Eleitoras nos Estados Unidos


Kellyanne Conway *

Introdução

As mulheres representam mais da metade do eleitorado americano e influenciam os resultados eleitorais há mais de 40 anos.

A americana média acorda todas as manhãs para uma miríade série de responsabilidades, curiosidades e preocupações, a maioria das quais não são política por si, mas afetadas pelas ações políticas e governamentais. Essas questões podem incluir: “Meu filho está aprendendo nessa escola?”, “Este bairro é seguro?”, “Se mudar de emprego, vou perder meu seguro-saúde?”, “Os proventos da Previdência Social são suficientes para meus pais manterem sua casa e não acabarem com suas economias?”

Uma perspectiva histórica

Desde 1964, as mulheres representam a maioria do eleitorado, mas foi só em 1980 que a porcentagem de mulheres em condições de votar ultrapassou a porcentagem de homens habilitados a ir às urnas. Apesar de toda a angústia dos “estatísticos” em mostrar que apenas uma fração de mulheres concorre ou ocupa cargos eletivos neste país (e que uma mulher nunca foi eleita presidente), as eleitoras influenciam os resultados eleitorais há mais de oito décadas, decidindo os presidentes e precursores de uma maneira que moldou a política pública de forma direta e decisiva.

As mulheres tendem a apoiar os candidatos à reeleição, em especial para a Presidência, preferindo ficar com uma marca de confiança já conhecida do que experimentar algo novo e desconhecido. De fato, os últimos três presidentes que venceram a reeleição tiveram apoio maior das mulheres na segunda vez que concorreram. As mulheres também são mais fiéis nas campanhas de reeleição para o Congresso, mostrando mais regularidade em seus padrões de votação do que os homens. Ironicamente, essa tendência natural de reeleger os candidatos é uma das razões pelas quais muitas mulheres que desafiam os titulares dos cargos não se saem bem nas urnas.

A mulher não-eleitora é ignorada por políticos, partidos, analistas de pesquisa de opinião e consultores profissionais, que parecem obcecados por “prováveis” eleitoras ou pelas eleitoras “indecisas”. Na eleição presidencial de 2004, mais da metade (54,5%) das mulheres entre 18 e 24 anos não votou. No entanto, o índice de votação das mulheres dessa faixa etária foi mais alto que o dos homens da mesma idade – somente 40% deles foram às urnas. Na faixa etária entre 65 a 74 anos, somente 29% das mulheres não votaram, contra 26,1% dos homens. As principais razões apresentadas pelas mulheres para não votar incluem “doença/invalidez” (19,8%), “muito ocupada/incompatibilidade de horário” (17,4%), “falta de interesse” (10,7%) e “não gostou dos candidatos ou dos temas da campanha” (9,7%). Com exceção das últimas duas respostas, é importante observar que praticamente nove em dez mulheres deixaram de participar por razões alheias à falta de interesse.

O que as eleitoras realmente querem?

Tradicionalmente, considera-se que as mulheres gravitam mais em torno das questões relacionadas com “ela”, Previdência Social, saúde e educação, enquanto os homens são considerados mais interessados nas questões relativas a “nós”, guerra e economia. As últimas três eleições gerais (2002, 2004 e 2006) mostram que essas classificações cômodas não se aplicam mais.

Em 2004 e novamente em 2006, as mulheres disseram aos pesquisadores de opinião que as preocupações que as motivaram a decidir votar ou não e em quem estavam centradas em questões não tradicionais “de mulheres”. Em uma lista com perguntas fechadas com dez possíveis respostas, a situação no Iraque encabeçou a lista como a principal preocupação (22%), seguida da guerra contra o terrorismo (15%). Valores morais/familiares e empregos/economia receberam, cada um, 11%, enquanto as outras seis opções receberam apenas respostas de um dígito.

Como eu e a especialista democrata em pesquisa de opinião Celinda Lake mostramos no livro What Women Really Want: How American Women Are Quietly Erasing Political, Racial, Class, and Religious Lines to Change the Way We Live (O Que as Mulheres Realmente Querem: Como as Americanas estão Silenciosamente Eliminando as Divisões Políticas, Raciais, de Classe e Religiosas para Mudar Nosso Modo de Vida – Free Press, 2005), as mulheres tampouco votam com base em uma única questão. Ao contrário, elas tendem a considerar uma grande quantidade de idéias, questões, indivíduos, impressões e ideologias antes de tomar uma decisão final. O foco da mídia nas questões mais polêmicas faz com que pareça que as mulheres só se importam com uma questão no dia da eleição e que é essa questão que as faz ir votar. Na realidade, os padrões do voto da mulher indicam exatamente o oposto.

As mulheres não formam um nicho

As mulheres não são rígidas em suas atitudes em relação ao sistema político, nem em relação a seu voto. Quando se trata de votar, uma mulher pode votar só em democratas, outra pode votar na chapa republicana, enquanto uma terceira pode adotar uma abordagem “salada de frutas” e escolher quem e o que lhe convier melhor. No fim, as eleitoras se fazem duas perguntas principais ao decidir quem apoiar para presidente: “Eu gosto dessa pessoa?” e “Essa pessoa gosta de mim?” A primeira pergunta é o clássico teste da “sala de estar”: Você gostaria de ver aquele candidato da televisão na sua sala de estar nos próximos quatro ou oito anos? A segunda é uma indagação mais complexa que avalia se a mulher acredita que o candidato e ela compartilham os mesmos interesses, valores, indignações e receios.

É impossível separar as experiências de vida e as atitudes das mulheres americanas nas categorias binárias de republicanos e democratas. Como as mulheres levam mais do que sua ideologia política ao ir às urnas, os políticos precisam estar cientes das etapas da vida, assim como das categorias demográficas, nas quais as mulheres se encaixam. Um conceito usado como freqüência na minha empresa, a the Polling Company, Inc./WomanTrend, é o das “Três Faces de Eva”, ilustrado por meio das vidas bem distintas que uma mulher de 48 anos pode ter neste país. Ela pode ser uma avó que trabalha fora, uma profissional liberal solteira e sem filhos ou uma mulher casada mãe de dois filhos jovens. Tecnicamente, todas se encaixariam nas mesmas categorias demográficas de idade e gênero, mas suas experiências de vida diferem enormemente, resultando em perspectivas variadas sobre o atual estado das coisas. A política não é uma categoria isolada para as mulheres; ao contrário, a política é uma ampla arena para a qual as mulheres exportam suas experiências, necessidades e expectativas.

Alguns grupos de mulheres a serem observados

Empreendedoras: as mulheres são proprietárias de aproximadamente 10,4 milhões de empresas nos Estados Unidos e empregam mais de 12,8 milhões de americanos. Enquanto 75% de todas as empresas americanas não possuem funcionários, surpreendentes 81% de empresas de mulheres são operações de uma pessoa só ou familiares. O índice de crescimento das empresas de mulheres aumenta de forma constante a uma taxa duas vezes maior que a das empresas como um todo.

Solteiras: as americanas estão adiando o casamento não por não terem escolha, mas justamente porque têm escolha. Atualmente, 49% de todas as mulheres acima de 15 anos não estão casadas e mais da metade (54%) encontra-se na categoria de 25 a 64 anos.

Futuras mães: com mais mulheres entrando na força de trabalho e com o número cada vez maior de mulheres tendo filhos além da idade tradicional, menos mulheres entre 20 e 30 anos se identificam com o rótulo de “casada com filhos”.

Meia-idade: mulheres entre 50 e 64 anos, muitas delas com filhos morando em casa, estão esperando benefícios e eternidade (a busca de prolongar a vida), procurando soluções e sofisticação.

Minorias: as minorias representam hoje um terço dos americanos, e quatro estados já têm maioria de minorias, com cinco outros devendo ficar na mesma situação até 2025. A população hispânica deverá ter o impacto mais significativo na população americana, mas o aumento dos eleitores ásio-americanos também é uma tendência a ser acompanhada.

Mulheres da geração Y: pesquisa da Lifetime Television feita pela nossa companhia e pela Lake Research Partners constatou que a maioria (54%) das mulheres da geração Y (aquelas nascidas a partir de 1979) acredita que a melhor maneira de fazer a diferença na política americana é votando. Além da política, quase metade (42%) das mulheres da geração Y afirmou que a melhor maneira de fazer a diferença no mundo era “ajudar os menos afortunados, com tempo ou dinheiro”. Entre as seis outras opções colocadas por elas, somente 2% disseram que ter um “papel ativo na política” era a melhor maneira de fazer isso. Ajudar os necessitados incluiu “ser uma boa pessoa” (16%), “ajudar a deter a violência e a agressão sexual contra as mulheres” (9%), “ajudar a salvar o meio ambiente” (8%) e “defender meu país e mantê-lo seguro servindo nas Forças Armadas” (4%).

Se uma mulher se irrita e diz “Eu odeio política”, o que ela está dizendo é que não liga para quem administra as escolas públicas e o que nelas é ensinado; como o sistema de saúde é usado, fornecido e pago nos Estados Unidos; se a nação é segura, próspera e competitiva globalmente. No entanto, com certeza ela não pensa isso de fato. Política e governança são os veículos pelos quais a mudança nessas áreas são conseguidas, mas não necessariamente o prisma pelo qual as mulheres interagem com elas.

Olhando para 2008

O que os candidatos à Presidência em 2008 podem esperar das eleitoras? A variável nessa eleição presidencial poderá ser uma candidata, mudando o debate do “se” para “quando”. A discussão mudou de uma hipotética mulher presidente para aquela mulher presidente; a saber, Hillary Rodham Clinton.

No entanto, a experiência mostra que as mulheres não necessariamente votam em outras mulheres. Se o fizessem, as senadoras Elizabeth Dole ou Carol Moseley-Braun teriam ganho as indicações de seus partidos para presidente em 2000 e 2004, respectivamente, com base na simples noção de que as mulheres constituem a maioria do eleitorado. A disputa de 2008 difere das eleições anteriores por ser uma eleição de vários “primeiros”. Só o fato de uma mulher ou um afro-americano está na disputa final na próxima eleição presidencial já é um fato altamente positivo e extraordinariamente inovador na política nacional.

A lealdade partidária ganha do gênero, como indica pesquisa da Newsweek de julho de 2007, que constatou que 88% dos homens e 85% das mulheres dizem que se seu partido indicasse uma candidata, votariam nela se fosse qualificada para o cargo. Os americanos expressam menos entusiasmo, no entanto, pelo “fator feminino” quando se trata de como julgam seus concidadãos: somente 60% dos homens e 56% das mulheres acreditam que o país está pronto para ter uma presidente. Com relação à raça, os eleitores estão menos hesitantes em votar em um candidato afro-americano qualificado de seu partido, pois 92% dos brancos e 93% dos não-brancos dizem que aprovariam esse candidato. Assim como o gênero, menos eleitores duvidam de que o país esteja pronto para ter um presidente afro-americano: somente 59% dos eleitores brancos e 58% dos eleitores não-brancos acreditam que o país elegeria um presidente negro. Ao responder às pesquisas de opinião pública, os eleitores podem às vezes atribuir suas atitudes e estereótipos a seus amigos, família e membros da comunidade como uma maneira de reafirmar sua própria posição e ao mesmo tempo esconder o que consideram ser uma posição “inaceitável” ou “impopular”. Isto significa que qualquer oposição a um “afro-americano” ou a uma “mulher” poderá refletir ou gerar antipatias ao candidato ou partido que levantar essa questão.

Considerando que a disputa pela Presidência é a mais aberta em décadas (é a primeira vez em 80 anos que nem um ocupante atual do cargo nem um vice-presidente estão concorrendo), uma coisa é certa: as mulheres, como acontece desde 1980, serão a maioria que decidirá quem será o próximo a ocupar o Salão Oval.

* Kellyanne Conway, presidente e diretora executiva da Polling Company/Woman Trend – Washington, DC.

Nota

1. Artigo publicado originalmente em inglês pelo eJournalUSA

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