Quem Escreveu o Alcorão?


Por Mohammad Ayatollahi Tabaar *

Há mais de duas décadas, Abdulkarim Soroush é o mais conhecido intelectual iraniano. Profundo conhecedor da teologia e do misticismo islâmico, ele foi escolhido pelo aiatolá Khomeini para o trabalho de “islamização” das universidades do país, mas terminou se tornando um adversário do regime teocrático. Sua dissidência teve um preço. Grupos de pressão e organizações apoiadas pelo governo faziam protestos durante suas aulas sempre muito populares; ele foi espancado e há informações de que esteve perto de ser assassinado.

Em um país no qual os intelectuais muitas vezes são tratados de maneira semelhante à que o Ocidente trata seus astros de rock, Soroush foi reverenciado e atacado em igual medida por suas expressões de apoio declarado ao pluralismo religioso e à democracia. Agora, ele está dando um novo passo – e um passo crucial. Em diversas palestras realizadas em universidades da Europa e dos Estados Unidos, Soroush está causando choque às lideranças religiosas iranianas.

A controvérsia mais recente se iniciou cerca de oito meses atrás, depois que Soroush conversou com um repórter holandês sobre uma das questões mais sensíveis do islamismo: a origem divina do Alcorão. Os muçulmanos há muito acreditam que seu livro sagrado tenha sido ditado por Deus diretamente ao profeta Maomé. Na entrevista que me concedeu, porém, Soroush afirmou explicitamente sua crença em outra hipótese: a de que o Alcorão representa uma “experiência profética”.

Ele me disse que o profeta foi “ao mesmo tempo o recebedor e o produtor do Alcorão, ou, se preferir, o sujeito e o objeto da revelação”. Soroush afirmou que “ao ler o Alcorão, é inevitável sentir que um ser humano está falando com você, ou seja, as palavras, imagens, regras e tudo mais que surge parecem estar vindo de uma mente humana”. Ele acrescentou que “essa mente, evidentemente, é especial no sentido de que está imbuída de divindade e conta com inspiração divina”.

À medida que as palavras de Soroush se espalhavam pela Internet, os grandes aiatolás iranianos decidiram entrar na batalha. Na sua refutação aos argumentos do estudioso, os líderes religiosos apontaram para os versículos do Alcorão que afirmam que “este é um livro enviado por Deus a você, Maomé”. Os aiatolás questionaram: “Será que esse versículo não implica diretamente que Deus seja o revelador e Maomé o alvo da revelação?” Eles também apontaram para casos em que Maomé esperava com impaciência para que novas porções do plano divino lhe fossem reveladas, e para mais de 300 exemplos em que o profeta foi instruído a ordenar a seu povo que fizesse determinadas coisas. O argumento dos líderes religiosos afirma que isso é demonstração suficiente de que os ensinamentos em questão vêm de outro lugar que não a mente ou o coração do profeta.

Soroush, por sua vez, responde alegando que o profeta era mais que um papagaio. Em sua opinião, como disse Soroush na entrevista, ele era uma abelha que produz mel, embora o mecanismo que permita que o mel seja produzido tenha sido dado a ele por Deus. É esse “o exemplo que o Corão mesmo estabelece”, diz Soroush, mencionando o livro sagrado: “E seu Deus inspirou a abelha: voe por si só entre as montanhas e as casas… se alimente de todas as frutas… emergirá de teu ventre uma bebida… na qual haverá cura para as pessoas”.

Soroush já foi descrito como um Martinho Lutero muçulmano, mas ao contrário do religioso reformista que criou o protestantismo, ele não interpreta os livros sagrados literalmente. Seu trabalho se assemelha mais ao dos estudiosos alemães do século 19 que tentaram compreender a Bíblia em seu contexto original. Um exemplo ajuda a compreender: quando um versículo no Corão ou uma fala atribuída a Maomé fala em cortar a mão de um ladrão ou apedrejar até a morte os culpados de adultério, isso só nos informa sobre as regras e regulamentos que eram vigentes na era do profeta. Os muçulmanos modernos não estão obrigados a seguir esse regulamento em detalhe caso disponham de meios mais humanos.

As posições mais recentes de Soroush não o tornaram muito popular entre os líderes da ala mais conservadora do mundo político iraniano. Alguns deles o acusaram de heresia, um delito passível de pena de morte nos países de lei islâmica. Religiosos da cidade de Qom, a capital religiosa do Irã, se manifestaram contra o seu trabalho mais recente. Mas o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, inesperadamente lançou um alerta contra alimentar essa controvérsia. O líder afirmou que aqueles que utilizam “filosofia ou pseudo-filosofia” para “perverter a mente do país” não deveriam ser reprimidos por meio de “ira e de declarações de apostaria”, mas sim rebatidos por meio de “verdades religiosas” que provarão a falsidade de seus argumentos.

No Irã contemporâneo, muitos oponentes do governo defendem a criação de um Estado laico. Soroush mesmo apóia a separação entre religião e Estado, mas o faz em defesa da religião. O que ele deseja é liberdade religiosa, e não estar livre da religião. E por isso propõe uma agenda diferente e potencialmente muito mais efetiva.

Como escreveu certa vez o conhecido místico medieval muçulmano Rumi, “um velho amor só pode ser dissolvido pela chegada de um novo amor”. Em uma sociedade profundamente religiosa cujos líderes justificam sua retenção do poder como um dever que têm para com Deus, talvez sejam necessários argumentos religiosos para contradizer essa posição e propelir a sociedade na direção do pluralismo e da democracia. Soroush na verdade está apresentando um desafio àqueles que alegam falar pelo Islã, e o faz nos termos que estes líderes estão acostumados a empregar.


* Mohammad Ayatollahi Tabaar é professor adjunto na Escola Elliott de Relações Internacionais, parte da Universidade George Washington).


Notas

1. Artigo original em inglês, publicado pelo “The New York Times Magazine”, em 05/12/2008

2. Traduzido para Português por Paulo Migliacci

3. A tradução em Português foi publicado pelo Notícias Terra, com o título: “O homem de confiança de Khomeini ‘vira casaca’”. em 07/12/2008

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One Response to Quem Escreveu o Alcorão?

  1. KEITI CAVALCANTI says:

    muito boa a matéria tem como obter mais desse conteúdo??
    obrigado

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