciou à soberania do que era chamado de Margem Ocidental mas não ressuscitou a ridícula denominação “Transjordânia”. Após 17 anos de anexação (1950-67), a marca registrada Jordânia ganhou aceitação mundial. Parece autêntica. Por que então retornar a algo obviamente falso?

      Entretanto, a população jordaniana é majoritariamente palestina. A única exceção é constituída pelos beduínos que acompanharam Abdullah I desde Hejaz. Como os hashemitas, eles são estrangeiros. Agora, esses forasteiros visam deslegitimar os nativos. Como seria de se esperar, os estados e as ONGs de direitos humanos pelo mundo afora permanecem silenciosos.

      A Jordânia nasceu como uma fraude, destinada na seqüência a escorar-se em constantes modificações retroativas do passado — mesmo do passado distante. Há não muitos anos atrás a TV jordaniana produziu um documentário sobre Jerusalém retratando os antigos jebusitas como árabes.

      Naturalmente, não fossem os hebreus o povo do livro, esses canaanitas da região de Jerusalém conhecidos como jebusitas sequer constariam como personagens coadjuvantes transitórios nas páginas da história, e muito menos seriam citados pela televisão jordaniana.

      Para aqueles que esqueceram as breves referências bíblicas, os jebusitas foram aqueles camaradas de quem o rei David conquistou um pequeno povoado que transformou em sua capital. Os livros dos Juízes e Ezra indicam que eles se miscigenaram e foram assimilados pelos israelitas.

      A arabização póstuma desses jebusitas presumivelmente justifica a reivindicação árabe sobre Sion. A TV jordaniana concomitantemente magnificou a contribuição jebusita para a humanidade a proporções tais que indubitavelmente os teria deixado perplexos. A TV jordaniana expurgou indevidamente os judeus dos anais de Jerusalém, salvo por uma abrupta mas indispensável aparição na cidade tornada Judenrein. Os vilões judeus apareceram subitamente ninguém sabe de onde e ficaram o tempo necessário para crucificar Jesus, descrito como “profeta palestino árabe”.

      A TV jordaniana tratou-nos como herdeiros da culinária jebusita. Apesar de termos erradicado completamente a memória dos há muito extintos jebusitas, somos denunciados pela inveterada preferência de seus ingredientes favoritos,  os tomates e a pimenta, que, caramba! , somente chegaram ao Velho Mundo 2500 anos depois, quando os espanhóis os trouxeram da América.

      Entretanto, nada impede que os empreendedores jebusitas tenham se antecipado a Colombo, o que permitiria justificar uma reivindicação árabe com relação ao hemisfério ocidental. A afirmação de que a Jordânia não é Palestina deve ser considerada tão válida como essa.


      * Sarah Honing,  jornalista do Jerusalém Post, com  artigos republicados em centenas de jornais em torno do mundo.

      Fonte

      1.  Jornal The Jerusalém Post – 06/08/09

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