Autoconscientização


Por Ricardo Kelmer *

A jornada pessoal de auto-realização nos põe em situações onde não confiamos em nosso potencial. Somos capazes de muitas coisas quando temos perfeita consciência de quem somos e do que podemos fazer. Porém chegar a essa autoconscientização é difícil. Conhecer verdadeiramente quem somos é luta armada travada no campos da consciência e do inconsciente, guerra de toda uma vida onde cada auto-revelação representa uma importante batalha vencida. O verdadeiro autoconhecer-se dói pra danar porque implica necessariamente enfrentar o que se teme, tornar-se o que se evita ser, entrar no fogo dos piores medos. A recompensa é o mundo novo que a realização mais íntima nos traz.

No mundo de Matrix as pessoas estão adormecidas e sem senso crítico. Acreditam no que lhes é dado a crer. Nada muito diferente de nosso mundo atual, onde a massificação das idéias faz as pessoas perderem a noção de si mesmas, onde querem nos convencer que numa sociedade desonesta e violenta temos de ser mais violentos e desonestos que os outros. Difícil fugir desse círculo vicioso. Em Matrix, Neo sofre o diabo pra aprender que tudo que ele precisa é… mudar a visão que tem de si próprio, apenas isso. Não pense que é, saiba que é. A profecia diz que o Predestinado mudará o mundo e salvará a humanidade. Neo não pode acreditar que seja capaz de tudo isso. Mas o segredo pra vitória do herói esconde a mais simples e a maior de todas as ironias: pra mudar o mundo, basta mudar a si mesmo. Transforme-se e tudo em volta se transformará – eis o segredo! Porque a aparente separação das coisas esconde a unicidade de tudo que existe. Talvez seja impossível dobrar uma colher com o pensamento. Mas se você sabe que a colher e você são a mesma coisa, então basta dobrar a si mesmo.

O mito da jornada do herói nos ensina que o destino de cada um de nós é realizar o que verdadeiramente somos mas ainda não aceitamos. A aventura de Neo é a aventura de todos nós em busca de nossa essência mais legítima, aquela que enfim nos libertará. Até alcançá-la, a vida nos provará de muitos modos e teremos de conviver com dolorosas incertezas e auto-enganações. No entanto, indo do micro pro macro, a aventura de Neo é a aventura da humanidade inteira, em busca de sua sobrevivência como espécie. Num tempo de tecnologia idolatrada e valores essenciais esquecidos, corremos o risco de ver nossa própria criação voltar-se contra nós. Ante tal possibilidade, a única saída parece ser, ainda, seguir o que dizia, logo em sua entrada, o Oráculo de Delphos na Grécia Antiga: conhece-te a ti mesmo. A tecnologia não tem sentimento. Nós temos. Uma máquina não é capaz de amar. Nós somos. Essa diferença óbvia pode pesar bastante no roteiro do nosso filme.

Um certo nazareno revolucionário, dois mil anos atrás, já nos ensinava que somos todos deuses. Pois vou no mesmo caminho: igual a Neo, somos todos heróis. Heróis de nossas próprias vidas. Como Neo, somos predestinados a realizarmos a nós mesmos. Feito um Salvador, cada um de nós tem o poder de mudar o mundo. Mas é preciso antes mudar a forma como entendemos a nós próprios. Eis o segredo que se esconde por trás do filme Matrix e também de toda a vida. O segredo que de tão óbvio não se vê mas que aguarda pacientemente por todos os predestinados.

* Ricardo Kelmer é autor do livro de contos Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos.

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