Teoria da Ordem Implícita


“…as pessoas intuem uma forma de inteligência que, no passado, organizou o universo, e a personalizam chamando-a Deus”.

“Imaginamos o místico como alguém em contato com espantosas profundezas da matéria ou da mente sutil, não importa o nome que lhes atribuamos”. – David Bohm

Por Frank Herles Matos

David Bohm fui uma rarissima combinação de cientista, filósofo e esoterista. Em sua teoria da Ordem Implícita sobre a origem do universo visível, da vida, da realidade que vemos, tocamos, medimos e quantificamos ele vai muito além da ciência tradicional. Mesmo tendo incomodado a elite conservadora da ciência mundial da época é considerado hoje um dos maiores físicos especulativos do mundo e um dos teóricos mais influentes da física moderna.

Ex aluno de J. Robert Oppenheimer, após sua formatura Bohm trabalhou estudando e avaliando os efeitos do plasma nos campos magnéticos durante a Segunda Guerra Mundial. Em seguida, com outros cientistas, formulou uma teoria que desempenha papel importante nos estudos da fusão, hoje denominada ´difusão Bohm”.

“Casualidade e Acaso na Física Moderna”, seu primeiro livro, lançado em 1957, tornou-se rapidamente um clássico da mecânica quântica, sendo hoje fonte de consultas e referências em diversas universidades e centros de pesquisas mundial.

Pesquisando a natureza da consciência, devido aos problemas que encontrou na mecânica quântica, Bohm descobriu Krishnamurti – filósofo hindu -, com que atou grande amizade. Juntos, promoveram palestras e debates sobre assuntos importantes e que depois foram publicados em livros.

A exemplo de Fritz Kunz, David Bohm é um dos pouquíssimos cientistas que “por intermédio da ciência” percebeu um universo vivo, inteligente, belo e até mesmo bondoso; tornando essa percepção convincentemente viva para os demais”.

A sua teoria da ‘Ordem Implícita’ emergiu dos estudos do cientista sobre as variáveis ocultas e a interpretação superficial da mecânica Quântica – “propondo que uma ordem oculta atua sob aparente caos e falta de continuidade das partículas individuais de matéria descritas pela mecânica quântica. Bohm, a exemplo de Einstein, mas por razões diferentes, nunca aceitou as interpretações correntes da teoria quântica”.

A Ordem Implícita

A idéia básica da ordem implícita: “Em geral, a totalidade da ordem abrangente não pode se tornar manifesta para nós; somente um certo aspecto dela se manifesta. Quando trazemos essa ordem abrangente para o aspecto manifesto, temos uma experiência de percepção. Mas isso não quer dizer que a totalidade da ordem seja apenas aquilo que se manifesta. Na visão cartesiana, a totalidade da ordem, pelo menos potencialmente, é manifesta, embora não saibamos como manifesta-la por nós mesmos. Precisaríamos de microscópios, telescópios e outros instrumentos”.

A sugestão básica da teoria de Bohm, de início, é a de que vivemos num mundo multidimensional e a nossa moradia está situada no nível o mais óbvio e superficial: o mundo tridimensional dos objetos, espaço-tempo, ou seja, na Ordem Explícita. Neste nível, diz Bohm, “a matéria é densa e embora possa ser descrita em relação a si mesma, não é a maneira de explicá-la e entende-la com clareza. Infelizmente é basicamente nesse nível que a maioria dos físicos trabalham hoje em dia; por isso suas descobertas são apresentadas na forma de equação de significado obscuro”.

Então, o que fazer? Bohm indica o caminho: avançar para um nível mais profundo: para a – Ordem Implícita – a Fonte e o Fundo abrangente de toda a nossa experiência física, mental e espiritual.

Esta Fonte está situada numa dimensão de extrema sutileza, ou seja, na Ordem Superimplícita. E não termina aí, além dela pode-se postular muitas ordens semelhantes “mergulhando numa fonte ou esfera infinita –n-dimensional”.

A filósofa Renèe Weer – entrevistando David Bohm – perguntou-lhe se isso ocorreria como na teoria de campo de Einstein. Bohm respondeu que “…na ordem implícita, não somente lidamos sempre com o todo (como faz a teoria de campo), mas também dizemos que as conexões do todo nada têm a ver com a localização no espaço e no tempo, mas com uma qualidade inteiramente diversa, denominada abrangência”. Para exemplificar a questão, Weer pergunta-lhe: em outras palavras, o importante é inexistência de locais de cruzamento ou travessia? “Nos modelos antigos, ou uma partícula cruza um lugar, ou uma força ou campo de energia cruza esse lugar; portanto, do ponto de vista da ordem implícita, não vemos distinção fundamental entre Einstein e Newton. Dizemos que são diferentes, mas ambos diferem na mesma medida da ordem implícita”.

O Holomovimento

Bohm denominou de Holomovimento o fundo vasto e dinâmico desta teoria. Segundo ele, o holomovimento está situado na esfera do que é manifesto. O movimento básico do holomovimento é o recolhimento e o desdobramento. “Afirmo que toda a existência é, basicamente, um holomovimento que se manifesta numa forma relativa ente estável”. Bohm explica que o fluxo está, pelo menos, numa condição de equilíbrio “fechando-se como vórtice que se fecha sobre si mesmo, embora continue a mover-se”.

Assegurou que essas seriam formas mais densas, mais estáveis da matéria, pois “até a nuvem conserva uma forma estável, de modo a ser vista como uma manifestação do movimento do vento. Da mesma maneira, a matéria como que formaria nuvens no interior do holomovimento e elas manifestariam o holomovimento aos nossos sentidos e pensamentos comuns. Todos átomos, células e corpos são formas de holomovimento. Isso começa a favorecer a compreensão da mecânica quântica: esse desdobramento constitui uma idéia direta do que é entendido pela matemática da mecânica quântica. Estamos falando precisamente sobre o que é chamado de transformação unitária ou descrição matemática básica do movimento na mecânica quântica. Trata-se simplesmente da descrição matemática do holomovimento”.

Holomovimento e a Física Quântica

“A matemática moderna da teoria quântica considera a partícula como um estado quantizado do campo – um campo espalhado no espaço, mas, de alguma forma misteriosa, dotado de um “quantum” de energia. Cada onda do campo apresenta um certo “quantum” de energia proporcional à sua freqüência. Considerando-se o campo eletromagnético no espaço vazio, por exemplo, verá que cada ponto possui aquilo que se chama energia em ponto zero, abaixo do qual não pode descer, mesmo não havendo energia disponível. Se se pudesse juntar todas as ondas em uma região qualquer, se descobriria que estão dotadas de uma quantidade infinita de energia já que é possível um número infinito de ondas. Porém, se é que estamos certos que a energia não pode ser infinita, que não é possível continuar adicionando infinitamente ondas cada vez mais curtas, deverá haver uma onda de comprimento mínimo; desta forma, o número total de ondas seria finito, como finita também seria a energia. Não sabemos qual seria o comprimento mínimo, mas existe razão para suspeitar que a teoria gravitacional (de acordo com a relatividade geral) será capaz de determiná-lo no futuro, pois já determinou a significação de “compriment” e sua mensuração. Ainda temos um longo caminho a percorrer nesta questão, pois quando afirmamos que o campo gravitacional é constituído de ondas quantizadas sabemos que existe um determinado comprimento abaixo do qual o campo gravitacional se torna indefinível em virtude do movimento em ponto zero, o que nos impossibilita definir o comprimento. Desta forma o comprimento desaparece a curtíssimas distâncias – algo em torno de 10,33 cms. E há algo que ainda não compreendemos: Caso se avaliasse a quantidade de energia no espaço, com essa onda de comprimento mínimo, concluir-se-ia que a energia existente num centímetro cúbico ultrapassa de muito a energia total da matéria conhecida no universo! Como entender tal coisa?

A física moderna afirma que o vácuo contém toda a energia até então ignorada (pelos físicos) por não poder ser mensurada por instrumentos. Porém, mesmo com tantos físicos contemporâneas afirmando que existe partículas absolutamente não-mensuráveis por qualquer instrumento, a majoritária corrente conservadora – dita cartesiana – ainda hoje considera real apenas aquilo que pode ser mensurado por instrumentos! Afirmo, porém, que no atual estágio da física teórica, é impossível não admitir que o espaço vazio não possua essa energia. Acredito que a matéria é somente um pequenino desdobramento dessa energia, de uma minúscula onda nesse portentoso oceano de energias – embora dotada de relativa estabilidade e revestida de caráter manifesto.

Apontamos para uma realidade que ultrapassa de muito aquilo que denominamos matéria. A matéria é apenas uma ondazinha nesse contexto… Nesse oceano de energia, precisamente, que não está primordialmente no tempo e no espaço, mas na ordem implícita… Não manifesta. E pode manifestar-se nessa pequenina porção de matéria… Supõe-se que a Fonte última é imensurável, fora do alcance de nosso conhecimento.

A energia que emana do Todo, da ordem implícita, da Fonte, pode assumir aspectos diferentes em indivíduos diferentes.” Ele esclarece dúvidas dizendo que “o todo é enriquecido pela introdução da diversidade e pela realização da unidade da diversidade. A unidade ou individualidade jamais deve ser confundido com egocentrismo, pois o primeiro desdobra-se a partir do todo de maneira particular e num momento particular. O segundo é baseado na auto-imagem, um erro, uma ilusão”.

A Evolução

“Sob determinados aspectos a natureza cria e adapta-se através da evolução. Pelas leis físicas e ambientais que hoje conhecemos sabemos que somos capazes de ordenar o que fazemos, que desempenhamos um papel funcional na produção de uma ordem superior que, no meu entendimento, seria inviável sem nós. Por isto acredito que não apenas a modificamos levemente – embora em nível muito minúsculo no todo – como isso é crucial para que essa ordem possa transformar-se em algo novo, capaz de por em ação o seu potencial… Somos parte do movimento, não há separação entre nós e ele; somos parte da maneira com que se molda a si próprio.

Observando a natureza, veremos que formas elaboradas e complexas não podem ser explicadas pela mera exigência da sobrevivência. Se nossa noção de tempo postula a criatividade de cada momento, então, a todo o momento, é possível que surjam novas estruturas, coexistindo com algumas antigas. Podemos então dizer que a natureza está constantemente explorando novas estruturas de maneira intencional, e, quando estas se mostram capazes de sobreviver (mediante processo de reprodução), tomam corpo e se tornam estáveis”.

Gênesis

“A idéia atual do universo pode representar algum estágio de um universo maior, um universo de luz situado muito além do tempo. Isto pode significar que existam outros universos além do nosso, com várias idades, várias eternidades, e necessariamente, não serão sucessivos.

Até onde podemos perceber, esse universo de luz é eterno. Entretanto, a certa altura, alguns desses raios luminosos se juntaram e produziram a grande explosão – o Big-Bang. Isso desencadeou o nosso universo, que também terá um fim.

Segundo declara a física moderna, antes da grande explosão – Big-Bang – não existiam moléculas, quarks e átomos. Mas, se afirmamos que havia leis fixas e imutáveis que regiam moléculas e átomos, o que acrescentaremos se remontarmos ao tempo onde eles sequer existiam? A física nada tem a dizer sobre isto. Só declara que, num determinado estágio, essas partículas se formaram. Portanto, deve ter havido um desenvolvimento real em que a necessidade se fixou mais e mais num determinado campo. Vê-se isso quando se esfria uma substância que se liquefaz: primeiro aparecem grumos líquidos transientes, que depois vão se consolidando. Os físicos explicam isso alegando que as leis das moléculas são eternas; as moléculas são meras conseqüências dessas leis, meras derivações delas.

Recuando no tempo perguntamos: Onde estavam as moléculas? A resposta é: Originalmente eram prótons e elétrons, que eram quarks, que eram subquarks… E chegamos ao estágio em que nenhuma dessas unidades existia e no qual esse esquema todo se esfuma! Afirmo que os campos de necessidade não são eternos, mas estão constantemente se formando e desenvolvendo.

Na física, Descartes vê o movimento como sendo uma entidade ou qualquer coisa que se mova de um ponto a outro. O holomovimento de Bohm não concorda com o pensamento cartesiano. O seu holomovimento é Manifestação e Não-manifestação ao mesmo tempo. Nele, a ordem implícita as vezes se torna Manifesta e outras vezes Não-manifesta, dependendo das vibrações de energias”.

Criação e Seleção

Sendo a ordem explícita – o universo de luz – a Fonte (que muitos denominam de Deus) de toda a manifestação, podemos supor que, talvez, o universo Pense. O universo tenta uma variedade de formas. Apesar de falhas e limitações a seleção natural explica, em parte, como as coisas sobrevivem depois de sua emergência ou aparição, mas não explica porque tantas formas surgiram. “Parece existir uma tendência em produzir formas e estruturas, sendo a sobrevivência ou seleção natural um mero mecanismo que escolhe as formas destinadas a durar. Toda forma incompatível consigo mesma ou com o meio ambiente está fadada ao desaparecimento. Penso que o universo aprende”.

“Acredito que o universo aprende constantemente. O elétron, por exemplo, ‘observa’, ‘presta atenção’, registra e reune informações a nosso respeito, a respeito do universo inteiro, e responde conforme essas ‘informações”.

A Produção de Formas

Tomando a semente como exemplo Bohm diz que “…sua energia e nutrientes vêm do sol, do ar, da terra, da água e do vento, mas a própria semente tem pouquíssima energia. No entanto, possui a forma da planta e essa minúscula energia ou forma se imprime em todos os outros fatores para produzir a planta. Essa pitada de energia governa, de algum modo, o desenvolvimento subseqüente, de modo que o sistema inteiro se destina à produção de uma planta e não de um cão, gato ou outra coisa qualquer…”

“Pensamento e matéria são ordens muito parecidas. Podemos dizer que a natureza ou a matéria também é criatividade e pensamento intuitivo. Assim, num certo sentido, a natureza tem vida e inteligência. Ela é mental e material, como nós. Se alguém é percebido como inimigo, a matéria se organiza de maneira diferente do que o faria caso se tratasse da percepção de alguém amistoso. O elétron faz praticamente o mesmo que nós, ao reagir a determinada situação. Ele observa o ambiente e reage conforme a reação”.

O Que Seria a Matéria para Bohm?

Bohm, falando sobre a metáfora existente no misticismo: iluminado, iluminação, fez-se a luz – chega a uma conclusão muito importante sobre a origem da matéria à luz da física moderna.

Bohm: “Quando um objeto se aproxima da velocidade da luz, segundo a relatividade, seu espaço interno e seu tempo interno mudam; o relógio se atrasa em relação a outras velocidades e a distância é encurtada. Descobre-se que as duas extremidades do raio luminoso não guardam tempo ou distância entre si, representando conseqüentemente um contato imediato (esclarecido pelo físico G. N. Lewis nos anos 20). No ponto de vista da moderna teoria de campo, os campos fundamentais são os dotados de energia superior, em que a massa pode ser negligenciada; eles poderiam se mover à velocidade da luz. A massa é um fenômeno originado da conexão dos raios luminosos em seu avanço e recuo, uma espécie de consolidação num dado esquema. Então, é como se a matéria fosse luz consolidada, congelada. A matéria não se constitui apenas de ondas eletromagnéticas, mas, num certo sentido, de outros tipos de ondas que avançam à mesma velocidade. Portanto, toda a matéria é condensação de luz em esquemas que avançam e recuam a velocidades médias, inferiores à da luz. O próprio Einstein teve vislumbres dessa idéia. Diríamos que vir à luz, significa assumir a atividade fundamental onde a existência se embasa, ou, pelo menos, aproximar-se disso.

A luz é o meio através do qual o universo inteiro se concentra em si mesmo… É uma condição real, pelo menos no quadro da física… A luz é energia, informação. Conteúdo, forma e estrutura. É o potencial de tudo.”

Físicos e Física

Perguntado sobre o que pensa outros cientistas à respeito de sua teoria, David Bohm disse que “a física moderna não passa de um sistema destinado a computar e fornecer resultados empíricos. Considero que toda a idéia nova deve pressupor o livre jogo da mente, sem demasiada consideração pelos resultados empíricos”. Na verdade até os convencionais (físicos) já aceitaram essa teoria, mas esses sempre dizem: ‘Para que serve? Não produz nada diferente daquilo que já fizemos. Só nos interessam resultados empíricos. Levá-la-emos em consideração quando começar a fazê-lo, levaremos tudo em consideração”.

Sobre o atual ensino da física David Bohm diz que “…lamentavelmente o nível decaiu muito, pois a dogmatizaram e mecanizaram-na. O que se faz hoje é apresentar fórmulas aos estudantes e declarar: ‘Isso é a mecânica quântica.’ E assim a nova geração vai escrevendo livros sem uma base sólida, esquecendo as profundas questões filosóficas que sempre foram o sustentáculo da abordagem total da física”.

Conclusão

Como disse Eduardo C. Borgonovi, autor do Livro das Revelações, “além de clara e profunda a Teoria da Ordem Implícita de David Bohm é a primeira a revelar e provar no plano científico, algumas verdades seculares que até então só podiam ser aceitas e compreendidas pela fé”.

Não somente a física, mas todas nossas ciências estão dogmatizadas. São pessoas como Newton, Einstein, Bohm e tantos outros que, rompendo barreiras da ignorância geradas pelo dogmatismo elevam o conhecimento humano a patamares cada vez mais altos. No futuro, ciência e religião caminharão bem mais próximos, trocando informações e pavimentando o caminho da verdade que, inevitavelmente nos levará à FONTE de tudo que foi, é e sempre será…

Fontes

1. Diálogos com Cientistas e Sábios – Renèe Weber ed. Cultrix

2. O livro das Revelações – Eduardo Castor Borgonovi – ed. Alegro

3. Krishnamurti, & D. Bohm – Truth and Actuality – Victor Gollanez Ltd.

4. A Totalidade e a Ordem Implicada – David Bohm – São Paulo – Cultrix.Teoria da Ordem Implícita

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