Com destino às estrelas


Por Raquel Lima *

O projeto de engenheiro israelense é uma das idéias futuristas aparentemente mais malucas para levar gente e cargas ao espaço.

Entre no elevador, aperte o botão “espaço” para uma curta viagem de até 100 mil quilômetros pelo cosmo!

Para você essa idéia não passa de loucura ou coisa de filme de ficção científica? Pois para o engenheiro espacial israelense radicado nos Estados Unidos, Ben Shelef, a proposta é viável e a invenção pode estar pronta já em 2020. Mas como é que esse elevador funcionará?

Em entrevista exclusiva ao Cenário XXI, Shelef explicou que, quando falamos em elevador espacial, não podemos pensar no elevador convencional que conhecemos e estamos habituados a usar.

O seu material e sua operação são, obviamente, mais complexos. Além disso, não haverá ascensorista no comando (nem pilotos). A operação será feita por meio de uma cabine de comando.

Seguindo os projetos do israelense, o elevador vai subir ao espaço deslizando por um cabo, que terá 100 mil quilômetros de extensão, o que representa mais ou menos um terço da distância da Terra à Lua.

Esse cabo (que Shelef chama de “ribbon” ) será feito de nanotubos de carbono (classe de moléculas descobertas em 1991), material altamente resistente.

O elevador em si seria feito com material regularmente utilizado no setor aeroespacial, como alumínio e titânio, e seria composto de um grande painel fotovoltaico para capturar luz e produzir energia elétrica, além de motores elétricos.

A velocidade do elevador em relação ao cabo será constante, ficando em torno de 200 km/h.

No entanto, sua velocidade no sentido lateral (em volta da Terra) vai aumentar à medida em que se afastar.

“Como o elevador vai seguir a rotação da Terra, quanto mais alto ele estiver, mais rápido vai se movimentar”, explicou o engenheiro.Não entendeu?Então imagine uma roda girando. Um ponto que estiver no aro externo vai girar mais depressa que um ponto mais perto do eixo, já que os dois pontos dão uma volta inteira ao mesmo tempo, mas o comprimento do círculo no aro externo é maior que o do círculo próximo ao eixo. Obedecendo o mesmo princípio, a ponta superior do elevador vai estar girando com uma velocidade maior que a Terra.

E onde seria o ponto de partida do elevador?Shelef disse que será de um navio localizado no Leste equatorial do Oceano Pacífico. Por várias razões: ali, os tsunamis são menos intensos, não há formação de furacões, é distante de aeroportos e cria certo grau de dificuldade para um ataque terrorista.

Num primeiro momento, o elevador espacial está projetado para transportar somente carga (até 20 toneladas por viagem), como satélites, por exemplo. Mas a intenção é que a invenção também possa levar pessoas para um passeio no espaço.

Questionado sobre quanto tempo alguém poderia viajar pelo elevador, Shelef brincou: “Até ficar com fome ou querer voltar para casa”.

Quando estiver pronto para o turismo no cosmo, o elevador vai contar com toda a estrutura de um módulo espacial, garante o engenheiro israelense.

Custos

Para desenvolver, construir e operar o elevador espacial, Shelef estima que seriam necessários US$ 10 bilhões.Acha muito?O engenheiro acha que não: “É muito mais barato que a Estação Espacial Internacional (que consumiu cerca de R$ 220 bilhões) ou desenvolver um novo tipo de avião”, argumentou.

Ainda não é possível pensar qual seria o preço para uma pessoa viajar no elevador espacial.“É um cálculo que envolve outros custos, como seguro de vida”, justifica Shelef.

Se realmente vingar, o elevador espacial vai apresentar algumas vantagens sobre os foguetes. Uma delas, e talvez a principal, é que por ser alimentado do solo, o elevador não precisaria carregar combustível. Já os foguetes, que atualmente representam a única maneira de transportar pessoas e material para o espaço, deslocam mais combustível do que carga útil.

O inventor afirmou que, por enquanto, laboratórios trabalham na produção do cabo “ribbon”.Ao mesmo tempo, o engenheiro se envolve na Spaceward Foundation, organização da qual é co-fundador, voltada para difundir a troca de informações sobre o tema.

Se o elevador espacial de fato vingar, aquela velha advertência: “Verifique se o mesmo está parado neste andar” deverá começar a ser levada em consideração, não é mesmo?

Tecnologia do futuro

Antônio Bertachini Prado – professor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – diz:

“Quando analisamos a proposta no âmbito da ciência, não há nenhum absurdo no projeto do elevador espacial. Mas, quando pensamos tecnologicamente, é algo extremamente avançado”.

“Só para se ter uma idéia, o raio da Terra tem 6,7 mil quilômetros de extensão e o cabo que o engenheiro propõe tem 100 mil quilômetros de comprimento. São quase 15 vezes mais. Claro que não é possível afirmar que isso nunca vai exisitir, mas acho difícil que até 2020 possa estar pronto. São muitos detalhes que precisam ser analisados. Por isso, creio que seria um projeto para mais de cem anos. Por ser algo ousado, ainda vejo como uma ficção científica”.

Especialista diz que tudo não passa de um delírio

Mais leve e resistente que o aço e mais fino que um fio de cabelo em cerca de 100 mil vezes, o nanotubo de carbono é apontado como uma das maiores descobertas a serem aplicadas na área da informática e nos projetos mais ousados, como o sonhado elevador espacial. Não é para menos: é um dos materiais mais duros conhecidos e apresentam uma alta resistência mecânica, aliada a uma alta flexibilidade que suporta sem quebrar até a altas pressões.

No entanto, o cientista Daniel Ugarte, do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pondera que a produção de nanotubos de carbono atualmente é cara, pelo consumo de energia, e limitada a centímetros. Lembre-se que o projeto de Ben Shelef prevê 100 mil quilômetros de cabo. “Esse elevador é um delírio. Uma bobagem sem tamanho”, declarou Ugarte, que já alcançou reconhecimento internacional por suas pesquisas com átomos e moléculas de carbono e suas estranhas propriedades.

“A produção de um cabo de nanotubo de carbono para esse elevador exigiria uma perfeição do material, uma pureza, que ainda não somos capazes de fazer”, declarou o especialista.

Versatilidade

Os nanotubos de carbono também podem ser condutores de eletricidade, isolantes, semicondutores e até supercondutores (se forem submetidos a temperaturas baixíssimas).

Esse comportamento de paradoxos se explica pela geometria que os nanotubos assumem: se o objeto apresenta uma determinada geometria, ele é isolante, se apresenta outra geometria, ele é condutor. Os cientistas, porém, ainda não sabem como controlar as formas assumidas pelo material com precisão. Ugarte prevê que esse domínio ocorra a médio ou longo prazo.

* Raquel Lima, jornalista brasileira da Agência Anhanguerra

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